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quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

Por quê?

Meus 18 leitores sabem que sou obsessivo, característica que uso (obsessivamente, é claro) para justificar a insistência sobre certos temas. Um deles é a leniência com respeito à inflação que parece ter dominado os responsáveis pela política econômica.

Ocorre que, durante uma das minhas diatribes habituais sobre o tema, um amigo jornalista me fez a seguinte pergunta que, acredito, está na mente de imensa maioria das pessoas: “e qual é o problema de termos a inflação acima da meta?”. Na hora minha herança judaica falou mais alto e não resisti a responder a pergunta com outra: “e qual é a vantagem de termos a inflação acima da meta?”.

Acredito que estas perguntas são o melhor ponto de partida para explicar esta obsessão.

De fato, ao conversar com interlocutores que não são economistas e às vezes com economistas também, parece haver uma noção de troca entre inflação e crescimento, ou seja, que a redução da inflação é custosa do ponto de vista do crescimento. Note-se que, logicamente, esta noção implica também que a inflação mais alta seria favorável ao crescimento.

O problema, contudo, é que a tese não encontra amparo na evidência disponível. À parte inflação muito elevada, que, por motivos vários, reduz o potencial de crescimento da economia, e episódios de deflação ao estilo japonês, taxas, digamos, “moderadas” de inflação não têm quaisquer efeitos sobre o crescimento de médio e longo prazo. Concretamente, a capacidade de crescimento de um país independe da inflação ser 4,5%% ou 6,5%.

Isto dito, não creio haver dúvida, particularmente para a parcela mais pobre da população, que uma taxa de inflação de 4,5% é preferível a uma de 6,5%.  Assim sendo, respondendo à minha própria pergunta, não há vantagem alguma de termos a inflação acima da meta.

Por outro lado, cabe reconhecer que, ao menos no curto prazo, quando a inflação se encontra além da meta, o esforço de redução requer, durante algum tempo, que a economia opere abaixo do seu potencial, de modo a reduzir as pressões que surgem, em geral, no mercado de trabalho. Por mais cruel que isto possa soar, o desemprego deve subir além do nível compatível com a inflação estável para moderar as demandas salariais (ou, de forma equivalente, a capacidade ociosa das empresas deve subir para reduzir seu poder de elevação de preços). Há, portanto, algum custo para desinflacionar a economia.

Por conta disso, BCs podem, dependendo da magnitude do desvio da inflação, escolher uma trajetória de convergência mais suave (por exemplo, como o BC fez em 2004-05), para evitar um custo que poderia ser considerado excessivo.

No entanto, convergência, mesmo mais suave, significa retorno à trajetória de metas e não a aceitação da inflação persistentemente acima dela. No primeiro caso, se o período de retorno não for demasiadamente longo, as expectativas se mantêm ancoradas e a desinflação ocorre com menor custo. No segundo, que é um caso extremo de convergência muito lenta à meta, as expectativas tipicamente se descolarão desta, o que implica custos maiores para reduzir a inflação.

Entretanto, quando os custos de desinflação se elevam, BCs menos determinados acabam por abandonar seus esforços de convergência. Com isto se tornam prisioneiros de um equilíbrio perverso: não reduzem a inflação porque o custo é alto e os agentes, sabendo disso, mantêm as expectativas acima da meta, elevando o custo de convergência. O que parecia ser um problema de curto prazo torna-se de longo prazo.

Voltamos assim à discussão inicial: temos apenas inflação mais alta, sem benefícios no que tange a crescimento.

Respondendo, pois, à pergunta que me foi feita, o custo da inflação acima da meta não se limita ao curto prazo, mas se estende ao risco, sempre presente, de terminarmos amarrados ao equilíbrio perverso, possibilidade que cortejamos com ardor crescente.

Baixa a inflação agora?

Reações:

31 comentários:

Alex,
Perfeito! Contudo, dado o andar da carruagem me parece que o Tombini já comprou (vendeu!?) a ideia de uma inflação alta ao longo do governo Dilma como forma de "manter" o crescimento econômico. Este jogo já está jogado e a quermesse venceu. Fazer o que...?
Abraço.
M.

Nossa! Excelente texto... acho que o "por que" do título tem acento. Podereriam ter banido no acordo ortográfico. Abraço, Raul.

Alex,

Se entendi bem seu argumento posso resumi-lo dizendo que a inflação acima da meta não tem beneficios mas tem um custo que é o de tornar cada vez mais caro traze-la de volta para a meta.
Me parece um argumento um tanto circular (ou auto-definido).
Fazendo-se uma analogia seria o mesmo que dizer que o problema de uma pessoa estar acima do peso ideal é que é cada vez mais dificil emagrecer e voltar ao peso ideal.

Pra mim, portanto, ainda restam duas questões:
1) Qual é o real problema da inflação esta acima da meta (ou da pessoa estar acima do peso)?
2) O que define que a meta TEM que ser 4,5? (e não 3,5 1,5 0 ou mesmo 6,5)? (ou, o que define o peso "ideal" de uma pessoa)

Ou seja, o "acima da meta" é algo apenas sintomático relativo dependendo do que se define como meta, ou há algum critério absoluto para definir este numero?

Abraços

Muito bom o texto, Alex.

Tal como num post anterior a respeito da mesma tematica, fostes muito claro e didatico - o professor que, muitas vezes, falta-nos na propria universidade.

Abs, FA.

Alex:

Ontem no Valor saiu um artigo do Tony Volpon, do qual fiz um resuminho aqui, que sugere que o buraco da inflação brasileira é mais embaixo. A pressão inflacionária no Brasil hoje está nos serviços, mas a inflação de bens está abaixo do centro da meta. A economia está, como diz Volpon, rodando a duas velocidades. O Bacen decidiu esperar a oferta de serviços se adequar à demanda, até por conta das possibilidades de agravamento da crise lá fora. A falha do Bacen, segundo o Volpon, seria não explicitar essa lógica, que passaria inclusive por um aumento temporário da meta. O que você acha?

Caro Moska,

Se você parte da afirmação do Alex abaixo -

-Isto dito, não creio haver dúvida, particularmente para a parcela mais pobre da população, que uma taxa de inflação de 4,5% é preferível a uma de 6,5%.-

fica claro o que ele pensa sobre uma inflação mais alta. Se essa inflação mais alta também é superior a meta estabelecida pelo BC a sua credibilidade (BC) também é posta em xeque. Então se pode entender que:

A - Inflação mais alta pior para a percela mais pobre.

B - Não cumprimento da meta por seguidos periodos ocasiona menos credibilidade e mais custos para a sociedade. Os que tem menos recursos para se defenderem de juros maiores sofrem mais.

Este comentário foi removido pelo autor.

Alex,

Não podemos considerar que pela conjuntura internacional o Bacen está correto no curto prazo ? O governo fomenta o crescimento durante o período mais agudo da crise e depois busca o centro da meta, quando os países em crise estiverem em uma melhor situação política e econômica. O ponto seria o timing para que o custo de voltar ao centro da meta seja factível.

Gostaria de seu comentário.

Sds,

Saeta

Saeta,

Mas aí pega no que o Lucas Murtinho lembrou: já há algum tempo (aliás, acho que vi um post do Alexandre mesmo falando disso), o setor de serviços é que está puxando a inflação pra acima da meta. Ou seja, até que ponto a calmaria externa, quando chegar, vai influenciar nos ciclos de aumento de preços dos nossos serviços?
Mas eu acho que você tem razão quando diz que, independente da "abordagem" do BC, ele tem que pegar o timing de enfrentar um custo factível.

muito bem escrito. pena que a "sabedoria" de chicago levou tanto eua e europa a uma grande crise... ou não ?

"Sabedoria de Chicago" criou a Crise na Europa e EUA?
E o que isto que está sendo discutido aqui tem a ver apenas com Chicago?
Mais um heterodoxo que acha que todo mundo que é diferente dele é monetarista...
Santo Deus! Quanta idiotice!

O (suposto) trade-off não é mais apenas entre inflação e crescimento. No modelo petista há uma terceira variável que é distribuição de renda. Como salários e preços não costumam ser flexíveis para baixo, diminuir a desigualdade, principalmente elevando os salários do pessoal mais pobre e que ocupa cargos de baixíssima produtividade, só pode ser feito na base do aumento da inflação - ainda mais porque a política de valorização do salário mínimo tem coincidido com a valorização das commodities, que poderiam contrabalançar aquela no cômputo da inflação. Portanto, será difícil manter tal política de valorização do mínimo com uma meta de inflação de 4,5%.

Parabens pelo texto Alex.

Sou o 19 leitor!

Anônimo-1 de março de 2012 21:45, estranho, pois, com inflação acima do pico da meta ou acima do centro da meta, o SM estará sendo corroído ao longo do tempo. Assim como qualquer outro benefício ou bolsa.
Aliás, em qualquer nível de inflação.

Pode ter aumento nominal, mas em termos reais, tenderá a ter poder de compra menor.

Além do que, o governo, pelo privilégio que tem de pagar a prazo e receber à vista, com a inflação a seu a lado, pode melhorar seu déficit sem fazer um ajuste fiscal efetivo. Ainda pode contar com as rubricas de restos a pagar e com o aumento de tributação, conforme apontado por analistas.

Assim, como falar em distribuição de renda se uma parte do que as pessoas recebem, é corroída pelos preços e pela tributação?

Alexandre Schwartsman,
Enviei três comentários para junto do post “Xeque em quatro” de quinta-feira, 01/03/2012. Lá no que eu escrevi, eu utilizei alguns argumentos que tinham mais relação com a discussão que eu queria ter aqui neste seu post “Por quê?” de quarta-feira, de 29/02/2012. Lá como aqui o meu interesse é de leigo e na expectativa de que um economista possa solucionar os questionamentos que eu já trazia e a leitura de seu post “Por quê?” apenas reforçou.
Acompanho o desenrolar da economia brasileira desde quando vim para Belo Horizonte com quatorze anos, em 1969, para fazer na época o meu curso científico. Dali em diante, no desenrolar da década de 70 vi o mundo todo sucumbi a febre da inflação e como que em um truque de mágica vi Paul Volcker acabar com a inflação. A bem da verdade, vi Paul Volcker transferir a inflação dos Estados Unidos para os países da periferia que já conviviam com índices mais altos do que os países centrais.
Na década de 70 e mais ainda na década de 80 vi a inflação atingir o Brasil duramente. Embora, o ritmo de crescimento tenha decrescido não vi a inflação causar tanto dano a economia como via as pessoas mais entendidas dizerem que causava.
É sobre isto que eu queria uma manifestação de alguém com o devido conhecimento técnico: é a inflação tão ruim assim como muitos economistas afiançam?
Tentarei em uns dois mais comentários desenvolver a minha opinião sobre o assunto para que caso haja resposta ela possa abarcar o conjunto de minhas dúvidas.
Clever Mendes de Oliveira
BH, 12/03/2012

Alexandre Schwartsman,
Sempre fui refratário à idéia de que a inflação fosse o mais injusto dos impostos. Admirava-me muito quando banqueiros diziam isso, pois para mim, mesmo ainda não conhecendo Wicksell, a inflação crescia quando a remuneração dos banqueiros (os juro) era inferior a taxa de inflação.
Para mim, o mais injusto para os mais pobres é o desemprego. Esse entendimento ficou reforçado quando acompanhei nas páginas da Folha de S. Paulo uma discussão entre Ignácio Rangel e José Julio Senna que se desenvolveu no final da década de 80.
Na Folha de S.Paulo de terça-feira, 08/11/1988, há um artigo de José Júlio Senna intitulado “O caminho para o combate à inflação” e há um artigo de Ignácio M. Rangel intitulado “Inflação e distribuição de renda”. O artigo de Ignácio M. Rangel era em resposta a artigo de José Júlio Senna de 30/10/1988 intitulado “A inflação brasileira e a teoria da inércia” publicado na Folha de S. Paulo de domingo, 30/10/1988. Vale à pena a reprodução de dois trechos do artigo de Ignácio M. Rangel “Inflação e distribuição da renda”. Deixo para fazer isso em novo comentário que ainda pretendo trazer aqui para este post.
Clever Mendes de Oliveira
BH, 12/03/2012

Alexandre Schwartsman,
Da resposta que Ignácio M. Rangel no artigo “Inflação e distribuição da renda” de terça-feira, 08/11/1988 dera ao artigo de José Júlio Senna de 30/10/1988 intitulado “A inflação brasileira e a teoria da inércia” retiro os dois trechos que transcrevo a seguir. Disse Ignácio M. Rangel lá:
"Para começar, devo dizer que não é minha intenção dourar a pílula da inflação. Mas também não devemos cair no equívoco oposto de atribuir-lhe tudo o que não presta em nossa vida nacional. . . . . Em nossa experiência contemporânea sobrevém, ordinariamente, como uma defesa do sistema contra a recessão. . . . . a desvalorização da moeda [a inflação] importa numa penalização da retenção de ativos líquidos, via pela qual promove investimento que não se faria se a amoeda fosse estável.
Ora, seria esdrúxulo supor que algo que promove investimentos, criando empregos, por isso mesmo, isto é, por efeito do aumento dos investimentos, pudesse resultar em redução relativa da folha salarial"
.
E no segundo trecho, mas especificamente no penúltimo parágrafo do artigo "Inflação e distribuição da renda", ele diz:
"Num caso como no outro - isto é, na inflação ordinária, saudável resposta à recessão, ou na inflação extraordinária, cuja causa profunda está no desequilíbrio das finanças do Estado - dificilmente poderíamos surpreender um processo de redistribuição da renda contra os trabalhadores. Redistribuidora, é a recessão, especialmente, ocorrendo nas condições de violenta elevação da produtividade do trabalho, notadamente na agricultura. Milhares de camponeses são expelidos do campo pela introdução da moderna tecnologia agrícola, e vão ter às cidades, sem que ai se manifeste elevação de demanda de mão de obra. Cada trabalhador em atividade sente, às suas costas, uma fila de sombras - desocupados dispostos a tomar o seu lugar por qualquer salário".
Diante de argumentos assim, eu passei a ser mais complacente com a inflação. É claro que eu gostaria de ver refutada a minha complacência com a inflação e por isso venho desde então procurando uma abordagem menos perfunctória de alguém com mais conhecimentos sobre a inflação que possa rebater essa minha opinião de que a inflação não é tão ruim para a economia. Explicito mais sobre porque não vejo a inflação como ruim e o que consideraria válido nas críticas a inflação em meus próximos comentários.
Clever Mendes de Oliveira
BH, 12/03/2012

Alexandre Schwartsman,
Uma justificativa imperdível sobre a necessidade de se priorizar a geração de emprego como uma medida mais favorável aos pobres ainda que taxas de crescimento elevadas sejam mais propensas à concentração de renda, eu encontrei no final do ano passado em artigo de Antonio Delfim Netto e que fora publicado no Valor Econômico de terça-feira, 04/10/2011 com o seguinte título "Metas inflacionárias". Nele há um parágrafo assim:
“A igualdade de oportunidade é objetivo fácil de ser enunciado, mas esconde enormes problemas conceituais e práticos. De qualquer forma, deve começar com a chance de todo cidadão ganhar a vida com o seu esforço. De todos os desperdícios de recursos naturais de uma sociedade, nenhum é mais injusto, mais prejudicial à integração social e à autoestima do cidadão, do que negar-lhe a oportunidade de viver honestamente e sustentar a família com o resultado de seu trabalho.
Na década de 80 eu li um livro que me foi muito importante em minha formação. Trata-se de “O gene egoísta”. Nele eu encontrei a justificativa para o fato que eu já havia percebido de que as pessoas sempre foram mais adversárias da inflação do que do desemprego. Ora, a inflação atinge todo mundo, enquanto o desemprego atinge um punhado muito pequeno de pessoas.
Daí porque eu sempre defendi que a inflação é um problema político e não um problema econômico. Foi essa idéia que eu transcrevi em comentário que eu enviei para o seu post “Xeque em quatro” de quinta-feira, 01/03/2012, trecho de comentário meu mais antigo expressando essa idéia.
Retirei o comentário que transcrevi no seu post “Xeque em quatro” do antigo blog de Luis Nassif projetobr junto ao post “Preparando o Álibi” de 23/12/2007 às 06:00. Meu comentário fora em réplica à resposta de um comentarista intitulado “Economista”. Há uma tréplica dele a minha réplica que vale a transcrição pela correção, precisão e adequação dos argumentos dele contra a inflação. Deixo para o transcrever em um próximo comentário.
Clever Mendes de Oliveira
BH, 13/03/2012

Alexandre Schwartsman,
Diante do meu argumento para o comentarista que se intitulava “Economista” de que a inflação era um fenômeno que possuía mais repercussão no aspecto político, o autodenominado “Economista” fez uma resposta bem percuciente e a encaminhou em 03/01/2008 às 20:43 junto ao post “Preparando o Álibi” no blog de Luis Nassif e que penso vale bem a transcrição. No comentário dele, depois de transcrever o trecho de meu comentário em que eu afirmo que a inflação é um problema político, o comentarista "Economista" lança a tréplica dele dizendo:
"Discordo.
A inflacão tem conseqüências econômicas, assim como um corte em uma artéria de sua perna tem conseqüências medicas.
Países com inflacão alta tem atrofia nos mercados de risco e investimento de longo prazo (financiamento imobiliário e investimentos privados), o sistema de preços não vai alocar os investimentos corretamente (porque vai haver barulho demais nos preços relativos), agentes econômicos desperdiçam recursos no processo de se evitar a inflação (excesso de viagens aos bancos) etc.
Abracos"
,
Belo argumento no plano teórico. O problema é que no mundo real houve muitos países com taxas elevadas de inflação e sem atrofia nos mercados de riscos e nos mercados de investimento de longo prazo. É claro que o debate pode prosperar ao infinito. Basta dizer que se não houvesse inflação os mercados de riscos e os mercados de investimento de longo prazo seriam maiores.
No próximo comentário falo mais sobre a minha percepção dos efeitos da inflação no crescimento e na insatisfação popular.
Clever Mendes de Oliveira
BH, 13/03/2012

Alexandre Schwartsman,
Não é muito fácil ficar comparando países que muitas vezes são bem diferentes. De todo modo, gosto de comparar a Colômbia com mais uns quatro a seis países da América do Sul, a saber, Argentina, Brasil, Peru e Venezuela. De 70 ao final do século XX, a Colômbia tinha as taxas de inflação anual em torno de 30% ao ano e provavelmente teve as mais altas taxas de crescimento econômico. É bem verdade que foi na Colômbia que a guerrilha mais floresceu. O desemprego era baixo, mas a inflação elevada fomentava a antipatia da população em relação aos governantes.
A Colômbia serve de análise com ela mesma. No século XXI a Colômbia passou a adotar o regime de metas de inflação e a inflação desapareceu. Sem inflação, as FARCs começaram a perder o pequeno apoio popular que o movimento possuía. Agora se se compara a Colômbia das três últimas décadas do século XX e a primeira do século XXI vai-se perceber que sem inflação o crescimento econômico colombiano ficou bem menor.
O Brasil também até a década de 80 era relacionado entre os três países que mais cresceram no mundo no século XX e os primeiros 80 anos do século XX não foi propriamente um período de baixa inflação.
Então, deixando de lado o efeito da inflação na demanda (Eu considero que a inflação reduz a demanda, mas considero que a redução da demanda é semelhante a poupança e assim eu não a trato a ferro e fogo), em princípio não creio que a inflação seja entrave ao crescimento econômico. Talvez até se tenha o contrário.
Agora, em meu entendimento o grande mal da inflação está em solapar a autoridade do governo. O processo inflacionário leva a população a imaginar um conluio entre o governante e os grandes empresários que são liberados a aumentar o preço sem sofrer nenhuma restrição ou penalidade por parte do governo (Os pequenos empresários também percebem a inflação de forma semelhante à maioria do povo). Quanto mais alto for a inflação, maior é a descrença do povo para com o governante. A população percebe o governante como corrupto e assim a avaliação do povo torna-se cada vez pior quanto mais aumenta a inflação. Em um sistema democrático essa situação é insustentável. Daí porque considero que a inflação é um problema eminentemente político.
Há muito mais para ser dito, mas penso que o que eu disse já serve para eu poder voltar, nessa série de comentários, para a minha análise do seu post propriamente.
Clever Mendes de Oliveira
BH, 13/03/2012

Alexandre Schwartsman,
Sempre que vejo um artigo seu, fico na expectativa de que vou apreender alguma coisa. Recentemente em comentário que enviei sexta-feira, 02/03/2012 às 00:22, para junto do post “Dilma critica guerra cambial” de quinta-feira, 01/03/2012 às 15:22 no blog de Luis Nassif, eu fiz menção a outro seu post “Xeque em quatro” que eu vi primeiro no artigo de 01/03/2012, no Valor Econômico. Utilizo seus artigos, mesmos que discorde deles como eu enfatizei nos comentários que enviei para o post “Xeque em quatro”, como uma forma de mostrar que outra opinião com mais rigor técnico do que a de um leigo é possível e e tem até maior probabilidade de ser a correta (Se só existir uma solução correta).
Quando comecei a ler o artigo “Por quê?” que saíra na Folha de S. Paulo, tive a sensação que finalmente eu seria convencido dos malefícios da inflação. Entretanto, a leitura que eu fizera então não me deixou satisfeito. Depois ao vir aqui no Blog fiquei com a sensação que havia visto mais do mesmo. O comentário de Moska enviado quarta-feira, 29/02/2012 às 20:14, pareceu-me a crítica correta na questão da circularidade, embora reconhecesse como dissera o comentarista PALPITEIRO, em comentário enviado 01/03/2012 às 10:32, que no regime de metas o cumprimento da meta confere maior confiabilidade ao Banco Central e isso me parece que permite taxa de juros menores, ainda que para mim essa afirmação seja impossível de ser provada.
Deixo para ilustrar a dificuldade que tem os economistas para demonstrar que a inflação é ruim para o sistema econômico em mais um comentário que pretendo ainda fazer. Antes, porém, pretendo expor o que penso sobre a inflação e o regime de metas.
Clever Mendes de Oliveira
BH, 14/03/2012

Alexandre Schwartsman,
Você se propôs a responder a duas questões:
1) “Qual é o problema de termos a inflação acima da meta?”
Como eu disse em comentário anterior, em relação a esta primeira questão, eu estou mais propenso a concordar com você. Primeiro a inflação acima da meta gera a perda de credibilidade do Banco Central. E essa perda de confiabilidade gera mais inflação. Em relação a afirmar que a perda de confiabilidade gera mais inflação, eu tenho dúvida. Sempre considerei que é preciso de algo mais palpável para gerar inflação. Agora, aqui vale trazer uma discussão que Gustavo Franco tentou desenvolver no ano passado de que o grande volume do débito público de curto prazo é fator principal a justificar o juro alto. Este foi o teor da reportagem que saiu na Folha de S. Paulo, de 15/06/2011, com o seguinte título "Estatística subestima deficit público, diz ex-presidente do BC". Com um Banco Central sem confiabilidade, os agentes econômicos tendem a liquefazer os seus créditos e isso pressiona a inflação para cima. Há outro problema na perda de credibilidade do Banco Central. Os agentes econômicos demandariam juros mais altos do que aqueles necessários para alcançar a meta. Penso que isso é bem provável. Haveria a perspectiva de que a inflação seria maior do que afirmado e assim o juro de longo prazo seria maior e dado novamente a questão da dívida pública elevada com rolagem no curto prazo se exigiria juro mais alto para provavelmente atingir o mesmo nível de inflação. Eis ai dois bons motivos para não se ir com tanta sede ao pote do regime de metas de inflação. A perda de confiança em um banco central fica muito mais visível e assim um banco central para impor confiança tem que dosar para mais a taxa de juro
E a segunda questão que não foi explicitada, mas que é sobre ela que você desenvolve parte do seu artigo pode ser feita simplesmente colocando uma interrogação em uma frase que você comenta. Assim a segunda questão seria:
2) “A inflação mais alta seria favorável ao crescimento?”
Bem não são só leigos como eu que pensam assim. Como você disse há economistas também. Para você, entretanto, leigos e economistas que pensam assim estão equivocados, pois na suas palavras:
“Concretamente, a capacidade de crescimento de um país independe da inflação ser 4,5%% ou 6,5%”.
E é um pouco sobre este limite que eu gostaria de me posicionar no próximo comentário.
Clever Mendes de Oliveira
BH, 14/03/2012

Alexandre Schwartsman,
Segundo você “Concretamente, a capacidade de crescimento de um país independe da inflação ser 4,5%% ou 6,5%”. Bem já disse em comentário anterior aqui para este post que sou bem complacente com a inflação. Então provavelmente meus limites que não seriam fixos, pois levariam em conta as circunstâncias de cada país, seriam bem diferentes dos seus.
Cabe, entretanto um questionamento prévio. Esses são realmente seus limites para taxas de inflação que não influenciariam a taxa de crescimento do PIB ou você admite uma extensão maior dos limites? Quer dizer, pareceu-me que você quis se evitar colocar como limite inferior taxas muito baixas de inflação que seriam indicativas de recessão, algo, por exemplo, de índices de inflação inferior a 1,5%. E no limite superior, você procurou um limite que ficasse de acordo com a sua defesa em não se ser leniente com a inflação. Fica, entretanto, a questão, por que não 7,5%, 8,5%, 9,5% e quem sabe até mais?
Lembro que ali por volta de 1997 eu li um artigo que se não me engano era do Celso Pinto, provavelmente na Folha de S. Paulo, em que ele mencionava um trabalho do FMI que preconizava que o ponto ótimo da inflação era algo em torno de 9%. Não consigo achar uma referência qualquer deste artigo. Nem lembro direito o conteúdo do artigo. Não dei muita importância para ele, pois para mim o limite era muito maior. Aliás considerei que o artigo era uma espécie de conselho-ordem do FMI apavorado com o esforço de Gustavo Franco em baixar a inflação no Brasil sem medir custos e como a inflação já estava nesta faixa de 9%, o FMI resolveu colocar em um documento a recomendação para que Gustavo Franco amenizasse um pouco o esforço. Provavelmente o trabalho era o de Michael Sarel que em 1995 publicou pelo FMI o trabalho intitulado “NonLinear Effects of Inflation on Economic Growth”, embora o limite superior para Michael Sarel fosse de 8%.
Não sei bem a relação da inflação com o crescimento, mas me parece que a inflação tem efeitos salutares. Quando o dólar valoriza e as exportações aumentam há uma inflação que reduz a demanda parecendo assim criar um excedente para exportação. É a inflação criando poupança. Aqui eu volto a fazer a solicitação que eu fiz junto ao post “Xeque em quatro”: você poderia indicar o artigo ou post e que me parece que você escreveu e onde você critica a idéia de que a inflação reduz a demanda?
Quando a inflação sobe há uma diminuição da dívida pública. E o aumento da inflação representa mais recursos chegando aos cofres dos governos. Se além disso, a inflação causasse crescimento econômico era de se perguntar para que reduzir a inflação?
Ainda quero falar um pouco mais sobre o que dizem sobre a inflação os economistas que a criticam e fazer um pouco de digressão sobre o que já se disse de interessante sobre a inflação. Tentarei falar sobre isso no próximo comentário.
Clever Mendes de Oliveira
BH, 14/03/2012

Alexandre Schwartsman,
Não era admirador de Roberto Campos, mas li com satisfação o livro dele, “Lanterna na popa”. Não gostava dele principalmente porque tendo trazido para o sistema tributário nacional o ICMS, um imposto de valor agregado de origem européia, apesar da formação dele ser americana, imposto que só em 1973 a Inglaterra levaria para o sistema tributário daquele país, ele se engajou na defesa do imposto único. Embora eu fosse um defensor da CPMF, recriminava a contribuição por acreditar que talvez ela antecipadamente cumprisse a profecia da direita reaganiana que dizia que a receita cria sua própria despesa, uma vez que possuindo uma dívida elevada que se rola no curto prazo se a CPMF elevar a taxa de capitação no mercado, ela elevaria automaticamente os custos da rolagem da dívida. Imaginá-la como imposto único era um descalabro e um retrocesso em relação ao que ele já fizera.
Lembrei-me do livro de Roberto Campos porque lá havia passagens interessantes e pertinentes aqui nessa discussão sobre inflação. No livro Roberto Campos lembra que perguntado a Chiang Kai-Shek o que faria diferente, o militar chinês respondeu que não deixaria a hiperinflação voltar. O que me faz lembrar que as três revoluções: a Francesa, a Russa e a Chinesa ocorreram em processos inflacionários agudos. E foi muito em razão da inflação no Brasil e no Chile que os militares tiveram condições de impor uma ditadura. Na Bolívia o tempo médio de um governante até a década de 80 era de um ano. O país só estabilizou economicamente quando conseguiu estabilizar a economia. É claro que a estabilização não pode ser total como descobriu Gonzalo Sánchez de Lozada, pois a paz de cemitério também gera revolta popular.
Outra informação útil do livro “Lanterna na popa” diz respeito a uma conversa que Roberto Campos teria tido com um banqueiro inglês que recriminou que na América Latina se rezasse dizendo “perdoai as nossas dívidas assim como nos perdoamos os nossos devedores”. Havia lido antes e não acreditado em um livro da esquerda que a mudança na oração fora feita por pressão dos banqueiros na Igreja Católica. Contado pela direita a história tornava-se mais plausível.
Há uma passagem divertida sobre a estimativa do PIB a partir da avaliação do sanitário de restaurante. Tornou-me crível quando observo o quanto Belo Horizonte melhorou os sanitários dos restaurantes nos últimos anos em que a cidade tornou-se evidentemente bem mais rica.
E havia as passagem em que ele recriminava a inflação acusando-a de elevar os preços das mercadorias. Uma idéia anacrônica. Inflação não significa preços altos, mas aumento de preços. Quando havia inflação no Brasil, os preços de quase todas as mercadorias eram mais baratas no Brasil do que no Japão onde a inflação sempre foi muito baixa.
Acrescento mais um comentário para encerrar minhas digressões sobre a inflação.
Clever Mendes de Oliveira
BH, 14/03/2012

Alexandre Schwartsman,
Mais recentemente voltei a lembrar do livro “Lanterna na popa” quando li a autobiografia de Alan Greenspan “A era da turbulência”. Comparando as duas obras, eu considerava “Lanterna na popa” muito mais informativo e lembrava que a única passagem interessante que li em “A era da turbulência” foi a que Alan Greenspan vaticinava taxas de inflação mais altas no mundo ocidental desenvolvido.
Vaticínio que até agora não se cumpriu, mas que penso que foi imaginado tendo em vista uma necessidade de aumento da dívida pública para enfrentar a recessão que se avizinhava. E mais à frente quando fosse preciso reduzir a dívida pública, o recurso mais em mãos seria a inflação. A inflação é a única forma de se reduzir a dívida pública. Pelo menos a lembrança que Alan Greenspan tinha da redução da dívida pública americana, que chegou a mais de 100% no final da Segunda Guerra Mundial, era o aumento progressivo da inflação. Com a inflação a dívida pública americana, ao final dos anos 70, havia decrescido para cerca de 30% do PIB.
Minha intenção era encerrar essas divagações com duas referências a Jânio Quadros. Uma diz respeito à matéria que saiu no jornal Folha de S. Paulo de 21/03/1997, na editoria Brasil, na página 1-4, edição Nacional, na seção Painel, Contraponto e que ganhou o título “Síntese populista”. Minha intenção é reproduzir o texto que é curto, mas penso ser mais adequado fazer a transcrição em outro comentário. E a segunda referência consiste de um post no blog de Luis Nassif intitulado “O primeiro comercial político na TV” de terça-feira, 21/09/2010 às 07:49. Trata-se de comercial na campanha de Jânio Quadros em 1960 e vinculado na televisão em que se mostra um pai de família falando da alta dos preços nas lojas e da campanha anticorrupção de Jânio Quadros. O gênio de Jânio percebeu a estreita vinculação que o povo fazia (e ainda faz) entre corrupção e inflação.
No próximo comentário transcrevo o texto de “Síntese populista”.
Clever Mendes de Oliveira
BH, 14/03/2012

Alexandre Schwartsman,
Transcrevo a seguir o texto de “Síntese populista” que fora publicado na Folha de S. Paulo de 21/03/1997 na seção Painel, Contraponto.
“Jânio Quadros contou com o apoio de Delfim Netto na campanha à prefeitura paulistana em 1985. Sem experiência eleitoral, Delfim exagerava no jargão econômico durante seus discursos.
Em uma reunião na associação de moradores de um bairro da periferia, Delfim terminou sua fala de forma enfática:
- A grande causa do processo inflacionário é o déficit orçamentário.
Quando terminou, Delfim sentou-se ao lado de Jânio.
- Delfim, olhe para a cara daquele sujeito ali. O que você acha que ele entendeu do seu discurso? - perguntou Jânio.
A lição continuou:
- Ele não sabe o que é processo. Não sabe o que é inflacionário. Não sabe o que é déficit. E não tem a menor idéia do que é orçamentário.
Quando Delfim pensou que o sermão acabara, Jânio disse:
- Da próxima vez, diga assim: a causa da carestia é a roubalheira do governo”.

O texto verdadeiro ou não evidencia o quanto Jânio Quadros ou quem inventou a história compreendia a alma popular e mostra também como essa alma popular percebe a inflação. E o texto não se limita a generalizar sobre a alma popular brasileira. Um bom tradutor torna o texto aplicável a qualquer país democrático.
Havia copiado alguns textos de um CD que a Folha de S. Paulo vendeu com textos de 94 a 98, mas estavam em um computador velho que eu não mais usava. Querendo transcrever a história na íntegra e não só com o que eu guardava de memória fui a procura desse texto “Síntese populista”. Tive sorte porque encontrei três outros arquivos com textos imperdíveis. São textos grandes, pois tratam de entrevistas, mas que talvez possam ser consultados seja diretamente nos arquivos da Folha de S. Paulo seja em outros links. Para não alongar este comentário deixo para o próximo o detalhamento dos outros arquivos com os textos valiosos.
Clever Mendes de Oliveira
BH, 15/03/2012

Alexandre Schwartsman,
Os três arquivos que eu encontrei junto com o texto “Síntese populista” são entrevistas que guardam bastante relação com este post “Por quê?”. O primeiro texto é uma entrevista de Celso Pinto com Roger Dornbusch publicada na Folha de S. Paula de 01/04/1996, na página 1-10, na editoria Brasil, edição nacional com o seguinte título “Dornbusch receita inflação e crescimento”. Só o título da entrevista já justifica fazer a menção aqui neste post “Por quê?”.
O segundo texto consiste também de uma entrevista concedida em 93 e publicada em 15/09/1996, desta vez com o general e ex-presidente do Brasil Ernesto Geisel, e que deve ser vista juntamente com o terceiro texto e que consiste também de uma entrevista com o então presidente Fernando Henrique Cardoso publicada no jornal Folha de S. Paulo em 13/10/1996, cerca de um mês após a publicação da entrevista com Ernesto Geisel.
A entrevista de FHC, intitulada “FHC Exclusivo” foi concedida a Vinicius Torres Freire na editoria Mais! e publicada em 13/10/1996 em edição nacional na página 5-4 no jornal Folha de S. Paulo. Na entrevista Fernando Henrique Cardoso se dedica a tecer loas a Globalização. Parece um velho marxista que imagina que o capitalismo estava se aproximando do auge em todo o mundo. A comparação da entrevista de Fernando Henrique Cardoso com a entrevista de Ernesto Geisel, intitulada “A revolução de 64 não era para durar" publicada no jornal Folha de S. Paulo de 15/09/1996 na editoria Brasil, em edição nacional, na página 1-11 e que fora concedida em 1993 provavelmente a Cosette Alves, justifica-se pelo fato de Fernando Henrique Cardoso tratar a questão do desemprego como mero dado estatístico a ser estudado enquanto Ernesto Geisel, que chama o golpe militar de revolução, e que nos retratos históricos que pintam dele não o colocam muito distante do que se pode chamar de falcão, dá demonstrações explícitas de sensibilidade e imaginação sociológica que parecem faltar à escâncara ou ao escarcéu em Fernando Henrique Cardoso.
Já disse o suficiente para encerrar aqui os meus comentários, mas provavelmente lembrarei de um tema qualquer pertinente a este post “Por quê?” e quando isso ocorrer aproveito para fazer menção.
Clever Mendes de Oliveira
BH, 15/03/2012

Alexandre Schwartsman,
Disse que voltaria quando lembrasse de algum tema pertinente a este post “Por quê?”. Nem se trata de uma lembrança, pois pensei em falar sobre isso em todos os comentários. Queria me referir à crítica que muitos – leigos e economistas – fazem a inflação como fator de desequilíbrio dos preços e como fator impeditivo do planejamento. Costumo rebater essas críticas dizendo que com baixa inflação o que se tem não é o equilíbrio dos preços, mas o equilíbrio do índice de preços. Numa economia dinâmica como é a economia capitalista em que nada permanece constante, os preços que compõe o índice de preços não estão em equilíbrio.
E não há porque dizer que a inflação inviabiliza o planejamento porque raramente uma empresa tem entre as mercadorias que ela põe a venda o índice de preços que em regime de baixa inflação é bastante estável, O que as empresas disponibilizam para a venda são produtos que podem variar de preço de modo bastante acentuado, mesmos em economias estáveis. Preços como de petróleo e de celulose que são dois produtos que requerem investimentos vultosos e de longo prazo variam de forma desencorajadoras em espaço muitas vezes curto de tempo. Falar em estabilidade de preços quando há até mesmo milhares de mercadorias que aparecem e desaparecem no mercado é um tanto sem sentido. Máquina de datilografia, walkman, vinil e muitas outras mercadorias exemplificam casos de produtos que já fizeram sucesso e agora praticamente desapareceram do mercado.
Recentemente eu pesquisa sobre o Regime de Metas de Inflação achei um arquivo junto a “The Reserve Bank of New Zealand”, intitulado “Monetary policy and inflation” que tratava da inflação. A Nova Zelândia é um país de meros 4,4 milhões de habitantes, ou seja, menos populoso que a região metropolitana de Belo Horizonte, mas guarda importância por, entre outros feitos, ter sido a pioneira na introdução do regime de metas de inflação. O artigo, entretanto, não é muito auspicioso. Diz lá no texto do artigo:
“Price stability exists when prices overall are stable (ie, money is an effective store of value)”
“Prices overall” não me parece um sinônimo adequado de índice de preços. Não é só isso, entretanto. Mais à frente, vê-se uma preciosidade em trecho que transcrevo a seguir:
“Why is price stability better than inflation or deflation?
Price stability helps create an environment where economic growth may occur more easily. It does this by enabling money to work as the means by which people and businesses transact and contract with one another. When inflation is high, firms and businesses face uncertainty about the future, and this changes the way in which they behave”.

Dizer que incerteza sobre o futuro é provocada pela inflação alta é tirar da vida toda a poesia.
Clever Mendes de Oliveira
BH, 15/03/2012

Oi. Ganhou um novo leitor.
Gostei muito dos seus posts.