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quarta-feira, 12 de agosto de 2015

O caso Volpon

Em primeiro lugar, um aviso: embora não tenha, por motivos óbvios, nenhuma simpatia pela atual diretoria do BC, sempre mantive um relacionamento cordial com Tony Volpon, que hoje ocupa minha antiga posição na instituição e que se absteve de participar da última reunião do Comitê de Política Monetária, quando a taxa Selic foi elevada de 13,75% para 14,25% ao ano.

O motivo de sua abstenção foram críticas recebidas por, supostamente, ter antecipado seu voto em favor do aumento da Selic em reunião com economistas (em nome da transparência, eu estava entre os presentes). A frase que provocou a reação de senadores foi: “pessoalmente, vou votar pelo aumento de juros até que a nossa projeção esteja de maneira satisfatória apontando para o centro da meta”.

Muito embora políticos tenham interpretado a afirmação como antecipação do voto do diretor, no encontro propriamente dito ninguém a viu desta forma. A começar porque não havia dúvida que o BC seguiria o aumento da taxa de juros (a questão era se seria de 0,25% ou 0,50% ao ano).

No entanto, talvez o mais relevante para explicar a diferente reação de senadores e economistas à declaração seja o entendimento acerca da condução de política monetária no contexto de um regime de metas para a inflação.

Ter uma meta para a inflação não implica apenas explicitar um objetivo numérico; requer também, e principalmente, que o BC aja de forma consistente com a busca daquele alvo.

De fatos, bancos centrais que seguem este regime costumam se comportar de modo semelhante: aumentam a taxa de juros quando a inflação está acima da meta e a reduzem quando a inflação está abaixo dela.

Embora a regra pareça simples, há questões que a tornam um tanto mais complicada. Como já tive oportunidade de expor aqui, não se trata de olhar a inflação passada (por exemplo, os últimos 12 meses, ou, como defendido por um desavisado, os últimos 3 meses), mesmo porque não há nada que qualquer BC que não possua uma máquina do tempo possa fazer para alterar a inflação já ocorrida.

A política monetária só pode afetar a inflação futura, ainda mais em função das defasagens conhecidas entre alterações das taxas de juros e a resposta da inflação, afetada por vários canais distintos (atividade, taxa de câmbio, expectativas, etc). Todavia, esta não é conhecida, dentre outros motivos porque, ao menos em tese, o próprio BC deveria estar ativamente agindo para colocá-la na meta.

Por conta disto, BCs costumam lançar mão de um conjunto de modelos econômicos que, dentro de suas limitações, buscam responder uma pergunta crucial: se adotada a taxa de juros “x”, presumindo tal e qual trajetória para as variáveis relevantes (desempenho fiscal, crescimento mundial, etc.), a inflação “y” meses à frente estará acima ou abaixo da meta?

Caso a resposta seja “acima”, elevam-se os juros e vice-versa. Não há economista minimamente versado em política monetária que não entenda isto. Já senadores...


Volpon apenas verbalizou esta regra e é lastimável (embora, infelizmente, nada surpreendente) que o BC tenha se curvado à pressão. Mais lamentável, porém, é a tentativa de (presumidamente em nome de “preservar a independência do BC”) colocar a instituição e seus diretores na berlinda por motivos estritamente políticos.


Estou preocupadíssimo com a independência do BC


(Publicado 5/Ago/2015)

Reações:

11 comentários:

Nos últimos anos nossos políticos tiveram uma vida mansa : carga tributária generosa,estatais mais do que generosas. Agora estão se deparando com essa lista de tarefas que os economistas apresentaram e terão que sair da política miúda. Haja otimismo.

Além disso, pondero outra coisa. Se ele tivesse dito isso em um ambiente privado, para 2 ou 3 investidores, é claro que seria um erro.

Agora em um evento "público", qual o problema?
A informação, quando está disponivel para todos, não deveria ser um problema.

Oi Alex,

Sei que Econometria não é exatamente a sua área (nem a minha), mas entre esses modelos que você se refere no texto está o SAMBA, correto? Além desse, utilizam outros? A aderência de médio prazo desses modelos é boa?

Abraços,

Gabriel Gava

Oi Alexandre, como vai?

Posso te perguntar uma coisa?

Embora o superávit primário esse ano vá superar o do ano passado e embora o superávit primário estrutural desse ano vá superar o do ano passado, dá para afirmar que os efeitos da política fiscal serão contracionistas esse ano a despeito de um maior déficit nominal?

vejo as discussões nos EUA, por exemplo, Krugman vs Sachs e por lá a discussão ocorre em cima do déficit público como um todo.

O que pensa sobre isso?

Abs, Pedro

Poxa, Alex, responde ai....

Alex, responde aí vai...

Vc é o cara que mais considero no debate econômico...

Abs
Pedro

Assim que sobrar um tempo, mercadoria algo escassa no momento (ainda tenho que preparar a coluna da semana!)

entendo, mas do ponto de vista da credibilidade de nossas instituições isso não foi um erro crasso? Um diretor do BC não deveria ser extremamente zeloso em seus pronunciamentos, especialmente numa reunião com "investidores" (ou seja, parte diretamente interessada no posicionamento de um diretor do BC)?

Caraca, Alex, nao responde teus pupilos nem no fds.... Vacilo...

Turma do Insper fica chateada...

abs
pedro

Responde ai Alex... Por favor...

Pedro

"Embora o superávit primário esse ano vá superar o do ano passado e embora o superávit primário estrutural desse ano vá superar o do ano passado, dá para afirmar que os efeitos da política fiscal serão contracionistas esse ano a despeito de um maior déficit nominal?"

A premissa não é verdadeira: o déficit primário deste ano superará o do ano passado. Resta saber se o déficit estrutural superará o do ano passado, mas, mesmo assim, considero que a pergunta está mal elaborada (sem sacanagem).

Suponhamos, só por esporte, que o superávit estrutural deste ano seja maior que o do ano passado, mas que o observado não.

A diferença se deve à distãncia do produto observado em relação ao potencial, o que sugere que os tais "estabilizadores automáticos" entraram em funcionamento, i.e., a arrecadação caiu relativamente à de pleno emprego e os gastos aumentaram também nesta comparação.

Porém, se queremos acreditar que a política fiscal tem efeitos sobre a atividade, temos que concluir que os estabilizadores automáticos estão agindo, i.e., que a política fiscal é mais expansionista do que seria sob pleno emprego (é a própria definição dos estabilizadores, não?).

Mas, se acreditamos nisso, também temos que acreditar que, para definir o caráter expansionista da política fiscal, o que vale é o observado, não o estrutural.

Faz sentido?

Abs