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quarta-feira, 2 de março de 2011

Por quem os juros sobem

Hoje o Comitê de Política Monetária do Banco Central (Copom) deve se decidir por mais uma rodada de elevação da taxa de juros básica da economia. Não tenho dúvida que, até entre os meus 18 leitores, há mais de uma alma se perguntando por que, afinal de contas, se a taxa de juros no Brasil já é tão alta, seria necessário elevá-la ainda mais.

A resposta simples é porque a inflação, não apenas a corrente, mas, principalmente, a esperada, se encontra acima da meta estabelecida pelo Conselho Monetário Nacional (4,5%). De fato, a inflação nos últimos 12 meses se encontra ao redor de 6%, enquanto o consenso de mercado e as projeções do próprio BC sugerem que a inflação em 2011 e 2012 deve superar a meta, caso a Selic não suba.

Mas a resposta simples é insuficiente. Uma mente mais inquisitiva poderia perguntar se uma taxa de juros mais elevada é mesmo um tratamento eficaz contra a aceleração da alta dos preços. Por exemplo, se a inflação resulta de preços de alimentos, por conta da elevação dos preços mundiais de commodities agrícolas, como se ouve aqui e acolá, que bem poderia fazer um aumento da taxa de juros?

A verdade, contudo, é que a inflação decorre de fenômenos bem mais amplos que os preços de alimentos. O núcleo de inflação (que retira os preços de alimentos, assim como tarifas públicas) indica que os preços estariam aumentando a um ritmo de 6,5% ao ano. Destaco adicionalmente que o IPCA medido de 16 de janeiro a 15 de fevereiro revela que mais de 73% dos itens não-alimentícios sofreram aumento no período contra 69% em janeiro, revelando que o processo inflacionário se encontra bastante difundido.

E, antes que alguém alegue que se trata de problema sazonal, noto que esta medida de difusão é a mais alta para o mês desde 2003, merecendo a duvidosa honra de ser a segunda maior para fevereiro desde o estabelecimento formal do regime de metas para a inflação.

Isto dito, se as causas da aceleração inflacionária vão além do comportamento do preço de alimentos, quais são elas? Ainda que setores menos comprometidos com a estabilidade de preços insistam em “problemas estruturais” ou “conflitos distributivos” (que, misteriosamente, se exacerbam apenas quando a economia cresce em ritmo forte), a verdade é que a inflação varia essencialmente em linha com o grau de pressão sobre a capacidade produtiva da sociedade. Quando o mercado de trabalho aperta, o nível de utilização de capacidade na indústria sobe e os (muitos) gargalos da infra-estrutura (como os recentes “apagões”) pipocam mais que o David Beckham, os custos unitários se elevam e as condições de demanda permitem seu repasse generalizado.

Sob estas circunstâncias, não há alternativa para conter o processo inflacionário que não passe pela redução da pressão sobre a capacidade produtiva e, goste-se ou não da conclusão, isto requer que o crescimento fique, por algum tempo, abaixo do potencial. Isto poderia ter sido evitado se o combate à inflação tivesse sido iniciado mais cedo, promovendo a convergência do crescimento para seu potencial (o chamado “pouso suave”) ainda em 2010, mas este leite já se encontra devidamente derramado.

É bom que se diga, também, que esta desaceleração poderia se dar preservando o consumo e o investimento privados, desde que o governo tomasse para si o fardo de reduzir seu dispêndio. Obviamente, quando o responsável pelo caixa afirma que “os gastos públicos não têm impacto inflacionário no Brasil”, fica claro que esta não é a prioridade, ainda mais depois de um “corte” de despesas que, na verdade, implica seu aumento com relação ao observado em 2010.

Assim, leitor, quando perguntar por quem os juros sobem, saiba que eles não sobem por ti, mas por quem desperdiçou (e, parece, desperdiçará) todas as oportunidades de lidar com o problema antes que isso se tornasse necessário.

É minha! Ô..ô...Não!

(Publicado 2/Mar/2011)

Reações:

26 comentários:

Fico imaginando com meus botões quem pensam que enganam os atuais ministros da fazenda e planejamento. Num dia declaram um fictício corte de despesas, que ninguém no mercado acredita, no outro a imprensa anuncia aumento do bolsa família e aumento de 80% nos gastos com viagens de funcionários sobre o mesmo período de 2010 e por aí vai. Como estamos no período do carnaval, esse samba do criolo doido nunca terminou bem por estas bandas. Temo que com esse comportamento, mesmo que o BC eleve em 0,75% a Selic, chegaremos a uma estaginflação, que é o pior cenário possível.

Grande Alex! Parabéns por mais este excelente texto. Claro, objetivo, informações em formato perfeito para não-economistas como eu.
Obrigado!

"Ainda que setores menos comprometidos com a estabilidade de preços insistam em “problemas estruturais” ou “conflitos distributivos”

É o mesmo papinho dos anos 80, a la Bresser. É a turminha do Mantega...

A lógica de sua exposição é inconteste...
Mas a atitude da Dilma de, pelo menos tentar, reduzir o avanço da gastança não te surpreendeu?
Abs

No geral concordo com o argumento e com as implicações de política.

Porém, é, no mínimo, curioso notar que o PIB do terceiro trimestre cresceu 0,5% na margem e que o do último trimestre deve avançar entre 0,8% e 1%. Quando se comparam esses números ao crescimento trimestral de 2%, quando o país saía de 2 trimestre de variação negativa, a economia já mostrava sinais de desaceleração (o que sugere, dada a existêcnia de uma curva de phillips, o impacto dos choques de oferta, alimentos, na inflação).

O problema era o nível baixo de desemprego que ainda se mantém e que demora a responder a essa desaceleração da atividade (isso pode estar relacionado a altos custos de contratação e demissão).

Resumindo, a política fiscal frouxa de 2010 não tem como ser defendida, mas a postura do BC de não subir os juros tão logo começou a alta da inflação em setembro/outubro não parece absurdo (o que pode ter acontecido é que a interrupção "prematura", mas com certeza polêmica, da alta de juros no primeiro semestre de 2010 somada ás aspirações políticas do Meirelles tenham arranhado a imagem do BC e esse arranhão continua prejudicando até agora)

Mudando o assunto, muito bom o blog. Parabéns. Só falta uma coisa, divulgar a identidade secreta o "O".

Por fim, desculpem-me pelo péssimo português de quem escreve apresado.

Amigos, me permitam um interlúdio acadêmico.

Vou tirar férias em breve e pretendo fazer uma reciclagem em algum software econométrico. Conheço (ou melhor, conheci, em algum dia no passado) o básico do E-Views e do Stata.

Em qual dos dois vcs acham que eu devo gastar algumas horas-bunda?

Imagino que isso possa variar de acordo com o uso que se pretende fazer do software. Se este for o caso, expliquem qual é mais recomendado para que.

Abraço.

Fique tranquilo vc não nenhum Emir Sader.

Estagflação??? Menos muito menos hehehe

A entender o que disse o ministro da Fazenda, na entrevista de detalhamentos dos cortes, "crescer acima do potencial cria gargalos" e deu um porcentual suportável, 5% a.a. Pois bem, então, crescer até 5%, pode deixar os gargalos como estão: estradas péssimas, ferrovias inexistentes, portos péssimos, aeroportos péssimos? Ou de outra forma: paguem, compulsoriamente, seus cerca de 30% de tributos sobre cada Real dispendido e mais o IRPF, que estes não reverterão em nenhum benefício além de, no máximo, 5% a.a. de crescimento da economia. Com todo esse pano de fundo, continuam a vender o trem-bala, a Copa 2014, as Olimpíadas 2016. E até omelete. Pode usar também a forma omeleta. Estão de brincadeira, não é?
Dawran Numida

Srs
Em 2008 vivíamos uma situação parecida - commodities subindo, economia aquecida, inflação acima da meta. Naquele momento os juros foram a 13,75% e somente não subiram mais porque a crise explodiu. Em várias frentes hoje a situação é mais apertada ( desemprego, conta corrente, fiscal, inflação perto de 6% por quase 2 anos forçando alguma indexação, por ex.).
Pergunta: porque não precisaremos ir até os 14% para trazer a inflação para meta? O que mudou de estrutural?
Fernando A.

+50 bps

perdeu a meta ano passado e vai perder esse ano

já está justificando o apelido de Pombini..


Apollo Creed

"... ainda mais depois de um “corte” de despesas que, na verdade, implica seu aumento com relação ao observado em 2010."

Alex, mas em que momento da história um governo brasileiro realmente fez um "cortou" o orçamento em relação ao ano anterior? Se houve, certamente, foi um ponto fora da curva...

Abs.

"Assim, leitor, quando perguntar por quem os juros sobem, saiba que eles não sobem por ti, mas por quem desperdiçou (e, parece, desperdiçará) todas as oportunidades de lidar com o problema antes que isso se tornasse necessário."

Que surpresa !!

Quer dizer que um dos maiores culpados é o hiper ultra super respeitado, aplaudido, blindado, amado, grande homem publico brasileiro que terá seu lugar reservado na história, Henrique Meirelles, que aliás, absolutamente nada tem a ver com o estranhíssimo pacote de salvamento do banco Panamericano.



Em geral no Brasil é raro alguém ter a coragem para criticar ( com competência técnica ) quem trabalha na Santa Sé, digo, diretoria do BC, pois há intenso risco de patrulhamento de partidos políticos e lobbies financistas em geral.

Mas os fatos são estes, e só não os vê quem não quer, quem é cego, ou quem tem a altivez moral de um traficante.

"Em geral no Brasil é raro alguém ter a coragem para criticar ( com competência técnica ) quem trabalha na Santa Sé, digo, diretoria do BC, pois há intenso risco de patrulhamento de partidos políticos e lobbies financistas em geral."

Hãããã... Você tem certeza?

Esse corte de 50 bi foi para colocar o congresso na mao do governo. Enquanto isso, o custo das operacoes quase fiscais do tesouro vai aumentar junto com os juros. Nao duvido que as grandes empresas que mamam no BNDES estejam cheias de titulo do governo. Como o tesouro capitaliza o BNDES, teriamos um transferencia direta do contribuinte para essas empresas. E o bolsa empresario gordo. Uma hora da merda.

Alex. Tenho uma perguntinha bem simples. Estou cursando administração e um professor de economia disse que a aliquota do compulsório sobre poupança é de 20%. Deu um exemplo: Se João deposita R$ 100 no banco Alfa, então R$20 vai para uma conta nao remunerada no Banco Central. Ai eu perguntei: e se João resolver sacar daqui a um mes? Ele disse que o Banco pagaria ao Joao e o Bacen devolveria os R$ 20 ao banco. Tá correto, é assim que funcionam os compulsórios?
Grata,
Rob

ALex,

concordo que o orçamento deste ano é maior que o ano passado, no entanto, dado a natureza do mesmo não é impossível no curto prazo que o orçamento total diminua ?

Não seria mais honesto avaliarmos o corte proposto (deixando claro que temos absoluta certeza de que não será feito) sob o que de fato poderia ser cortado ?

tenho andado com essa duvida

abraços

Teco

Rob:
Em grandes linhas é assim mesmo que funciona (há algumas complicações, mas não muda a essência da coisa).
Abs

Teco:

Não entendi bem a pergunta. Você pode reformulá-la?

Abs

Alex

a pergunta é:

a) é mais "justo" dizer que não haverá corte de gastos, porque mesmo que cortem esses 50 bi, gastaremos cerca de 30 ou 40 bi a mais que ano passado ou

b) como parte desse orçamento não pode ser mexido ou não pode ser reduzido no curtíssimo prazo, seria mais "justo" tentar pegar o que do orçamento é elegível e ou mutável e ver se está tendo ou não um esforço fiscal (mesmo que parcial) ?

a impressão que tenho é que não existe como gastarmos menos que o ano anterior em hipotese alguma ...

consegui me explicar ?

abraços

teco

Acho que agora entendi Teco. A questão é saber se (a) devemos julgar o governo pelo evolução observada dos gastos (2010 x 2009, etc, etc.); ou (b) pelo que teria sido a evolução dos gastos caso o governo não tivesse promovido os cortes.

Na minha opinião, primordialmente por (a) e explico o motivo. O governo, para começar, formula o orçamento. tudo bem, o Congresso emenda, mas, concretamente, o orçamento, como formulado, já incluía gastos de R$ 755 bi este ano (contra R$ 657 no ano passado), ou seja, R$ 98 bi a mais. As emendas adicionaram algo como R$ 14 bi, implicando que quase 90% do aumento se originou do Executivo quando formulou o orçamento.

Faz sentido?

Abs

Alex

faz sim, mas esse aumento é vontade de gastar / ideologia / miopia ou grande parte aumenta "por osmose" como o deficit da previdencia. pgto de juros, reajuste (por lei) do minimo ??

outra coisa que acho que tem sido pouco comentado é que temos a partir de hoje 12 meses pra descobrir o que farão com o minimo de 2012 e 2013. Se aplicarem as regras que eles mesmos criaram ....

abraços e obrigado

teco

post genial, novamente.

mas 18 leitores? tem um novo? éramos 17...

blog está crescendo...

Ninguém nos segura agora!

A explicação austríaca é mais satisfatória. "Aumento da demanda", "superaquecimento da economia" e todos esses jargões são apenas CONSEQUÊNCIAS da inflação, mas não são a inflação em si. Inflação é um fenômeno puramente monetário, até que provem o contrario. Desafio alguém a mostrar um país com inflação acima de 5% a.a com sua base monetária estável, isso nunca irão encontrar.

Como o "O" já postou, já foi provado, pelo Sargent, que inflação NÃO é um fenômeno puramente monetário.
Repetir isso como mantra religioso não irá fazer com que a inflação passe a ser um fenômeno puramente monetário.

http://1.bp.blogspot.com/_AVb9yQEFewM/TSZfXF5GTxI/AAAAAAAAACI/a31pWlDGagQ/s1600/110106+us_monetary_policy.png