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terça-feira, 16 de maio de 2017

Sinfonia em mimimi menor



Quando estive no BC rapidamente me acostumei com as reações depois de cada decisão do Copom: se subíamos os juros, não deveríamos; se mantínhamos, deveríamos ter cortado; se cortávamos, não era o suficiente. Apesar disso sempre acreditei que, por mais iradas que fossem as declarações sobre a Selic, o que realmente tiraria aquele pessoal do sério seriam mudanças no crédito subsidiado do BNDES.

Não me enganei. Há, segundo relatos da imprensa, pressões para que a atual administração do BNDES, capitaneada por Maria Sílvia Bastos, seja substituída.  Reclamam que o crédito estaria “travado”, dificultando a recuperação do investimento, enquanto concessionárias pedem mais recursos subsidiados. Isto ocorre, não por acaso, depois que foi divulgada a nova taxa de juros que balizará os empréstimos do banco (sem afetar, contudo, as operações já existentes) e que deve gradualmente eliminar os atuais subsídios.

Resta claro que o problema para os insatisfeitos é o fim da considerável transferência de renda para aqueles que conseguiram se financiar junto ao BNDES. Numa primeira aproximação, considerando o volume de empréstimos do banco (R$ 586 bilhões), bem como a diferença entre a taxa a que o banco empresta (a TJLP, 7% aa) e o custo destes empréstimos para o Tesouro Nacional (a Selic, 11,25% aa), o subsídio consome cerca de R$ 25 bilhões/ano.

Em outras palavras, o Bolsa-Empresário custa aproximadamente o mesmo que o Bolsa-Família e, como este, também implica considerável redistribuição de renda, apenas no sentido oposto: de todos os contribuintes para os “sortudos” que hoje têm acesso ao BNDES. Não é difícil entender sua revolta; complicado mesmo é simpatizar com ela.

Haveria alguma justificativa para o subsídio caso os beneficiários – eleitos sabe-se lá por que critério – produzissem efeitos sobre o resto da economia que não fossem capturados pelos investidores, isto é, se o retorno social do investimento fosse superior ao retorno privado. Falando sério, porém, quem realmente acredita que haja perto de R$ 600 bilhões em oportunidades como esta? Aliás, quem acredita que o critério tenha sido realmente este, ou ainda que se aplique a setores “de ponta”, como frigoríficos e assemelhados?

Não bastasse isso, não há evidências sólidas acerca de efeitos positivos destes empréstimos sobre o investimento. Ao contrário, conforme relatado por meu colega de Insper, Sérgio Lazzarini: “ao estudar o efeito dos empréstimos e investimentos em equidade do BNDES, descobrimos que eles não têm efeito consistente sobre performance e investimento, exceto pela redução de gastos financeiros”.

Já outro colega de Insper, Marco Bonomo, não apenas reforça as conclusões de Lazzarini, como mostra também que empresas que têm acesso ao BNDES são menos afetadas pelas alterações das taxas de juros, sugerindo que o crédito subsidiado, como se suspeitava, reduz a eficácia da política monetária, isto é, requer uma Selic mais alta para compensar o efeito da TJLP mais baixa.


É precisamente por afrontar o status quo que a atual diretoria sofre as pressões nada surdas dos que temem perder os privilégios e, como na reforma da previdência, querem justificar a boquinha. Não estão preocupados com qualquer recuperação que não seja a de suas regalias.



(Publicado 10/Mai/2017) 

Reações:

34 comentários:

Converse com empresários do setor produtivo, que o senhor vai entender a importância do BNDES.

Pra esses economistas com fé cega na economia de mercado, sugiro uma leitura atenta de Mariana Mazzucato (O Estado Empreendedor)

Rever conceitos é aprender, evoluir.

Posso ir sem a carteira?

O correto seria extinguir o BNDES!!

motivos:

- gera inflação, pois, o banco cria este "dinheiro" sem ter lastro;
- gera possibilidades de corrupção;
- gera desarranjo nas concorrências, criando as "campeãs", as quais estão sempre nas investigações atualmente por ilicitudes;
- é matematicamente ilógico, o governo lança um título a 10% ao ano e repassa o dinheiro como empréstimo a 3% a.a, isso é alquimia;
- prejudica a livre concorrência, nem todos de um setor conseguem empréstimos junto ao BNDES, logo, para se alavancarem em bancos privados os jutos no mínimo serão 15% a.a.

solução:

- a empresa quer se financiar, busque investidores, empréstimos em bancos privados, lance debêntures ou abra o capital.

"Pra esses economistas com fé cega na economia de mercado, sugiro uma leitura atenta de Mariana Mazzucato (O Estado Empreendedor)"

Quem?

Manzzucaro bla bla bla....
uma coisa é o estado investir em tecnologia de ponta quando outros nao iriam, como criar internet (como instrumento de guerra e espionagem a principio) ou ir a lua quando obviamnete nenhuma empresa privada iria sozinha...OUTRA coisa é investir no PECUARIA, mineracao, soja e outros setores que obviamente a iniciativa privada da conta do recado.
Alem disso, quando se fala em internet e uns poucos que o estado ajudou acabamos esquecendo todos os outro$$$$ investimentos que foram pelo ralo. Esses nao aparecem na pesquisa da Manzzucato né?

"... entender a importância do BNDES."
Certamente que sim. Numa das suas recentes colunas "Uma história de dois Planos Marshall" http://www1.folha.uol.com.br/colunas/samuelpessoa/2017/05/1883849-uma-historia-de-dois-planos-marshall.shtml) Pessoa compara os gastos com do plano Marshall que ajudou a reconstruir a Europa e o que o BNDS emprestou recentemente: "(...) O gasto do programa de recuperação da Europa, também conhecido por Plano Marshall, corresponderia a preços de hoje a cerca de US$ 100 bilhões, ou R$ 315 bilhões ao câmbio de R$ 3,15 por dólar.
Por aqui, entre 2008 e 2014, o Tesouro emprestou ao BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social), a taxas muito reduzidas e em condições extremamente favoráveis, R$ 400 bilhões. Ou seja, uma quantia de dinheiro 25% maior e que atingiu uma população 31% menor do que aquela beneficiada pelo Plano Marshall."
Quem pegou o dinheiro? "..., diversos trabalhos acadêmicos documentaram que as firmas que se beneficiaram do crédito subsidiado eram as maiores, mais antigas e menos arriscadas. Essas empresas não investiram mais do que as empresas equivalentes não beneficiadas
pelos créditos subsidiados.", conclusão esta derivada da comparação "com empresas com as mesmas características, mas que não tiveram acesso ao incentivo." O que foi feito então com o dinheiro?
"Dado que essas empresas não elevaram seu investimento, mas aumentaram seu endividamento e seu custo financeiro foi reduzido, provavelmente o crédito subsidiado foi empregado para liberar recursos dos acionistas para serem aplicados no mercado financeiro
com maiores retornos.". As evidências estão no pdf do banco mundial que pode ser baixado na net: "Brazil - Financial Intermediation Costs and Credit Allocation".Ou seja, dinheiro foi pego a 6, 7% e aplicado - pelo menos parte - em títulos da dívida que pagavam juros bem maiores... . O BNDS serviu para muita gente ganhar dinheiro com a diferença dos juros SELIC, etc e TJLP ...

"Pra esses economistas com fé cega na economia de mercado, sugiro uma leitura atenta de Mariana Mazzucato (O Estado Empreendedor)

Rever conceitos é aprender, evoluir."

Falando na Profª Mazzucato, aproveite e leia este tweet dela:
https://twitter.com/MazzucatoM/status/862925903231430656
ou https://web.archive.org/save/https:/twitter.com/MazzucatoM/status/862925903231430656, caso ela apague. Eis uma excelente oportunidade para rever conceitos, aprender e evoluir.

Tem o banco agrícola: BB, o banco imobiliário: CEF, e o banco industrial: BNDES. Acredito que deles, o BNDES é o que mais subsidia, e há muito tempo. Lembra a época do café, quando a pressão política dos fazendeiros levava o governo a estocar grandes quantidades do produto para segurar o preço, assumindo o prejuízo. Hoje quem pressiona são as federações da indústria, mas garantem que é para o bem do país.

Mariana Mazzucato, mestre e doutora pela New York School of Social Research. Não é preciso saber dela mais nada além disso para concluir que ela deve ser absolutamente ignorada, assim como não é preciso saber mais nada de um economista da Unicamp além de que é da Unicamp para ignorá-lo. Se tivéssemos seguido à risca esta heurística, não estaríamos atolados na merda como ainda estamos e estaremos por muito tempo.

Alex, geralmente nego fala que pelo fato da tjlp ser inferior a Selic, isso induz uma parcela da demanda agregada a aumentar (investimento), e o BCB precisa praticar um juro mais alto, contraindo a outra parcela da demanda, de forma a manter a economia no potencial, certo? Isto posto, como pode o bndes influenciar a selic se ele nao adiciona nada? Ou seja, como conciliar as duas evidencias citadas por voce? Abs, X

Anônimo disse...
Converse com empresários do setor produtivo, que o senhor vai entender a importância do BNDES.

Caro anonimo, o Alexandre sabe da importância, tanto que disse claramente que eles estão revoltados e não querem perder a boquinha, ops, desculpe, o subsidio...

"Ou seja, como conciliar as duas evidencias citadas por voce?"

Pela evidência do Bonomo: "Marco Bonomo, não apenas reforça as conclusões de Lazzarini, como mostra também que empresas que têm acesso ao BNDES são menos afetadas pelas alterações das taxas de juros"

"Pela evidência do Bonomo: "Marco Bonomo, não apenas reforça as conclusões de Lazzarini, como mostra também que empresas que têm acesso ao BNDES são menos afetadas pelas alterações das taxas de juros".

Tudo bem, eu li o artigo do Bonomo e, inclusive, acho o mesmo problemático em alguns aspectos. Por exemplo, ele extrapola uma evidência micro para uma conclusão macro e isso não é necessariamente verdade. Se possível, gostaria que você explicasse qual o mecanismo está por trás do que você coloca no teu artigo. Da forma como vejo, não faz sentido pensar que o juro de equilíbrio é mais alto num mundo em que o BNDES não tem adicionalidade no investimento. O juro de equilíbrio só é maior porque o BC é obrigado a compensar o aumento do investimento gerado pelo BNDES (e sua TJLP baixa) com a queda de outros componentes da demanda sensíveis à política monetária.

Abs, Economista X

Boa noite.

O futuro chegou: https://www.youtube.com/watch?v=JSUIQgEVDM4

Estamos vendo hoje as repercussões das políticas do BNDES dentro do ambiente político/empresarial, com um dos donos do poder ajudando a desvendar as entranhas da nossa Administração Pública.

Fica muito claro quando um ex-ministro da Justiça considera normal a corrupção e não mudar as leis que impedem de uma firma conseguir a sua licença, que algo está muito errado. Hoje, sabemos que existe áudios que cargos são comprados para destravar negócios e provavelmente atrapalhar dos concorrentes.

A primeira pedra seria uma reforma administrativa com um processo ágil para punir servidores pegos em ilícitos e cortes em milhares de cargos de comissão e confiança.


Mais um comentário, hoje, as ações caem, milhares perdem dinheiro, e a CVM em silêncio. Em quais países do mundo isso iria acontecer?

Por razões óbvias a notícia está ofuscada, mas a PNAD trimestral denunciou um cataclismo: a taxa de desocupação passou de 10,9% para 13,7%, na comparação com o mesmo trimestre do ano passado. E ainda vai piorar.

Será que a aristocracia judiciária conseguiu implodir as reformas da previdência e trabalhista usando a pegadinha dos caipiras engordados pelo BNDES?

Os livros de memórias de FHC( que não eram recomendáveis para menores de 40 anos ) agora,depois da Lavajato ,podem ser lidos a partir dos 16 anos como introdução a política nacional.

Até que enfim aLava Jato descobriu um corrupto no judiciário! Deverá ganhar uma bela aposentadoria?

Alexandre, Por um acaso, em algum momento da sua vida academica, você chegou a ler /consultar o livro Open Economy Macroeconomics (1974) do Dornbusch? O que acha?

Você indicaria para uma graduanda? Pergunto isso pq vi que o Bacha sempre fazer referencia a esse livro, quando explicita o modelo de Macro Aberta, além de me parecer bem didático os modelos nesse tipo de exposição.

Obrigada, Laura

Fui consultar o livro do Bobbio sobre formas de governo para tentar entender nossa situação : parece que estamos saindo de uma Democracia Representativa Corrupta para uma Autarquia (Oligarquia?) Judiciária Angelical( sem eleições obviamente).

Alex,

Você costuma bater nas merdas que surgem na política econômica. Com louvor. Por favor, escreva uma coluna sobre a parcialidade do judiciário brasileiro. Esse Gilmar Mendes é descarado demais. Por favor, use sua influência para mudar o país pra melhor.

Rapaz, se eu sou um banqueiro em um país com taxa básica de juros superior a 10%, mas existe um banco de fomento estatal e federal, responsável por algo como 1/3 do crédito setor produtivo, emprestando dinheiro pela metade da taxa básica... Bem, como banqueiro, eu não tenho como competir com o banco de fomento estatal e logo vou presumir que todo empresário que quiser financiar seu negócio irá correr para o banco estatal e seus juros subsidiados. Se, por ventura, um empresário aparece em minha porta pedindo crédito para mim, mesmo sabendo que não terei como cobrar abaixo da Selic; por razões de custos de operação e porque quero lucrar nos meus negócios, de duas uma: esse empresários é maluco ou o negócio dele tem o nome sujo na praça. Então, cobrarei dele juros ainda maiores que os cobrados por mim em condições normais, como uma espécie de bônus de risco por alguém que não pode pegar dinheiro com o BNDES estar vindo até mim.

Conclusão: O próprio BNDES estimula juros maiores no crédito corporativo não -subsidiado.

Eu gosto de modelinhos econométricos de 50 mil variáveis, não vou mentir, mas as vezes os economistas estão tão preocupados com o tamanho do espaço amostral - como demonstrou o EconomistaX - que se esquecem de um pouco de "real world insight" em seus modelos.

Qual a sua projeção para o PIB deste ano?

"Será que a aristocracia judiciária conseguiu implodir as reformas da previdência e trabalhista usando a pegadinha dos caipiras engordados pelo BNDES?"
Não entendi, da pra apresentar melhor esse argumento? não to sendo ironico, acho que concordo com vc, mas queria entender melhor

O amigo do aclamado colunista nos diz:
“ao estudar o efeito dos empréstimos e investimentos em equidade do BNDES, descobrimos que eles não têm efeito consistente sobre performance e investimento, exceto pela redução de gastos financeiros”

A galera de economia na FGV não ensina que quando cai o preço ofertado aumenta a quantidade consumida? Ou seja, cai custo de investimento, aumenta-se a quantidade final da mesma, certo?

Agora vai ter que rebolar pra dizer que é culpa da elasticidade

Tiago Moraes, confesso que senti pena ao ler seu comentário. Qual estrutura de mercado permite aos bancos cobrar esse juro mais elevado que vc supoe? Alem disso, se voce leu Stiglitz e Weiss (1981) deveria saber que sua escolha simples de aumentar juro pode sair pela culatra. Sinceramente, acho que vc deve voltar pros modelinhos de 50 variaveis que aparentemente vc diz dominar. Abs

Fala Alex, beleza!? Então:

7% - 11,25% = - 4,25% de 'cunha fiscal', que ponderados naqueles 586 bi lá dá dos 24,095 bi negativos para os pagadores de impostos; porém, 'positivos para os mamadores' do dinheiro alheio. E são daqueles 25 bi 'redondos' transferidos a eles. Tá bom! Bem, 'tá bom!' pra eles (...) néh?
Aqui nós, como você, não acreditamos nessa de que há 'externalidades positivas' para os pagadores de impostos. Na realidade, nós aqui fomos obrigados a abandonar a nossa fé cega numa 'política industrial' depois desses 13 anos de governo 'peteba'. Valeu Alex!

anonimo das 22

Alex provavelmente nãos abe de que turma são vcs.
eu sei!
Te respondendo, efeitos externos positivos vc vê claramente num projeto de transporte publico.
Suponha uma ferrovia que vá tirar milhares de caminhões da estrada, menos buracos, menos mortes e até menos arrecadação de pedágios. Por outro lado, o investidor da ferrovia não vai captar o lucro do cara que passou 1 mês na UTI por causa dum acidente, ou uma família que perdeu o pai, etc, etc, etc...

Mais ou menos o mesmo válido para Metrôs, portos, aeroportos, tecnologias limpas.

Então quando vcs forem criticar tem que saber separar o joio do trigo. Tarefa ardilosa nos dias atuais.

Boa sorte para ambos.
não passem dos limites
abrx

"Por um acaso, em algum momento da sua vida academica, você chegou a ler /consultar o livro Open Economy Macroeconomics (1974) do Dornbusch? O que acha?"

Li e é um belo livro. Está longe da fronteira, mas dá uma boa base para graduação. Para pós o melhor é Obstfeld-Rogoff

"Alem disso, quando se fala em internet e uns poucos que o estado ajudou.."

Nao foram poucos, pelo contrario. E o ponto dela nao e que o Estado simplesmente "ajudou", o Estado "criou" mercados.


"acabamos esquecendo todos os outro$$$$ investimentos que foram pelo ralo. Esses nao aparecem na pesquisa da Manzzucato né?"


Aparece sim, basta ler o livro

"Mariana Mazzucato, mestre e doutora pela New York School of Social Research. Não é preciso saber dela mais nada além disso para concluir que ela deve ser absolutamente ignorada"


Bom mesmo eh o Insper

"Bom mesmo eh o Insper"

Pelo menos o Insper nao leva à conclusão necessária de que o formado por lá deve ser ignorado...