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quarta-feira, 19 de agosto de 2015

Papai sabe tudo

Os agentes estão agindo com pouca racionalidade. Comprar a moeda nesses níveis pode representar um risco potencial de perda a médio prazo (sic).” Esta foi a justificativa apresentada pelo diretor de política monetária do BC, Aldo Mendes, para retomar a intervenção no mercado de câmbio, depois que a moeda americana varou a marca de R$ 3,50/US$.

Ele sabe do que fala: nos 12 meses terminados em junho deste ano a posição do BC no mercado futuro de câmbio acumulou prejuízo pouco superior a R$ 70 bilhões, equivalente a 1,2% do PIB, maior do que a meta original para o superávit primário de 2015.

Não é, contudo, desta perda que pretendo falar, mas sim da postura adotada pelo BC neste episódio. Sem dúvida, comprar dólares depois que subiram é um risco, assim como é comprar ações, ou ouro, ou imóveis, ou qualquer outro ativo, financeiro ou não. Quem compra na expectativa de apreciação de um ativo sempre corre risco. Aliás, esta é a essência do próprio capitalismo.

Neste contexto é no mínimo curioso que o BC resolva intervir no mercado supostamente para mitigar riscos. Alguém aceitaria, por exemplo, que o BC vendesse ações quando seus preços estivessem “claramente esticados”, como afirmou Mendes acerca da moeda norte-americana?

Provavelmente não, mas se o objeto da afirmação é o dólar, parece que pouca gente se importa. Aceita-se, implicitamente, que o BC saiba mais sobre moedas do que nós, reles mortais. (A propósito, se Mendes entendesse isto tudo mesmo, será que amargaríamos o prejuízo acima?).

Temos, é claro, que levar em conta a estabilidade financeira. Em tese, perdas no mercado de câmbio poderiam abalar instituições financeiras e a experiência nos mostra que, em momentos assim, o contribuinte poderia ser chamado a cobrir mais um buraco. No entanto, o BC dispõe hoje de um enorme arsenal de medidas para controlar a exposição de instituições financeiras a riscos decorrentes da variação de preços de ativos.

Há, por exemplo, limites ao tamanho de posições compradas e vendidas, cujo objetivo é precisamente evitar que instituições financeiras tomem mais risco do que são capazes de assumir na suposição que potenciais perdas seriam devidamente socializadas.

Em outras palavras, se adultos querem comprar dólares acima de R$ 3,50, o problema é deles, ainda mais considerando que as instituições financeiras já enfrentam limites determinados pelo BC, quando não por seus próprios departamentos de risco.

A rigor, me parece que, no final das contas, embora o BC tente embalar a intervenção como forma de moderar riscos, na verdade, o que motiva esta postura é o receio dos efeitos do encarecimento do dólar sobre a inflação.

Por exemplo, em suas últimas projeções o BC partiu da premissa do dólar a R$ 3,25. Caso usasse, digamos, R$ 3,50 a inflação projetada à frente subiria e o plano de encerrar o ciclo de alta de juros ficaria prejudicado (ou ficaria mais claro que a inflação não convergiria a 4,5% no ano que vem).


O problema, porém, é que o BC queimou munição em troca de muito pouco de 2013 para cá. Já passa da hora de deixar o câmbio flutuar e tratar de nossos problemas com os instrumentos adequados. Ao cuidadosamente evitar isto entre 2011 e 2014, transformamos uma desaceleração de crescimento na severa crise atual.

Não comprem dólar, meninos...

(Publicado 12/Ago/2015)

Reações:

22 comentários:

Bom dia Alex. Você foi ingênuo ao chamar o de 72 anos de ingênuo. Os nossos esquerdistas perdem os dentes, ocupam todos os cargos possíveis e continuam sem entender de economia. Obrigado por continuar a ensiná-los.

Alex, uma dúvida nada a ver (e talvez naive). Durante a recessão, aparentemente países emergentes tomam medidas pró-cíclicas, como no caso brasileiro recente. No entanto, a busca pela estabilização da relação dívida/PIB está ficando cada vez mais distante, já que (aparentemente também) a arrecadação cai ainda mais que o PIB.
Nesse contexto, medidas de austeridade não podem ser inócuas? (o ideal não seria cortar custeio, mas manter investimento). Tem obviamente a questão da inflação (é de demanda? é de custos? etc...). Enfim, qual a sua opinião?
abs

Alex,

Você sempre afirma que o governo Dilma fez a maior expansão do gasto público (em termos reais) da história.

No entanto, para quem acredita em crescimento liderado pela demanda, vemos que o ritmo de aumento do gasto público desacelerou a partir de 2011, estimulando menos a demanda.

Como podemos conciliar sua opiniao com os dados?

Forte abraço,
Rapha Gros

Alex, gostaria de comentar sobre o tópico passado, o do zezinho

Com juros real indo pra 7% (é a taxa que o tesouro IPCA capta no mercado)
Com PIB indo pra -2% (e olha que acho até otimista)

Segundo sua (boa) lógica, deveríamos ter um delta de 9% no superavit primário pra manter a solvência do País, ao contrário dos 0,1 factívies, já em 2015, ou a se financiar até 2018, 2028, ...

A pergunta que não quer calar:
O país aguenta esse tranco?

Ingênuo pode ter conotação negativa, daí a origem do conflito.

Sugiro, em próximas oportunidades, chamá-los de "eternos otimistas". Ninguém se ofende com o termo e os que necessitam de análises críveis entenderão 100% o significado desse termo.

Os "eternos otimistas" estão usualmente sempre favoráveis às práticas em curso de qualquer Governo de plantão, devem ter até achado que o confisco da Poupança pelo Collor seria uma solução e sem qualquer constrangimento de efetuar mudanças de 180 graus em suas projeções porque são "eternos otimistas"...


Forte abraço e Parabéns pelo seu "gentleman" no Painel.

Infelizmente no Brasil há sempre alguém influente tentando abolir a lei da gravidade e não quer ser chamado de ingênuo.

É Eduardo, eles podem não entender de economia, mas de calote parece que entendem. Veja o que aparece em um artigo do Brickmann (A voz do dono):
Histórias exemplares

A história do aluguel de veículos nos Estados Unidos mostra direitinho como funcionam as coisas no Brasil: primeiro, mostra como o Governo brasileiro não economiza para desfrutar do máximo de luxo; segundo, mostra o desprezo que a presidente Dilma dedica às relações internacionais, a ponto de não se importar em prejudicar a imagem externa do país por cem mil dólares (que, a propósito, nem precisaria gastar).

A primeira história exemplar é a do aluguel: a comitiva presidencial passaria dois dias (e uma noite) em San Francisco, Califórnia, mas os veículos foram alugados por quinze dias. A própria empresa locadora desaconselhou o aluguel de 19 limusines, mais dois ônibus, mais três vans Mercedes, mais um caminhão "para transporte das bagagens". Sugeriu carros para a presidente e os ministros e ônibus para o transporte dos demais passageiros. Negativo: até a filha da presidente teve limusine privativa, com motoristas e tudo. E como não há verba para pagar esse luxo todo, calote no fornecedor. Só honraram a conta quando o dono da empresa foi aos jornais para reclamar.

A história é confirmada por este link aqui (http://ireport.cnn.com/docs/DOC-1264178) onde o dono fala: "The presidential Limousine service was provided in full based on the initial agreement, but now the Brazilian Consulate under Dilma Rousseff administration claimed that hasn't any money available to pay for my company's services".
E o dia confirma: "Itamaraty reconhece 'calote' em aluguel de carros de Dilma nos EUA" (http://odia.ig.com.br/noticia/economia/2015-08-18/itamaraty-reconhece-calote-em-aluguel-de-carros-de-dilma-nos-eua.html)
Parece que estamos em uma concorrência para o Guinnes: o governo Dilma não quer apenas ser tido como o pior que já houve dentro do país mas se esmera para ser visto como a pior trupe de extelionatários fora dele também...

Ainda temos que ler isso Alexandre...

http://www.redebrasilatual.com.br/economia/2015/08/e-preciso-reverter-o-modelo-liberal-que-aprofunda-a-recessao-afirma-economista-3024.html

A coisa tá feia mesmo. Pena que não melhoramos mais nossa logística nos últimos 12 anos, pois com uma logística melhor, menos burrocracia e um dólar alto, pelo menos as exportações poderiam ajudar um pouco essa nossa economia manca.

Será que a Sra. Merkel vai conversar de futebol com a Dilma?

Alex X Mendoção : Alex olha pelo lado da demanda - o eleitor mediano é ignorante racional sobre o equilíbrio fiscal e não que perder suas conquistas, dai o pessimismo - Mendoção olha o lado da oferta - os predadores lulo-petistas serão substituídos pelos predadores tucanos que fazem melhor .O eleitor mediano aceitaria os tucanos hoje? Os tucanos farão melhor? E em 2018 com essa paixão por moluscos? Numa democracia o mediano é o rei e quando ganha menos que o médio abre-se espaço para o populismo macro facilmente.

Vendo estas medidas dos bancos públicos chego a conclusão que o Levy é o Mantega de Chicago. Triste...

A indústria automobilística é um bebezão de 60 anos sempre pedindo e ganhando uma teta.

Aos poucos Barbosão vai tomando conta . Um futuro argentino começa se desenhar : nova matriz com inflação sem meta ,tirando o BC da jogada.

Com menos emprego e mais busca por vagas, taxa de desemprego só poderia aumentar
20/8/2015 - 11min

abraços!

Não parece otimismo demais achar que o lulo-petismo acabou ou vai acabar e que os tucanos farão um ¨plano real¨¨ fiscal(Serra?)?

Eita Schwartsman, como você tem saco para participar do globonews com os dinossauros? Já te vi lá com mendonça do barro, luiz gonzaga belleza e tantos outros...

"No entanto, para quem acredita em crescimento liderado pela demanda, vemos que o ritmo de aumento do gasto público desacelerou a partir de 2011, estimulando menos a demanda."

Medido como proporção do PIB o gasto público federal cresceu 0,7% do PIB ao ano entre 2011 e 2014, comparado a 0,3% do PIB ao ano de 1997 a 2002 e 0,2% do PIB ao ano entre 2003 e 2010.

Abs

"O país aguenta esse tranco?"

Esta, não. A questão é saber, em steady state, quanto podemos crescer (1%? 2%?) e qual a taxa real de juros que vigorará (5%? 4%? 6%).

Se for 5% com 2% e dívida de 70% do PIB, o primário tem que ser pouco maior que 2% do PIB. Isto dá para fazer. Já 6% com 1% sugere um primário na casa de 3,5%, bem mais difícil.

De qualquer forma, esta conta simples não dá muito certo se usada num período como o atual, com contração do PIB e juro anormalmente elevado.

"São Paulo – A crise econômica começou a ser fabricada em 2013 pelos liberais, afirmou hoje (18) o economista Eduardo Fagnani, em entrevista para a Rádio Brasil Atual. “Isso gerou uma sanha que foi amplificada pela mídia em um terrorismo econômico fantástico.”

O horror, o horror...

Prezado Alex, grato pela resposta acima.

Hoje, segunda-feira black, pelo visto o tranco vai ser dado em meio a uma tempestade perfeita.

Na minha humilde opinião de não-economista, mas apreciador profundo de lógica, não é crise, é colapso

Sou leitor do seu Blog e fiquei horrorizado pela forma que o senhor desprestigiou a biografia do LCMB.

Ah, vá. Se fosse mesmo leitor do blog já haveria de ter lido coisas que o deixariam mais horrorizado.