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quarta-feira, 16 de julho de 2014

Desperdício

O Banco Central anunciou a continuação de seu programa de intervenção sobre a taxa de câmbio iniciado em agosto do ano passado. Naquele momento o Federal Reserve emitira os primeiros sinais que poderia alterar sua política, perspectiva que elevou o rendimento dos títulos de 10 anos do Tesouro norte-americano para quase 3% ao ano, fortalecendo o dólar relativamente às demais moedas, entre elas o Real.

Em resposta à elevação do dólar, que chegou a valer quase R$ 2,45, o BC passou a intervir nos mercados futuros de câmbio. A justificativa para a intervenção, apesar do regime de câmbio flutuante, era a necessidade de prover proteção (“hedge”) aos agentes econômicos, assegurando que o BC não tinha um objetivo no que diz respeito ao nível da taxa de câmbio, mas que procurava apenas reduzir sua volatilidade.

Desde então a taxa de câmbio passou quase 90% do tempo no intervalo de R$ 2,20 a R$ 2,40, resultado que pode tanto sinalizar sucesso na moderação da volatilidade como a adoção implícita de uma banda cambial naquele intervalo, isto é, um dólar nem tão barato que prejudique as contas externas, nem tão caro que ameace o já precário controle da inflação. Já eu estou convencido que a segunda hipótese oferece uma explicação melhor do que se passa no mercado brasileiro de câmbio.

Houve, é claro, redução expressiva da volatilidade. No período entre agosto e setembro do ano passado esta chegou a ficar algo como duas vezes superior à sua média histórica recente; já nos últimos meses tem ficado em torno da média, fenômeno que a análise mais apressada tenderia a atribuir à intervenção do BC.

Ocorre que outras moedas sul-americanas, notadamente as da Colômbia, Peru e, em menor medida, do Chile, passaram por processo semelhante, tanto a elevação da volatilidade em relação a seu padrão histórico no terceiro trimestre de 2013, como a reversão à média no segundo trimestre deste ano. E, é bom notar, não houve nestes países intervenção tão pesada como a promovida pelo BC, que vendeu no período pouco mais de US$ 90 bilhões no mercado futuro.

Tal fato sugere, portanto, que a volatilidade excessiva, motivo alegado pelo BC para iniciar o processo de intervenção, já não é tão sério quanto foi no terceiro trimestre do ano passado. Ainda assim o BC se decidiu pela continuação do programa, cujo anúncio chegou a levar a taxa de câmbio brevemente abaixo dos R$ 2,20/US$.

Isto sugere que, a despeito de eventuais protestos de lealdade por parte do BC ao regime de taxas flutuantes, não é o excesso de volatilidade que o induz a intervir no mercado de câmbio. Pelo contrário, por mais que não admita isto publicamente, fica claro que o BC tem sim interferido para manter o Real dentro de patamares que julga confortáveis.

E “conforto” nas condições atuais significa essencialmente manter a taxa de câmbio em níveis que o BC acredita serem compatíveis com o controle da inflação, aqui entendido como a manutenção desta pouco abaixo do limite superior do intervalo de tolerância ao redor da meta (que, não esqueçamos, é 4,5%).

Dado que o BC abriu mão da política monetária – muito embora suas próprias projeções sugiram inflação próxima ao teto da meta nos próximos 12 a 15 meses – só lhe resta administrar a taxa de câmbio para tentar evitar que até mesmo este limite seja ultrapassado, ainda que para isto tenha que vender mais US$ 25-30 bilhões até o final deste ano.


Isto dito, como o próprio BC parece (ou deveria) saber, há o risco da calmaria na frente externa ser temporária, em particular caso a recuperação americana seja mais forte do que hoje se imagina. A munição hoje empregada para manter a taxa de câmbio artificialmente valorizada, e assim atenuar os riscos inflacionários, poderá fazer falta num cenário de maior turbulência no mercado global de câmbio, mas pensar lances à frente não é o forte deste BC.

Ele sabe

(Publicado 9/Jul/2014)


Reações:

11 comentários:

Por falar em desperdício
veja a entrevista desse cidadão, e me diga se não é um desperdício de talento, um camarada assim deveria estar trabalhando na TV, o programa Zorra Total seria perfeito

"http://www.valor.com.br/brasil/3617192/para-awazu-economia-se-apoia-em-modelo-sustentavel-de-investimentos

att.
Luiz

Mas ele já trabalha no zorra total...

Tô sabendo os motivos nada alinhados com os interesses nacionais para estabilizar a taxa de câmbio... Entretanto, como a intervenção lá em 2013 foi feita via swaps, para manter as reservas estáveis ( que mesmo líquidas dos swaps estão bastante elevadas) continuar rolando pra sempre não seria nada anormal. Se evita o efeito compra de moeda. Tem também o efeito fiscal positivo na redução efetiva das reservas. Portanto acredito que manter esse nível de swap tenha também como ser defendido.
PS: Também acho que o câmbio está torto.
Maradona

Apos estas declarações, ele foi visto saindo do local vestido de Napoleão (com chapeu e tudo), galopando um cabo de vassoura, puxando por um barbante uma latinha de refrigerante (a qual chamava carinhosamente de toto) e gritando desesperadamente " Josefina espere por mim ".

Sugiro uma dieta rica em peixe e brioches.....

O ideal seria mesmo acabar com o banco central.Os indivíduos nao podem ficar reféns da "boa intenção " dos economistas.

O senhor vem de uma linha de pensamento ortodoxa.Provavelmente na sua opiniao se o BC estivesse na mão de um economista com uma boa formação, o destino seria diferente.



Essa notícia é do Joselito Muller, kkkkk

Alex, apesar de concordar com voce sobre os erros na intervencao, essa munição nao esta sendo usada porque a intervenção nao esta sendo feita no mercado a vista e sim no futuro sem delivery e com liquidacao em R$, logo, nao usando reservas.


Interessante seu artigo,infelizmente ele esta desatualizado .A criação dos bancos dos Brics desmente o seu artigo.

Alex meu caro.

Falei com um amigo meu de NY e ele me disse que os bonds argentinos (caso da coluna anterior) não possuem cláusulas de CAC. Procede essa informação? Se proceder talvez não tenhamos um caso que necessite de novos procedimentos conforme aludido na coluna anterior, já que as cláusulas de CAC nos bonds surgiram justamente para tratar dessa possibilidade.

"Falei com um amigo meu de NY e ele me disse que os bonds argentinos (caso da coluna anterior) não possuem cláusulas de CAC. Procede essa informação?"

Sim, esta é uma das fontes do problema. Ao mesmo tempo, como tentei explicar, talvez mesmo CACs não sejam suficiente para lidar com o assunto.

Alex:

Acompanho o blog há algum tempo e não sou economista.
Indago: a argumentação do anônimo do dia 20 de julho de 2014, as 22:24h, não estaria correta?
Grato pelo blog e possível resposta.