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quarta-feira, 18 de março de 2015

Os outros

“E este dólar, hein?”

Não há como escapar desta pergunta. É natural: nas últimas semanas a moeda americana andou quase R$ 0,40, um desempenho que não víamos desde o fim de 2008, ainda no olho do furacão da crise internacional. Também é a primeira vez desde 2004 que o dólar ultrapassa a marca de R$ 3,00, trazendo lembranças amargas de tempos de crise.

É bom que se diga, porém, que, ao menos em parte, a força do dólar aqui dentro é o reflexo da sua pujança lá fora. Há cerca de um ano era necessário US$ 1,40 para comprar 1 euro; agora o euro já sai bem mais em conta para os norte-americanos, um pouco menos de US$ 1,10.

Obviamente, quando o dólar se fortalece contra todas as moedas, graças aos sinais cada vez mais claros de recuperação dos EUA (cadê a crise, presidente?) e, portanto, da proximidade da elevação da taxa de juros por lá, ele também ganha terreno na comparação com o real.

Da mesma forma preços de commodities têm caído (o petróleo, por exemplo) e estão 15-20% mais baixos que os observados há um ano, fenômeno que também contribuiu para enfraquecer o real, tendo em vista o peso das commodities na nossa pauta de exportação.

Isto dito, embora seja importante destacar os fenômenos internacionais no enfraquecimento do real face ao dólar, a verdade é que estão longe de explicar todo o movimento observado no período mais recente. A perda de valor da nossa moeda reflete também em larga medida os problemas vividos pelo país, cuja aceleração tem sido notável.

Do lado fiscal o governo conseguiu não apenas destruir o superávit primário, mas registrou o maior déficit fiscal desde 1998, trazendo a dívida pública para mais de 63% do PIB.

O resultado disto é que nosso prêmio de risco – o tanto a mais de juros que pagamos relativamente a um título norte-americano do mesmo prazo – dobrou, de 1,25% ao ano para 2,5% ao ano. Caiu, portanto, o apetite por ativos brasileiros (e o “Petrolão” contribui bastante para isto), o que ajudou a desvalorizar o real.

Além disto,  registramos déficit superior a 4% do PIB nas transações com  o exterior, o maior desde 2001. Sim, a queda dos preços das commodities desempenhou papel importante no processo, mas é precisamente por isto que o enfraquecimento do real, natural sob tais circunstâncias, teria servido para atenuar esta piora.

No entanto, o BC vem desde meados de 2013 intervindo com mão pesada no mercado de câmbio. Justifica-se tal política como forma de “reduzir a volatilidade”, mas não há quem não saiba que foi adotada com outro fim: segurar a inflação, visto que o BC sempre relutou em usar a taxa de juros para isto, por convicção, ou submissão, tanto faz.

O resultado desta aventura foi retardar a correção do valor da moeda, que já era requerida pelo menos desde o final de 2013. A estranha combinação de baixíssimo crescimento em 2014 com o maior déficit externo em 13 anos sugere que o real esteve mais valorizado do que deveria ao longo do ano passado, por conta e culpa da intervenção do BC.

Face, porém, às forças globais e à deterioração local, ficar na frente do dólar é uma tolice. Não apenas porque se tratam de processos a que naturalmente seria muito custoso resistir, mas principalmente porque o encarecimento do dólar é parte da solução; não do problema.

O problema, do ponto de vista doméstico, está na fraqueza da economia, na incapacidade de recuperar as contas públicas e na crise política que se abre na esteira do Petrolão. Sem que isto seja solucionado, o dólar há de permanecer caro.


Lutar para segurar o dólar nestas circunstâncias irá apenas adicionar às perdas bilionárias já incorridas. Ao BC cabe deixar a moeda flutuar e tomar conta da inflação; à Fazenda melhorar o desempenho fiscal.  Trata-se, em outras palavras, de remontar o tripé macroeconômico, cujo desmonte foi crucial para nos trazer à crise de hoje. Culpar os outros não vai ajudar.



(Publicado 11/Mar/2015) 

Reações:

25 comentários:

Não é culpa minha se eu não compareci ao curso de "como assumir a responsabilidade pelos seus erros".

Segura essa Alexandre:

http://cartamaior.com.br/?/Editoria/Economia/O-fracasso-da-austeridade-e-a-urgencia-de-uma-alternativa-a-esquerda/7/33047

Abs
Carlos

"ficar na frente do dólar é uma tolice"

Perdão, só é tolice para o setor exportador, que patrocina os políticos do governo. Real forte é crucial para podermos reindustrializar o país, trazendo capital estrangeiro a custo baixo. Sem isso estamos fadados a exportar bananas.

Esses metodos são coisas de comunista!! Na URSS eles usavam modelos econométricos para definir o que cada um poderia consumir.

Levaste um "toco" do Pedro Paulo Bastos no artigo da Carta Maior cujo link o comentarista anônimo acima postou, hein? kkk

"Levaste um "toco" do Pedro Paulo Bastos no artigo da Carta Maior cujo link o comentarista anônimo acima postou, hein? kkk"

Quem?

eh tanto mimimi que ate cansa...

um ai em cima fala que o real deveria ser forte para importarmos capital... ora, quando o dólar barato, não fizemos isso por qual razão? aquela teria sido a hora de semear, e agora, a de colher. não da para fazer tudo ao mesmo tempo, querido.

e o artigo citado ai acima... incrivel como dois meses de "austeridade" eh responsável por tudo que ha de mal com o pais. to surpreso que não tao pondo AIDS e cancer na conta de austeridade fiscal. falta um mínimo de sinceridade intelectual desses pseudo-economistas. política anti-cíclica so funciona se for anti-cíclica... parece obvio, mas quem acompanha o blog do alex percebeu que não foi isso que a administração da Dilma fez, pelo contrario... foi completamente pro-cíclica e completamente desleixada as vésperas da eleição. e se agora não podemos lutar contra o desemprego (que traria inflação baixa) com juros menores mas somos obrigados a subir os juros etc. so temos o abandono do tripe a culpar.

e enquanto o pais for um coadjuvante na economia mundial (somos muito protecionistas no comercio exterior e o governo interfere muito na economia e no processo de gestão do capital financeiro) eh isso dai mesmo, vamos ficar a mercê dos ventos das commodities, do dólar, etc.

Quem?
Como assim, quem?
Olha a conjugaçao do verbo: "levaste".
Tu levaste.
Excerto: "Para quem não sabe, quando anunciava previsões antes de ser demitido por um grande banco, o sr. Schwartsman fazia várias apostas equivocadas e justificava recomendações de juros mais altos do que a média do mercado. Seria a acusação de desonestidade um ato falho?"

Um professor de Economia que nem você. Ou isso aqui virou competição de quem é mais popular?

"Quem?
Como assim, quem?"

Não, quem te perguntou, otário!

kkkkk

Isto dito, obviamente fazer previsões erradas não é sinal de desonestidade intelectual.

Desonestidade intelectual (perdão por explicar, mas tem gente que só desenhando mesmo) é afirmar que era "crítico da política econômica", quando, na verdade, subscrevia uma visão mais que positiva (crescimento de 4% com inflação na meta) como este infeliz da Unicamp (e muitos outros como ele).

E realmente, eu estava equivocado quando critiquei a política econômica:a inflação não aumentou, o crescimento não gorou, as contas fiscais não foram para o saco, nem o balanço de pagamentos no mesmo caminho. Na Dimensão Z, bem entendido...

Engraçado: tem cara que precisa vir anunciar o que escreveu aqui...

O dólar esteve barato nos últimos anos? Acho que meu broker tá com defeito então.

"Não, quem te perguntou, otário!"

rsrsrsrsrs

"O dólar esteve barato nos últimos anos? Acho que meu broker tá com defeito então."


sim, em 2012 bateu em 1,65. Acho bom vc fechar a conta e nao operar mais? 1,60 eh metade do que esta agora. A memória eh curta.. lembra do IOF de 5% na entrada? Lembra da galera comprando apartamento em Miami? Lembra dos estudos de PPP, mesmo o bobo "big mac index" da epoca?

ja passou a hora de importar... agora seria de com o capital instalado a preço de banana, produzir e exportar - mas por causa da ineficiência e mao visível do governo nos mercados de capitais brasileiro (SBPE, FGTS, direcionado, BNDES, etc.), a entrada do capital não veio em investimento para produção mas em crescimento de divida / PIB para subsidiar credito a juros reais zero e handouts (e em crescimento em importação de eletronicos, etc.)

a unica coisa nova que passamos a exportar foi inflação ao subsidiar o consumo e segurar o dólar.
vamos ver isso se normaliza agora.

Lamentável sua reação com o Anônimo de 19 de março de 2015 20:20.
Um doutor se comportando pior do que um adolescente de 15 anos de idade.
A elite intelectual brasileira também vai mal...
Tristes tópicos.

Desse debate, concluimos que precisamos de mais politica anti-ciclica quando na verdade a unica coisa que tivemos foi expancionismo intermitente de gastos (computador de unico botao ?!?!).

Quando estavamos crescendo (efeito riqueza do boom de commodities) foi pro-ciclico e quando não estavamos crescendo (reverso) foi anti-ciclico.

Entendi, o segrego e' expandir muito os gastos para ampliar ao infinito o mercado de massas... rumo aos 200 pc de divida/PIB !!!

Ah esqueci, isso so' preocupa quem paga imposto e investe na divida publica, i.e. os coxinhas !

Precisamos de mais gente que paga imposto gerindo o governo... isso e' obvio... para quem so' rouba dos outros nao ha' tempo ruim.


"Lamentável sua reação com o Anônimo de 19 de março de 2015 20:20.
Um doutor se comportando pior do que um adolescente de 15 anos de idade."

Meu, o cara se comporta como um imbecil e você acha que merece ser tratado como mais que isso?

Parece que raciocinar dói...

Isso é verdade. Sua competência como economista é inegável, e mais ainda, certamente está entre os melhores do país. Peca apenas por se rebaixar nas discussões, desnecessariamente.

O que me espanta é que ainda exista quermesseiro defendendo essas idéias estapafúrdias, mesmo que a experiência mostre que sempre dá merda...
Bom, quando fiz especialização na Unicamp, ouvi de um professor que foi o Lula quem acabou com a inflação... Eu ouvi, ninguém me contou.
Alucinados!

Eu discordo - se o forum vai ser aberto i.e. se vao publicar as asneiras que falam por ai, as opcoes sao:

1) ignorar. Deixar uma pergunta ou comentario besta o eleva a um status que nao merece ja que parece ter uma aura de verdade, incontestavel;
2) responder de verdade. Tambem eleva o comentario/pergunta a um nivel que nao merece... ideias tolas nao sao dignas de ponderacoes;
3) demonstrar o quanto esses comentarios e perguntas tolas, sao realmente tolas. tem gente que vem aqui de ma fe, entao recebem o que merecem.

Quem entra neste blog e faz defesa de quermesseiros falando merda quer mais é levar esculacho... É o mesmo mecanismo psíquico do masoquista...

esquerdopatas estão pouco se lixando pra crise

isso não é problema deles.

eles estão preocupados em organizar movimentos diversos de apoio popular, a tal da superestrutura da base marxista, na linguagem deles, pra ganhar votos. Disseminam ódio e dissensão social.

Alex, esse Pedro Paulo está querendo é se promover as suas custas. Intelectualmente a expressão dele é tão insignificante quanto à do Pochmann, mas utiliza economistas bem treinados como você para se promover, criar um bafafá e tentar algum cargo no governo!

Alexandre, tu és brilhante. Um raciocínio rápido , estás correto em suas análises e há bom senso em tudo o que dizes. Apenas sugiro que não sejas tão ácido ou raivoso perante as críticas. Todos nós sabemos que há pessoas que não conseguem entender, seja por incapacidade ou desonestidade, o óbvio . Mas se te nivelares na mesma forma de responder acabarás perdendo um pouco de tua credibilidade. Abraço .

Mas ganha muito em diversão! É muito legal ver os esculachos, kkk