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terça-feira, 27 de junho de 2017

Colapso



Estou convencido que brincamos com fogo. Desde que foram divulgadas as gravações revelando facetas “pouco republicanas” (para usar a hipocrisia da moda) da administração Temer, a chance de levar adiante as reformas necessárias, principalmente no que se refere ao lado fiscal, se reduziu extraordinariamente. Ainda assim, a reação do mercado financeiro (não necessariamente da economia) tem sido quase nula.

O dólar se estabilizou ao redor de R$ 3,30 (comparado a R$ 3,10 em meados de maio) e a bolsa tem ficado mais perto dos 60 mil pontos do que dos 70 mil que estavam ao alcance quando a atual crise política eclodiu. Por outro lado, a taxa de juros para um ano retornou aos patamares pré-crise, enquanto as taxas mais longas se encontram cerca de meio ponto percentual acima do registrado logo antes do episódio Joesley. Um observador que houvesse dormido durante as últimas quatro semanas teria dificuldade para inferir os percalços da atual administração apenas a partir dos preços de mercado.

No entanto, o problema é bem mais sério do que os preços sugerem. Apesar da histeria sobre o teto de gastos (o “fim do mundo”), a verdade é que o ajuste fiscal que deriva de sua aplicação é muito gradual. Não se vislumbram, por exemplo, saldos positivos nas contas públicas até o início da próxima década (sem aumento de impostos), e a dívida só pararia de crescer mais rápido do que o PIB em horizonte ainda mais largo.

Essencial, contudo, para esta estratégia é a aprovação da reforma previdenciária e a continuidade dos esforços na área fiscal. Em trabalho recente, a Instituição Fiscal Independente (que vem produzindo pesquisa de excelente qualidade), indica que, sem a reforma da previdência, a margem fiscal (o que sobra depois das despesas obrigatórias) desapareceria por volta de 2022. Deve ser óbvio, contudo, que bem antes disto (2019? 2020?) o governo federal deixaria de ser operacional.

Engana-se, portanto, quem acredita que a reforma possa ser postergada até a posse do próximo governo. Essa postura supõe em primeiro lugar que a nova administração seja simpática às reformas, o que está longe de ser óbvio. No entanto, mesmo que isso seja verdadeiro, o tempo entre assumir e aprovar as reformas provavelmente não será suficiente para evitar que o setor público se torne inviável.

Não se conclui daí que cessarão os serviços federais: o elo mais fraco da corrente é o teto para o gasto, que em tal cenário não sobreviveria, independentemente de estar inscrito na constituição. O mesmo Congresso que o aprovou cuidará de revogá-lo e a estratégia de ajuste fiscal de longo prazo será irremediavelmente comprometida.

Assim, tal como no fim do governo Dilma, teríamos uma administração incapaz de lidar com o endividamento crescente e as preocupações com a sustentabilidade da dívida retornariam ainda maiores.

Segundo Jared Diamond, sociedades entram em colapso quando não conseguem identificar um problema a tempo, ou, mesmo identificando-o, não dispõem dos meios para lidar com ele, ou ainda quando não conseguem se organizar politicamente para resolvê-lo, embora conseguindo identificá-lo e dispondo de meios para tanto.


O Brasil se parece cada vez mais com o terceiro caso, mas poucos parecem se preocupar com isto.




(Publicado 21/Jun/2017)

Reações:

40 comentários:

Finalmente leio um cenário otimista via P.Guedes: Rodrigo Maia assume,as reformas passam e as eleições de 2018 correm tranquilas. O otimismo também faz parte da tradição liberal ( as pessoas aprendem com os erros,segundo Popper).

Alguns economistas ,após uma brilhante carreira acadêmica ,partem para aparecer na mídia : alguns para a panfletagem (Krugman),outros para teses bizarras (Summers com a estagnação secular). Aqui apareceu Lara Resende questionando a política monetária na hora mais inconveniente.
Enquanto isso o velho Lucas dá um show sobre a revolução industrial(NBER 23547).

Delfim :"a maior oposição a reforma da Previdência vem do alto escalão do funcionalismo federal que se apropriou do poder em Brasília".

Alex, fico me perguntando se o sempre cogitado aumento de impostos realmente se traduziria em mais arrecadação. Será que não seria um tiro no pé? E a economia ficaria ainda mais deprimida?

A palavra "reforma" tem para os paleoliberais brasileños o mesmo valor que a palavra "revolução" tinha para os velhos comunistas. Uma espécie de portal para outra dimensão, ou uma "ponte para o futuro" ou, simplesmente, uma "pinguela" como recentemente explicou um desses nossos "políticos práticos" que como os de Bruzundanga conseguem "eliminar do aparelho eleitoral este elemento perturbador - 'o voto'."

"As pessoas aprendem com os erros, segundo Popper". kkkk

As pessoas estão com tanto medo que preferem não mais enxergar a realidade.

Lula, Bolsonaro e Ciro Gomes estão vindo aí. Só crescem nas pesquisas.

Enquanto isso o PSDB está se autodestruindo.

Se houver reformas, elas serão desfeitas, como já foi prometido pelos candidatos. Se não houver, não ocorrerão.

O fim está cada vez mais próximo. O Brasil segue para o colapso.

Hiperinflação, saques generalizados, fuga de capitais, volta da pobreza extrema, erosão do tecido social, fanatismo político. Esse é o nosso futuro.

Todos os dados eleitorais do momento, e os fatos que surgem a cada dia, indicam para esse caminho. Só não vê quem não quer.

A menos que Popper realmente tenha razão, mas não parece ser o caso. Ao menos não no Brasil.

Aqui, se algo dá errado, deve ser repetido indefinidamente até que dê certo.



Talvez, baseado em seu artigo, o mais correto seria acelerar a saída de Temer, e não apoia-lo.
Um comentário que pode parecer deslocado, mas não é. A polícia federal interrompeu a emissão de passaportes por falta de recursos. Não consigo entender como ainda existem pessoas que não conseguem enxergar a falência do Estado brasileiro.

Não posso deixar de comentar a suposta inconveniência dos comentários do André Lara Rezende.
In
Qual seria esta inconveniência? Inconveniente é não pensar.
Será que devemos instituir o pensamento único? Neste caso então que volte o PT. Eles são ótimos em criar seitas ideológicas

"A palavra "reforma" tem para os paleoliberais brasileños o mesmo valor que a palavra "revolução" tinha para os velhos comunistas. "

Você até poderia ter razão, se não fosse uma diferença crucial: aqui "reforma" significa medidas bem definidas: alteração das regras da previdência, alteração da legislação trabalhista, unificação de tributos sobre valor adicionado...

Obviamente, para quem tem preguiça de saber do que estamos falando, pode parecer a mesma coisa.

E uma revisão constitucional.

Alexandre,

A teoria econômica e a evidência empírica mostram que não existe um dilema de longo-prazo entre inflação e crescimento, ... uma redução da taxa de inflação não produz efeitos permanentes sobre a taxa de crescimento do PIB real.

Isso esta certo?

Eu sou economista e trabalhei no grupo Vicunha.Sugiro que o senhor leia o artigo do Benjamin na folha ressaltando o papel do governo no financiamento de obras publicas,o mesmo papel o governo deve exercer na recuperação do protagonismo da industria.

"Eu sou economista e trabalhei no grupo Vicunha.Sugiro que o senhor leia o artigo do Benjamin na folha ressaltando o papel do governo no financiamento de obras publicas,o mesmo papel o governo deve exercer na recuperação do protagonismo da industria."

Já eu sugiro que leia o comentário de Roberto Ellery, professor da UnB a respeito. Para poupar o trabalho de buscá-lo, o transcrevo abaixo:

"Steinbruch é um sujeito muito rico, ele é proprietário de algumas das maiores e mais importantes empresas do Brasil. As empresas de Steinbruch receberam um bocado de dinheiro subsidiado pelo pagador de impostos nas últimas décadas, imagino que tais empresas também tenham feito excelentes negócios com o governo e/ou com firmas que trabalham para o governo. Todo esse dinheiro, todos esses negócios, toda a proteção e tudo que mais que o governo fez para ajudar grandes empresas como as de Steinbruch não foram suficiente para impedir que entrássemos na maior recessão de nossa história. Quando tal crise chegou donos de grandes empresas como as de Steinbruch correram para dizer que não pagariam o pato, talvez acreditando que o pato deveria ser pago por quem não recebeu empréstimos a juros subsidiados nem contou com obras do governo para ficar ainda mais rico.

Steinbruch, como praticamente todos os brasileiros, está muito preocupado com a crise, naturalmente nem por isso pretende colocar sua fortuna pessoal ou o dinheiro de suas empresas em jogo para estimular os crescimento, ao que parece ele acha mais correto que o governo coloque o dinheiro do pagador de impostos fazer tais investimentos. É a famosa tese que a melhor maneira de ajudar os pobres é dando dinheiro aos ricos, tese que, como vocês sabem, eu não compro. Mas entendo o lado dele, se der certo Steinbuch e seus colegas ficarão ainda mais ricos, se der errado não aceitarão pagar o pato. Vida que segue."

"Eu sou economista e trabalhei no grupo Vicunha."

E não tem vergonha de confessar isto?

Eu tive uma formação ortodoxa no Ibmec-RJ,entretanto quando fui trabalhar na industria vivenciei a dificuldade que tínhamos para concorrer com os produtos chineses.

Professor Ellery assim como meus antigos professores do Ibemec são excelentes economistas ,entretanto desconhecem a realidade da industria brasileira.

"desconhecem a realidade da industria brasileira."

Qual? A que só vivem à custa de subsídios? Ou a indústria infante ter mais de 80 anos?


Eu acho este seu artigo muito importante porque o que se anuncia é o caos. A minha unica discordância é que para mim este caos já chegou. Em uma país onde se morre por bala perdida, em fila de hospital ou atropelado por um motorista bêbado, como regra e não como exceção, conceitos como Estado e civilização já acabaram há muito tempo.
Por isso acho que você deveria dar mais atenção a quem discorda de você e abrir mão do estilo AS de ser.
Duas questões que gostaria que você respondesse, sem falar que eu sou um burro ou que já pegou a minha mãe.As 3 reformas que você relacionou acima não tem a mesma urgência e relevância. A reforma trabalhista não vai gerar empregos em um quadro de recessão.
O texto contra o Steinbruch contem uma demagogia que você condenaria em outra ocasião. Confundir patrimônio pessoal com ativos da empresa vai bem na boca de um PSOlista, não na de um liberal;
E por ultimo a questão da qual você (desculpe a intimidade) foge tal qual o diabo da cruz. Não é possível um país com as condições demográficas, sociais e territoriais do Brasil viver sem uma industria forte. O papel da industria na geração de riqueza é insubstituível. É claro que países desenvolvidos podem exportar suas industrias, preservando o seu controle. Mas no Brasil seria possível? Viveríamos do que.Da agricultura?
É obvio que o governo Lula subsidiou a ineficiência. Mas o governo Lula não deveria ser um parâmetro para esta discussão.

Alex
o governo pode aumentar impostos
mas o governo não pode aumentar arrecadação

Estamos muito além do limite de Lafer

E pior, basta a menor indicação disto para os parcos investimentos se retraírem ainda mais.

Ainda se a equipe econômica estivesse falando em cortando os subsídios e renuncias fisais para aumentar a arrecadação, mas não, eles querem aumentar os impostos denovo nos elos fracos da corrente.

Óbvio que vai dar ruim.

diagnóstico errado
soluções ruins.
Pior que ruins, soluções que pioram o problema.

A propósito o livro do Jared é fantástico.
desses pra se estudar, não apenas ler.

Os problemas da indústria são ICMS (18%), PIS (1,65%) COFINS (7,6%) e IPI (5%) sobre o faturamento. INSS (28%) e FGTS (8%) sobre a folha de pagamento. Mais ainda: IR (15% mais adicional de 10% sobre o lucro que exceder 20 mil por mês) e CSLL (9%) sobre o lucro.

Se os industriamaniacos querem culpar algo, que culpem o verdadeiro problema, ao invés de proporem bizarrices como subsídios nos juros e nas taxas de câmbio.

Os problemas não estão nos subsídios e sim na estrutura do gasto público.

"...dificuldade que tínhamos para concorrer com os produtos chineses."
É verdade que pelo índice BigMac da Economist, ainda somos um dos países como moeda mais apreciada. Nossa grande vantagem comparativa no agro-negócio e a consequente complementaridade com a economia chinesa é a principal responsável por isso.


Obviamente, para quem tem preguiça de saber do que estamos falando, pode parecer a mesma coisa.

Ahh esse "saber".... Felixhimino ben Karpatoso deixou muitos discípulos na Bruzundanga.

"para quem tem preguiça de saber do que estamos falando, pode parecer a mesma coisa"

I rest my case...

Ellery faz acusações pesadas a uma pessoa,não especifica o volume de subsídios recebidos.Posso estar errado ,mas pela forma que o texto foi escrito,ele não deve simpatizar muito com quem é judeu,além disso a família Steinbruch contribui bastante com a comunidade judaica em SP.

Só para deixar claro por se tratar de uma critica a um judeu,ele deveria estar escrito em uma linguagem politicamente correta.

Alex, comprou o livro do Mansueto com Fabio Giambiagi? Indica?

Queria saber aí do paleoliberal: como pode a inflação estar tão baixa com as contas públicas tão ruins.
Hoje saiu a notícia do pior maio em 20 anos!

Quando a inflação teimava em não baixar, a culpa era dos gastos. Quando ela baixa, vem logo aplaudindo o "excelente" trabalho do Bacen!

temos aqui a receita de como acertar sempre, estando sempre errado


O Brasil passa por uma onda conservadora muito grande,estão falando em privatizar a Caixa ou BB:http://www.oantagonista.com/posts/doria-quer-vender-banco-do-brasil-ou-caixa.

"Posso estar errado ,mas pela forma que o texto foi escrito,ele não deve simpatizar muito com quem é judeu,além disso a família Steinbruch contribui bastante com a comunidade judaica em SP."

Curiosidade: você tira as ferraduras para digitar?

"Só para deixar claro por se tratar de uma critica a um judeu,ele deveria estar escrito em uma linguagem politicamente correta."

Esquece: claramente você não tira...

"O Brasil passa por uma onda conservadora muito grande,estão falando em privatizar a Caixa ou BB:http://www.oantagonista.com/posts/doria-quer-vender-banco-do-brasil-ou-caixa."

Tomara, tomara. Infelizmente não vai rolar

"Queria saber aí do paleoliberal: como pode a inflação estar tão baixa com as contas públicas tão ruins.
Hoje saiu a notícia do pior maio em 20 anos!

Quando a inflação teimava em não baixar, a culpa era dos gastos. Quando ela baixa, vem logo aplaudindo o "excelente" trabalho do Bacen!

temos aqui a receita de como acertar sempre, estando sempre errado"

Eu até explicaria, mas, sério, por que deveria perder meu tempo com um cretino como você?

De acordo com Diamond, o que precipita o colapso das civilizações é o esgotamento dos recursos naturais, em geral. No caso do Brasil, o que vem mantendo o país em pé são as safras recordes e a exploração das demais matérias primas. Bastou que, em 2016, houvesse uma quebra da safra para o governo da organização criminosa dos corruPTos cair. Em 2017, a agricultura vai salvando a atual organização criminosa no poder. Porém, essa sorte não vai durar para sempre - vide a tragédia dos comuns...

LEO2CBH1

Concordo plenamente: essa é a mesma visão para prazo alargado que temos aqui. O cenário será tão surreal que todos negarão encarar o 'Kraken' "face to face".
"(...) sem a reforma da previdência, a margem fiscal (o que sobra depois das despesas obrigatórias) desapareceria por volta de 2022. Deve ser óbvio, contudo, que bem antes disto (2019? 2020?) o governo federal deixaria de ser operacional".
De qualquer modo sabemos que o 'contrato social' da 'Nova República' está com os 'dias contados'. O interessante é que nós, aqui, sabemos da forma como esse 'contrato' (conto) terminará.

Somente hoje li esse seu artigo. Curiosamente, há cerca de 3 semanas retirei da prateleira, para reler, o livro de Jared Diamond, Collapse, estimulado precisamente pela nossa histórica e crescente incapacidade de lidar com a realidade e o momento atual do país. Concordo com seu diagnóstico, agravado pelo fato de que, em nenhuma das sociedades por ele analisadas elas tiveram qualquer nocão dos efeitos sistemicos de longo prazo de suas acões (ou falta de)

Eu venho batendo nessa tecla há tempos. Vamoslogo para mais de 150 bilhões de reais de déficit do setor público no acumulado de 12 meses. E a arrecadação caindo. Vão pagar como as contas? O dinheiro vai cair do céu? Qualquer um que entende aritmética sabe que estamos caminhando, se continuarmos nessa paralisia, para insolvência do Estado. E insolvência é, cedo ou tarde, igual a hiperinflação. Agora imaginem uma situação de hiperinflação com mais de 15 milhões de desempregados. Coitado do Banco Central. Política monetária não vai fazer milagre nessa zona fiscal.Aliás não vai fazer nada. Políticos, acordem pra vida! Vocês podem adiar, mas o tempo não posterga.

A carta capital ainda não fechou as portas, mas tudo indica que a turma que comentava a coluna do acéfalo asnonomista Belluzzo se antecipou ao fato e veio dar as fuças aqui no teu blog. É divertido ler as jenhialidades dos comentários dessas tristes figuras.

Abs Alex!

"Eu tive uma formação ortodoxa no Ibmec-RJ,entretanto quando fui trabalhar na industria vivenciei a dificuldade que tínhamos para concorrer com os produtos chineses."

Acho esse tipo de frase engraçada... e daí que tinham dificuldade para concorrer com os chineses? Por que o sujeito iguala a dificuldade da empresa dele com a dificuldade da economia como um todo, como se o problema dele tivesse algo que ver com um problema do Brasil? Do jeito que foi dito fica parecendo que o cara nem entende que o financiamento flui para os setores mais capazes de competir. Será que ele entende que um financiamento subsidiado para o setor dele poderia matar o outro setor, naturalmente mais competitivo?

abraços, Zamba