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terça-feira, 5 de julho de 2016

Canário do Reino

Olhando do Brasil o resultado do plebiscito que pede a saída do Reino Unido (RU) da União Europeia (UE) parece algo remoto. A libra esterlina, no momento em que escrevo, perdeu 13% do seu valor face ao dólar desde o Brexit; já o real se desvalorizou em torno de 1,5%. Mesmo que pudéssemos atribuir todo o movimento da moeda ao evento traumático da semana passada, a conclusão inescapável é que o mercado financeiro local não deu maior importância ao acontecimento.

De fato, da perspectiva brasileira, os impactos parecem mesmo limitados. Pelo lado real da economia, o RU foi o destino de US$ 2,7 bilhões das exportações nacionais nos 12 meses terminados em maio, 1,4% do total exportado no período, pouco mais do que vendemos, por exemplo, para o Uruguai.

Por outro lado, embora ao menos em tese a “fuga para a qualidade” que se seguiu ao Brexit pudesse levar a um aumento da percepção de risco, na prática este efeito foi bastante limitado. Mantivemos a duvidosa honra de apresentar o risco-país na casa de 3-3,5% ao ano devido principalmente aos desenvolvimentos locais, em particular graças às dificuldades de ajustar as contas públicas.

Não se segue, porém, que devamos ignorar outras possíveis (e prováveis) consequências do Brexit. Por mais que se tente associar a decisão ao intervencionismo excessivo de Bruxelas (verdadeiro, aliás), me parece claro que o voto pela saída da UE não refletiu um impulso liberalizante, mas sim seu oposto.

A questão central no caso é o repúdio à livre circulação de trabalhadores no bloco, claramente exposta na questão da imigração. Uma piada local relatava que encanadores ingleses reclamavam da concorrência “desleal” de seus congêneres poloneses, que teriam o desplante de não apenas marcar visitas a seus clientes, mas – para horror local – efetivamente aparecer na hora marcada.

Isto não é um privilégio britânico. Por mais que a elite politica europeia tenha se empenhado em aprofundar a integração econômica do continente, sacudido por guerras sangrentas nos últimos séculos, a triste verdade, desnudada pela crise da Zona do Euro (um pedaço da UE), é que a população jamais comprou a ideia de uma união cada vez mais próxima (“ever closer union”), como expresso na Declaração Solene da UE.

Ao contrário, o que sobreviveu aos planos de integração e hoje se manifesta de forma crescente é um nacionalismo xenófobo, que não raro descamba para o racismo. A faceta mais visível do fenômeno no continente é a ascensão da Frente Nacional na França, personificada por Marine Le Pen, mas está longe de limitar a isto, encastelado nos governos da Hungria e Polônia, ganhando força na Holanda, Alemanha e outros países da UE, para não mencionarmos alguns aspectos da candidatura Trump nos EUA.

São forças que agem no sentido contrário da integração, frequentemente aliadas a seu antípoda ideológico, partidos de esquerda e sindicatos, temerosos desde sempre acerca dos efeitos da globalização.

Não há, portanto, como ignorar riscos políticos à expansão do comércio internacional e, por extensão, do próprio crescimento global. O Brasil faz parte desta engrenagem e depende como nunca de crescente integração para se recuperar da crise.


O Brexit é o canário na mina da globalização.

This canary is no more
 It has ceased to be. It's expired and gone to meet its maker. 
This is a late canary. It's a stiff. Bereft of life, it rests in peace. 
It's rung down the curtain and joined the choir invisible. 
This is an ex-canary...


(Publicado 29/Jun/2016)

Reações:

49 comentários:

O senhor se considera liberal-conservador ou de esquerda? O seu posicionamento é diferente de pensadores como Rodrigo Constantino.

http://rodrigoconstantino.com/artigos/uma-nova-thatcher-para-liderar-nova-fase-do-reino-unido/

"O senhor se considera liberal-conservador ou de esquerda?"

Só há estas duas possibilidades?

Rodrigo Constantino, "pensador"? Hahahaha...

Ainda bem que o posicionamento do Alex é diferente do do Constantino...

A “elite política europeia” prometeu que a globalização e a integração trariam um crescimento ímpar na Europa. Passaram-se décadas e o grande crescimento prometido não ocorreu. Agora a solução, de acordo com essa mesma “elite”, seria a perda de direitos trabalhistas, conquistados no século passado, os quais curiosamente não foram entrave para o período de grande crescimento europeu após a 2a Guerra Mundial.

Com todo respeito, é bem compreensível que surjam “forças que agem no sentido contrário da integração”.

O indivíduo que é de direita defende valores libeirais na economia,e valores conservadores no campo moral. O sujeito de esquerda defende valores intervencionista na economia.

O projeto político da União Europela vai contra os valores liberais pelo fato de que ela concentra poder demais nas mãos de uma burocracia supra nacional.

Vale a pena ler o artigo do Rodrigo Constantino em que ele afirma que o Brasil pode significar mais globalização e não menos.
http://rodrigoconstantino.com/artigos/o-brexit-pode-significar-mais-globalizacao/

"O indivíduo que é de direita defende valores libeirais na economia,e valores conservadores no campo moral. O sujeito de esquerda defende valores intervencionista na economia."

Oh, really?

Que pensador sofisticado... É uma honra ter você no blog, mas preciso que me diga quando vai voltar ao zoo.

Eu citei o texto do Constantino,o senhor nem leu para avaliar os pontos em que o senhor não concorda.

Em relação a imigração, o argumento de conservadores como Ben Shapiro e de que os imigrantes não compactua com valores e conservadores como ter um governo limitado,eles preferem um governo grande.

Bem Shapiro não é nenhum picareta,e conservador respeitado e é comentarista da Fox.

O vídeo dele está aqui
https://m.youtube.com/watch?v=tTXILmKdrjo


A União Européia começou como uma promessa de livre mercado, mas acabou criando um novo "estado" acima das nações.

Noruega e Suíça por exemplo não entraram nessa barca furada e estão bem, obrigado.

Livre-comércio é como o próprio nome diz: LIVRE. Não precisa de uma nova entidade para gerir. Basta alguém que compra e alguém que vende. É tão ridículo que não sei como conseguem fazer tanta confusão.

"Eu citei o texto do Constantino,o senhor nem leu para avaliar os pontos em que o senhor não concorda."

Para você ver a importância que dou às suas opiniões

Infelizmente o senhor é de esquerda ,intervencionista,além de que seu texto e políticamente correto.O senhor se recusa a ler as opiniões autores de conservadores sobre o tema.

"Infelizmente o senhor é de esquerda ,intervencionista,além de que seu texto e políticamente correto.O senhor se recusa a ler as opiniões autores de conservadores sobre o tema."

Devem ter colocado algo estranho no seu feno. Fale com seu tratador

De acordo com o centro de estudos de livre imigração :81% dos imigrantes hispânicos desejam um governo grande com mais serviços,61% dos imigrantes hispânicos sao a favor do Obama-Care,66% dos imigrantes hispânicos defendem o aborto,58 % dos hispânicos católicos se identificam com o partido democrata.Infelizmente a imigração hispânica não favores aos valores conservadores de possuir um governo limitado.

Esse povo de vista e defendido por Ben Shapiro.

Marilena Chauí devia passar por uma reciclagem na Unicamp - trocar de feno -: Moro foi treinado pela CIA para defender os banqueiros e rentistas yankees (as sete irmãs já eram).

Nada como os grandes benefícios trazidos pela globalização!!!

Para criar competitividade, a “CNI defende carga de trabalho de 80 horas semanais no Brasil” [Fonte: Veja Online em 08/07].

Alexandre, essa semana surgiu uma discussao sobre efeito da confianca no brasil. Acho isso meio fada, como colocam alguns. Voce acredita que a confianca traga efeitos expansionistas na atividade?

Bj
Luiza

Eu tenho passado uns tres meses por ano na Europa, na Alemanha, Holanda, Belgica e UK. Neste ultimo pais a situacao chega a ser patetica. Londres vive um esplendor nunca visto. Aberdeen - a capital do petroleo do Mar do Norte - nao ia mal ate' o colapso do preco. Mas os antigos centros industriais - Sheffield, Liverpool, Manchester, Birmingham, Derby, Nottingham, Exeter - dao pena. A decadencia e' colossal, em clara oposicao a cidades de porte semelhante nos outros paises citados acima. Claramente a libra a 1.50 USD ainda estava brutalmente valorizada. O pais inteiro foi sacrificado no altar do financialismo londrino. A aprovacao do Brexit nao teve muito a ver com nacionalismo ou xenofobia. Ela foi sim um grito dos perdedores neste processo desvairado, onde o fluxo financeiro para as mutretas da City matou a competitividade industrial britanica. O exemplo mais aterrador: em Liverpool, em 1/3 das familias, NUNCA NENHUM DE SEUS MEMBROS JAMAIS TRABALHOU. Criaram currais de pobreza assistida. Quem ja' perdeu roga pela manutencao das esmolas governamentais. Os que estao sendo arrastados para a mesma situacao, votaram LEAVE.

Alex,

O que acha do BNDES?

Abs
Carlos

"Alexandre, essa semana surgiu uma discussao sobre efeito da confianca no brasil. Acho isso meio fada, como colocam alguns. Voce acredita que a confianca traga efeitos expansionistas na atividade?"

Eu li o artigo do Ricardo Barboza e do Gilberto Borça (que, aliás, têm escrito coisas muito boas) e me pareceu bem feito, embora eu seja meio agnóstico com relação ao modelos VAR (preconceito meu, OK?).

Meu reparo aos impactos da "confiança" (ou melhor, dos indicadores de confiança) sobre a atividade é que eles me parecem mais refletir a atividade do que serem causa. Com o VAR eles conseguem isolar o que seria, em tese, um choque exógeno de confiança e traçar seus efeitos sobre a atividade.

Econometricamente OK, parece (não vi o modelo propriamente dito, só o relato), mas, ainda assim, o que seria um "choque exógeno" de confiança. Acho que precisamos de uma abordagem de identificação dos choques de confiança (mudança de governo, novo ministro, etc) para que me sentisse mais confortável com este tipo de coisa.

Foi a crise econômica, acrescida da migração dos refugiados da guerra civil da Síria, que impulsionou o crescimento dos partidos de extrema direita na Europa.

A retomada do crescimento econômico é a saída para esvaziar os movimentos xenófobos.

Alexandre, retomando o debate sobre Confiança no Brasil.

Vc não acha que a mudança da equipe econômica foi o grande fator catalisador dessa recuperação dos indicadores de confiança? Digo isso pq analisando de maneira mais detida tais indicadores, são os IEs (Índices de Expectativa) que mostram crescimento. Os ISAs (Índices de situação atual) ainda estão patinando. Logo, em função da nova equipe econômica, ou do governo provisório, a confiança, via expectativas, seria impulsionada.

Vc acha que tal movimento se sustente? Pergunto isso em função da coluna da Angela Bittencourt de hj no Valor, a qual mostra que a "paciência" do mercado com a nova equipe acaba a partir da decisão definitiva do processo de impedimento.

abs
Josiel

Prezado Alexandre,

Por que não gosta de modelos VAR? Se for por causa da dificuldade de identificar o que se gostaria que fosse um choque em determinada variável, então eu acho que a crítica deveria ser aplicada à vários outros métodos de análise empírica, não só modelos VAR.

Por exemplo, em alguns trabalhos seus, você recorre ao uso do GMM em estimações uniequacionais, utilizando como instrumentos as próprias explicativas defasadas. Isso é bem problemático também. Você dificilmente consegue obter uma fonte de variação exógena.

A rigor, acho que identificação macro é algo problemático, quase que de nascença. Qualquer que seja a abordagem, sempre haverá problema. Mas, na medida em que não apareça evidência mais robusta falando o contrário, acho que modelos VAR são uma ótima opção.

Um abraço, e desculpa se falei besteira, Carlos Trajano.

Oi, Carlos:

Uso VAR também, então sou tão culpado quanto todos e, sim, usar variáveis defasadas como instrumento só é "justificado" porque todo mundo usa também (obviamente não é justificativa alguma).

Meu agnosticismo com os VAR reflete uma percepção que quase tudo encontra lugar no mundo VAR. Enfim, mais preconceito que econometria.

Abs

Claro Alex, entendo bem. De fato, é tudo problemático mesmo, mas não muita alternativa também. Como diz o Benny Parcnes, que imagino que conheça, desde o Big Bang é tudo endógeno. Na ausência de algo melhor, seguimos usando esses second best...

Um abraço, e obrigado pela pronta resposta, Carlos Trajano

Acho que dois fatores governaram a recuperação dos Índices de Expectativas que fazem parte dos indicadores de confiança. Primeiro, a volta da governabilidade no país, que obviamente cria perspectivas melhores do que o impasse político em que nada ia pra frente com Dilma. Segundo, a redução de estoques que começa a aparecer em diversos segmentos. Isso claramente mexe com a expectativa do Empresário, pois sabe que o futuro da produção melhora quando os estoques melhoram.

Att, Gilson

Alex, você é foda! Parabéns pela humildade e pela paciencia com os comentários de todos nós que aparecemos aqui no blog para aprender um pouco de Economia.

Bjs, Carla

Caro sr. Schwartsman,

É possível ser seguidor deste blog? Infelizmente não consegui achar uma seção para acionar esta função.
Desde já agradeço pelos textos que o senhor generosamente disponibiliza neste site.

Um abraço,
Renata Assis.

O senhor tem algo a dizer sobre essa notícia?
http://istoe.com.br/em-um-dia-mec-nomeia-e-exonera-apoiador-do-escola-sem-partido/

Perda para o MEC. O Sachsida é um economista talentoso.

"Perda para o MEC. O Sachsida é um economista talentoso."

Qem, o Sachishikida?

"Sachishikida" kkkk. Boa

"'Sachishikida' kkkk. Boa"
Não era para o sr notar.

Saschida é um bom economista, mas parece que dedicou todos os seus neurônios à economia e não restou nenhum para os outros assuntos. É impressionante a capacidade dele de “pensar” e falar besteira!

Ele é tipo um Constantino… Com uma grande diferença: entende de economia.

O senhor se esqueceu que Donald Trump defende os mesmos valores de Ronald Reagan.

"O senhor se esqueceu que Donald Trump defende os mesmos valores de Ronald Reagan."

Sim, claro, claro...

"I believe in the idea of amnesty for those who have put down roots and lived here, even though sometime back they may have entered illegally"

http://radio.foxnews.com/2014/11/20/reagan-in-1980-i-believe-in-the-idea-of-amnesty/

Ronald Reagan, radio address, 1988: “I found this week in Brussels what the Atlantic alliance has demonstrated now for 40 years: that a peace built on strength can and will endure.”

http://www.bloomberg.com/politics/articles/2016-07-21/trump-s-threats-on-nato-commitment-draw-swift-white-house-rebuke

“Our trade policy rests firmly on the foundation of free and open markets. I recognize … the inescapable conclusion that all of history has taught: The freer the flow of world trade, the stronger the tides of human progress and peace among nations.”

http://www.cato.org/publications/commentary/reagan-embraced-free-trade-immigration


"Sim, claro, claro..."


kkkkkkkk

Ele teve o apoio de todos os membros do partido e a maioria do partidocumento defende o livre comércio.

Só para lembrar que os imigrantes ilegais são os que mais recebem ajuda do governo.

1 )"Ele teve o apoio de todos os membros do partido e a maioria do partido defende o livre comércio."

2) "O senhor se esqueceu que Donald Trump defende os mesmos valores de Ronald Reagan ."

Sou só eu, ou alguém mais vê a incoerência das duas afirmações. Afinal, amigão, Trump (ele, não o vice, não a mulher dele, não o mordomo) defende ou não livre-comércio?

"Só para lembrar que os imigrantes ilegais são os que mais recebem ajuda do governo."

Claro, estão todos recebendo seguro-desemprego, usando Medicare e se aposentando pela Social Security. Imagine se o governo americano checa a documentação...

Não defende abertamente porque o livre comercio não é uma bandeira popular,entretanto como candidato do partido republicano ele defende as bandeiras do partido.Além disso ele e um empresário,ele sabe dos impactos negativos que essas medidas trariam para as empresas americanas.

"Não defende abertamente porque o livre comercio não é uma bandeira popular,entretanto como candidato do partido republicano ele defende as bandeiras do partido.Além disso ele e um empresário,ele sabe dos impactos negativos que essas medidas trariam para as empresas americanas."

Então ele não defende.

Gozado, Reagan defendia.

Será que ele não sabia "dos impactos negativos que essas medidas trariam para as empresas americanas."?

O senhor apóia o Obamacare?

Segundo um grande pensador conservador,o senhor se junta a pessoas da esquerda tucana para criticar Trump.

http://rodrigoconstantino.com/artigos/sera-que-o-trumponomics-e-tao-ruim-mesmo/

Boa tarde a todos do fórum,

fico tão mal impressionada com a enorme repercussão que o Rodrigo Constantino tem nas redes sociais. Fui colega de classe dele, tendo estudado na PUC-Rio e posso dizer que ele nunca foi bom aluno, e mal respeitava os professores, para não dizer seus colegas. Sempre teve, e infelizmente continua tendo, uma postura arrogante e impermeável, completamente distante do que seria o papel de um pensador ou de um verdadeiro líder (seja de ideias ou não). Como um aluno mediano, sem nenhum tipo de estudo formal mais sofisticado posterior, consegue posar para tantos como pensador e agente de reflexão sobre a economia é algo que francamente me assombra. Suas ideias rasas e populistas, assim como as de Trump e de todos os populistas do mundo (sejam de esquerda ou direita) agradam a um público amplo e cego e isto, meus senhores, é uma lástima. A corrente de pensamento conservador é muito interessante e enriquecedora, mas precisa ser divulgada com seriedade e serenidade, sem sensacionalismo, sem impermeabilidade, pois, como toda corrente, possui suas falhas para o entendimento do funcionamento da economia. O que Rodrigo oferece é uma verdadeira sopa de letrinhas sem consistências. Melhor vocês estudarem a fonte, em vez das ideias rasas e deturpadas dele. Como economista ele é um ótimo peladeiro.