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terça-feira, 19 de julho de 2016

Três cartas

Segundo antiga anedota, o recém-empossado presidente de empresa encontra três cartas deixadas por seu antecessor, com instruções para abri-las apenas em momentos de crise. Quando a crise estoura, ele recorre à primeira, que diz: “ponha a culpa em mim”. Tempos depois, nova crise e a segunda carta, recomendando a mudança de toda diretoria. Já na terceira vez aconselha: “escreva três cartas”.

A administração Temer abriu a primeira, reconhecendo que o déficit primário deste ano deve atingir R$ 170 bilhões (2,7% do PIB) e notando que, na ausência de medidas compensatórias, o déficit de 2017 superaria, com folga, a casa de R$ 200 bilhões (houve menção a um número de R$ 270 bilhões, mas me parece exagerado).

Medidas foram adotadas, trazendo o valor para R$ 194 bilhões, mas o ministro da Fazenda prometeu receitas extraordinárias, originadas de privatizações, concessões e outorgas (impressão minha, ou se tratam essencialmente de sinônimos?), da ordem de R$ 55 bilhões, o que lhe permitiu anunciar uma meta de déficit de R$ 139 bilhões (2,0% do PIB) para 2017.

Estes desenvolvimentos cabem, em larga medida, no escopo da primeira carta. Não é exagero atribuir a piora extraordinária das finanças públicas a ações e omissões do governo anterior, que, conforme o prometido, “fez o diabo” para se reeleger, não só aumentando gastos, mas também fugindo de reformas que pudessem evitar o problema antes que se tornasse, como se tornou, grande demais, fato apontado por muitos economistas com enorme antecedência.  A atual equipe econômica herdou terra arrasada no lado fiscal e nos esperam anos de reconstrução à frente.

No entanto, há questões que já pertencem ao atual governo. Por mais que se argumente que o aumento ao funcionalismo já havia sido acordado pela administração ora afastada e que se enquadraria na regra do teto das despesas, não há como concluir que gastar mais possa contribuir de qualquer forma para o ajuste das contas públicas. O mesmo cabe ao acordo com os estados, cujos efeitos serão nefastos.

Apesar disto, a meta de R$ 139 bilhões (de déficit!) foi vendida como vitória da equipe econômica sobre a “ala política” do governo, para quem até R$ 170 bilhões estava de bom tamanho (raciocínio equivalente a concluir que perder da Alemanha por 6x1 seria progresso face àquela inesquecível semifinal).

Não, não foi. O número que interessa é aquele sem as receitas extraordinárias que, diga-se, ninguém sabe de onde virão, ou seja, R$ 194 bilhões (2,9% do PIB). Há pouco espaço para cortes adicionais, é verdade, mas até agora não se viu da atual administração nenhuma medida que sinalizasse austeridade no presente; apenas uma (boa) promessa para o futuro.

Isto aponta para nova batalha em 2018. Mesmo que receitas extraordinárias se materializem em 2017 (um enorme “se”), partiremos de um déficit recorrente de R$ 194 bilhões no ano que vem. A menos que se possam conjurar novas receitas (sabe-se lá de onde), possivelmente veremos piora das contas fiscais para aquele ano, já pressupondo que o teto de despesas exista e seja operacional, mesmo porque se trata de ano eleitoral.

Temer corre o risco de ter que abrir a segunda carta ainda antes do momento constitucional de escrever as três cartas para seu sucessor.





(Publicado 13/Jul/2016)

Reações:

18 comentários:

Alex, estão contidas nas estimativas para as "receitas extraordinárias" valores como os tributos das atividades, ou se limita ao valor inicial transferido para a assunção da concessão?

Boa pergunta. Não se falou muito sobre o assunto, mas pelo que se depreende, deve se limitar ao valor da concessão/privatização/outorga (e, segundo indicações mais recentes, talvez securitização de Refis)

Acho que só vão começar a cortar na carne depois da concretização do impeachment. Até lá é dificil avaliar o que o governo realmente vai fazer.


Muito bom este artigo.
Algumas pessoas, jornalistas inclusive, se acham comprometidas com o governo Temer porque apoiaram o impeachment, e acham que um fracasso do Temer seria uma vitória da Dilma!
Me preocupa a ideia de que depois da votação final, o presidente teria mais força. Mas na minha opinião, gostaria da sua, ele ainda teria um problema de legitimidade, apenas 1 ano efetivo de governo e 1 ano eleitoral. Além disso Temer não é um formador de opinião, como foi FHC.
Só vejo uma solução, a formação de uma nova elite politica, empresarial, acadêmica, realmente comprometida com uma visão mais capitalista que se dispusesse a disputar as eleições de 2018.

Alex,

Gostaria de saber se você recomendaria algum texto que examine as políticas monetárias expansionistas que vêm sendo adotadas nos últimos anos. O meio estudioso já consegue apresentar algum tipo de avaliação mais profunda sobre o assunto?

Abraços,

Rafael

A imagem que eu tenho é a de um balão levando passageiros, que está com furos e perdendo altitude. O que foi feito até agora foi jogar fora um pouco de lastro que foi o PT (lastro pesado esse). O balão deu uma estabilizada, mas continua perdendo gás.

Schwartsman, vc leu a coluna do pedro Rossi hoje no Valor? Queria saber se concorda com a opinião dele, pois me parece que faz todo o sentido. Se o mercado futuro é bem mais líquido e vai na frente, tudo o mais constante, o câmbio spot tem que ajustar (estou pensando na UIP).

Alexandre,

Leu o arigo da Zeina hoje? EXCELENTE!

Essa afirmação: "Quarto, há defasagens no efeito da política monetária. Pelos modelos do próprio BC, o efeito máximo da política monetária sobre a inflação ocorre após 5 ou 6 trimestres."

São 5/6 trimestres mesmo? Eu consigo obter esse resultado com um VAR basicão? Quais variáveis eu poderia estar usando?

Valeu!!

Laura

"Acho que só vão começar a cortar na carne depois da concretização do impeachment."

Acho que só vão aumentar impostos depois da concretização do impeachment.

MF

Ô Alex, em tempos de, tem algum esporte olímpico de sua referência?
Abrs.

Alexandre,

Conhece o Marcelo Medeiros da PUC-Rio? E o Sergio Firpo?

Abs
Karen

Prezado Alex
"A tragédia do euro", de Philipp Bagus, vale a pena ler?
Abrs.

"Ô Alex, em tempos de, tem algum esporte olímpico de sua referência? "

Joguei basquete (muito mal) anos atrás pela Hebraica. Gosto de ver atletismo, vôlei e pretendo acompanhar as provas de ciclismo. Ah, sim, ginástica olímpica ...

"Conhece o Marcelo Medeiros da PUC-Rio? E o Sergio Firpo?"

Conheço pouco.

Estive em bancas de alunos orientados pelo Marcelo e os trabalhos eram bons. O Sérgio só de vista, praticamente, mas sei da qualidade do trabalho dele.

"Acho que só vão aumentar impostos depois da concretização do impeachment."

Acho que você está certo...

"São 5/6 trimestres mesmo? Eu consigo obter esse resultado com um VAR basicão?"

Talvez consiga, mas desconfio que a Zeina se refere ao impulso resposta no contexto do modelo estrutural de pequeno porte. É um pouco mais complicado de montar que num VAR, mas dá para fazer. Aliás, há gráficos com este impulso resposta nos relatórios de inflação (de cabeça não sei, mas procure nos últimos 4...)

"Schwartsman, vc leu a coluna do pedro Rossi hoje no Valor? Queria saber se concorda com a opinião dele, pois me parece que faz todo o sentido. Se o mercado futuro é bem mais líquido e vai na frente, tudo o mais constante, o câmbio spot tem que ajustar (estou pensando na UIP)."

Conhecendo o autor, não corremos risco de estar certo. O mercado futuro reage mais rápido por ser mais líquido, mas isto não permite dizer que a formação de preços no mercado futuro não é determinada por variáveis como termos de troca (preços de commodities), risco-país, ou ainda a força global do dólar. Dê uma olhada nos trabalhos do Marcio Gracia a respeito.

"Anônimo disse...Schwartsman, vc leu a coluna do pedro Rossi..."

a) em termos de variacao tanto faz mercado fututo ou spot, é a mesma coisa, pois existe arbitragem instantanea praticamente. Os bancos zeram mesmo suas posicoes de spot primeiro no mercado futuro porque é mais liquido e depois fazem o "casado" - mercado spot x primeiro futuro.

b) la fora tambem o futuro tem mais liquidiez, a diferenca que pode confundir é que la nao é NDF e sim forward, ou seja, na data futura ele é o mesmo que um spot tornando a coisa confusa para quem estuda spot x futuro no mercado externo (com moedas conversiveis)