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quarta-feira, 26 de agosto de 2015

Um enigma chinês

Quem afirma ter entendido completamente a mudança da política cambial chinesa está enganado (ou enganando), em particular se acredita que seu objetivo central é impulsionar as exportações.

Com efeito, desde seu anúncio na semana passada o yuan perdeu cerca de 3% do seu valor, uma gota d’água para uma moeda que, segundo os índices de taxa real de câmbio calculados pelo BIS, havia se apreciado 28% (descontada a inflação) desde meados de 2011.

Posto de outra forma, o ganho de competividade advindo desta mudança é pequeno, a menos que novas desvalorizações venham a ocorrer, possibilidade que tem sido negada pela própria China (já se devemos acreditar nisto é outra história). Não parece, portanto, fazer sentido a interpretação da mudança acima mencionada, que visaria recuperar a competitividade perdida e estimular o crescimento por meio do aumento das exportações. Ajuda um tanto, mas é pouco perto do desafio de mover a imensa economia chinesa, que sente o peso da queda do investimento, particularmente no que se refere à construção civil.

Uma hipótese, talvez mais promissora, nota a tensão entre dois objetivos conflitantes.

Há, por um lado, o aparente anseio do governo chinês de ver o yuan como uma das constituintes dos Direitos Especiais de Saque (SDR, na sigla em inglês), a “moeda” do FMI, ao lado do dólar americano, do euro, da libra esterlina e do iene, visto como um passo para se tornar uma moeda de aceitação internacional.

Para tanto, porém, seria necessário que a moeda chinesa tivesse algumas características em comum com as que fazem parte do SDR, o que, dentre outras mudanças, requereria remover os controles de capitais hoje existentes.

Há, por outro lado, o desejo de manter uma política monetária frouxa, considerado o (relativamente) baixo crescimento recente da economia, assim como sinais de desaceleração à frente. No entanto, isto só é possível, sob um regime de câmbio administrado (como o chinês), quando há controles de capitais. Sem estes, uma redução da taxa de juros deveria levar à saída de capitais, que, em larga medida, anularia o efeito da queda dos juros.

A solução para este dilema (na verdade um trilema) seria a adoção de uma taxa de câmbio flutuante, mas o governo chinês parece relutante quanto a dar este passo.

Levando em consideração o fraco desempenho econômico (comparado, bem entendido, ao de uns poucos anos atrás), assim como a baixa inflação, na casa de 1,5% ao ano, há bons motivos para crer que a moeda chinesa esteja sobrevalorizada. Caso isto seja verdade, a mudança para o regime flutuante deveria causar uma desvalorização mais considerável da moeda, o que parece também causar certo desconforto às autoridades chinesas.

A mudança da semana passada aparenta ser, portanto, uma tentativa de conciliar objetivos que são, na verdade, inconciliáveis. Já numa perspectiva de um prazo algo mais longo, é possível que a mudança seja apenas mais um movimento no sentido preparar o terreno para a eventual adoção de um regime de câmbio flutuante.


Há, assim, mais dúvidas do que certezas no que se refere aos acontecimentos da semana passada. Só podemos saber que não se trata do fim da história: cedo ou tarde veremos nova reforma do regime cambial chinês.

Decifra-me, mas não agora...

(Publicado 19/Ago/2015)

Reações:

16 comentários:

Finalmente por que o Brasil não adota um regime de controle de capitais parecido com o sistema chinês?

Por que? Você quer fixar o câmbio?

Abundam cenários e aqui vai mais um: como não cortarão gastos a única maneira de evitar a explosão da dívida é reduzindo juros (juro real = crescimento do PIB , 0/2%). Terão que chamar Tombini 2 (agora pode usar como desculpa a China). O imposto inflacionário vai ajudar o fiscal. E a médio e longo prazo outro milagre tipo plano real.

A economia brasileira se move a base de eventos meio milagrosos - Campos/Bulhões , Itamar/FHC/Larida, Armínio, Palocci,China. Agora estamos esperando o milagroso Levy.

No fundo no fundo o Levy está sendo uma grande decepção. Fixado em fazer caixa não consegue ver (ou se vê é impotente para tratar o problema) que é o estado (em todas as suas instâncias) que tem de ser reformado. Superávits por conta de aumento de impostos só terão efeitos no curto prazo, pois serão anulados pela ineficiência do setor público.

Levy tem que pedir o boné e sair. Acabou pra ele.

Sds.
M

Só tenho uma certeza: isto não vai acabar bem. Está parecendo a intenção do Chico lopes de implantar a "banda diagonal exógena"!!! :/ Tem algum cheiro parecido com 1997. O banco central chinês parece acreditar que conseguirá uma transição suave para um regime de câmbio flutuante! A queda atual da bolsa chinesa mostra que a chance de suavidade deve ser remota !

JAZ

A China é importante para o mundo, pois produz grande parte das quinquilharias consumidas mundo afora. Entre as exportações e seu mercado interno de mais de um bilhão de pessoas, tornou-se uma economia gigantesca. Por enquanto sua economia está um pouco restrita, pois falta mais liberdade e criatividade para o país tomar um novo impulso e assim atingir novo patamar de desenvolvimento, semelhante à Coreia do Sul. Seus problemas são pontuais, mas seu rumo é certo e quando o país tiver mais liberdades o Yuan fará parte da cesta de moedas fortes. E eles continuarão a consumir commodities, muita coisa vinda do Brasil.

Já o Brasil não sabe o que quer ser. Investimos pouco em educação, nossas maiores indústrias são em grande parte multinacionais, suprindo o mercado interno de 200 milhões (o que não é nada mal, especialmente com as margens de lucro por aqui) e exportando alguns componentes e produtos conforme as necessidades mas deixando os melhores cargos e salários lá fora (nada de errado com as multis, mas acho uma vergonha o Brasil não ter uma montadora de automóveis própria). Claro que nosso agribusiness é ótimo, pena que perdemos tanto com uma logística tão ineficiente. Parece que estamos satisfeitos em sermos um país “second tier”.

Moeda estável necessita de boa condução da coisa pública, ou seja, transparência, bons princípios econômicos, bons investimentos em infraestrutura, trabalho e produtividade, e uma preocupação constante com a educação. Até lá, o Real ficará - ao Deus dará.

Anonimo que ta sacaneando Chico Lopes.

A banda dele não é uma má ideia quando se tem o volume de reservas da China. No Brasil, não deu certo justamente por isso.

Abs
Marcos

Alexandre Schwartsman e Luiz Gustavo Medina - Call de abertura - 27/08/2015 13h

Nova previsão de crescimento tranquiliza economia dos Estados Unidos

27 de agosto de 2015

Alex, acha que vamos manter a nota de investimento das agências de classificação de risco?

A perda da nota de investimento em duas ou três agências seria uma catástrofe econômica?

Vocês já estão rodando modelos com essa previsão?

Do jeito que a política fiscal está, e com o suporte político ao ajuste cada vez menor, acho que logo o mundo perceberá que esse ajuste é para inglês ver.

o país parou aguardando a saida da dilma. eh preciso botar em brasília alguem com a mente mais flexível Temer serve e eh o mais a mão...

Sim.Tem até um artigo do Sicsu sobre esse tema.

http://www.ie.ufrj.br/moeda/pdfs/controversias_recentes_sobre_controles_de_capitais.pdf

Teve Call de Abertura Quinta Feira? Cadê o link, Alexandre?

"Sim.Tem até um artigo do Sicsu sobre esse tema."

No caso é melhor você procurar um veterinário...

Rapaz Sicsu foi meu professor,aonde está o respeito pelas pessoas?

Alex, no seu lugar eu ja teria abandonado a profissao.
Deve ser muito frustrante apontar os numeros, historia e usar a razao e ainda assim ter que observar todas as lambancas.