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quarta-feira, 11 de novembro de 2015

#prontofalei

Economistas têm dificuldades sérias para acertar previsões, mas se há uma em que tenho plena confiança é que a coluna de hoje deve ultrajar boa parte dos leitores e, com um pouco de sorte, garantir que minha conta de e-mail seja invadida por pessoas absolutamente furiosas. Afirmo que, ao contrário do que se diz, o salto da relação dívida-PIB (de 55% para 66% do PIB nos últimos dois anos) não resulta da taxa de juros, mas da piora das contas primárias.

Neste exato momento qualquer um que tenha lido os jornais recentemente já se convenceu que, se me restava alguma sanidade, deve ter migrado de vez. Afinal de contas o déficit público alcançou R$ 536 bilhões (9,3% do PIB) nos últimos 12 meses, dos quais R$ 511 bilhões (8,9% do PIB) se referem ao pagamento de juros. É por este motivo que se afirma por aí que os juros correspondem a mais de 95% do déficit.

Há, porém, dois erros nesta forma superficial de analisar as contas públicas. O primeiro, mais óbvio, é que nem tudo que entra nesta conta se refere a juros propriamente ditos. Incluem-se nela as perdas derivadas da intervenção do BC no mercado de câmbio futuro, que atingiram R$ 132 bilhões nos 12 meses até setembro, representando algo como 2,3% do PIB no período.

O pagamento de juros propriamente dito alcançou assim R$ 379 bilhões (6,6% do PIB), ainda uma conta aparentemente salgada, mas muito menos do que este número sugere.

Para entender isto imaginem um país cujo governo deva $ 100 a juros de 10%, mas com a inflação também em 10%. No fim do ano, o governo faz um pagamento de $ 10, montante que serve apenas para repor o valor da dívida “erodido” pela inflação. Seus detentores têm agora $ 110, cujo poder de compra, porém, é o mesmo de $ 100 no início do ano.

Posto de outra forma, o que faz subir o valor real da dívida é a parcela dos juros que ultrapassa a inflação. Caso a taxa de juros fosse 11%, a dívida no final do ano seria R$ 111, cujo poder de compra equivaleria a R$ 100,90 no começo do ano, ou seja, o juro real (acima da inflação) sobre a dívida foi 0,9%.

Aplicando este mesmo raciocínio à dívida do setor público brasileiro, isto é, deduzindo do pagamento de juros a parcela referente à perda de valor da moeda devida à inflação, estimamos que a conta real de juros teria chegado a R$ 70 bilhões nos últimos 12 meses, ou seja, 1,2% do PIB, muito inferior aos 6,6% do PIB acima mencionados.

Não há nada de revolucionário em tal procedimento. Há alguns anos o próprio BC calculava esta medida, o chamado “resultado operacional”, que estimava justamente o desempenho fiscal do governo livre das influências da inflação e das variações do dólar.

Com base nos dados oficiais estimamos que o resultado operacional, praticamente equilibrado até 2013, consistente com a queda da relação dívida-PIB, tornou-se deficitário em pouco mais de 2% do PIB desde então (ainda maior se incluirmos as “pedaladas”). Não devido ao pagamento de juros reais, que pouco se alteraram de lá para cá, mas pela piora do resultado primário.


Para resolver o problema fiscal precisamos entendê-lo, o que requer livrar-se dos preconceitos e encarar o que dizem os números. Contudo, com tanta gente papagueando que “juros correspondem a 95% do déficit” a solução nunca pareceu tão distante.



(Publicado 4/Nov/2015)

Reações:

21 comentários:

PARABÉNS. Deve-se considerar ainda que parte dos juros são IRRF (receita do TN).

Acredito que o "X" da questão não seja a discussão sobre qual a porcentagem do deficit equivaleria ao pagamento de juros, mas sim sobre o montante de dinheiro, de onde vai sair esse montante e como o rombo vai ser coberto.

O primeiro comentário vai ao ponto; Retirando o IR sobre juros, que retorna ao Tesouro, o custo efetivo da dívida brasileira deve rodar bem abaixo de 1% do PIB.

70 bi BRL - (15% a 22,5% de IR) = valor < 59,5 bi BRL

O governo tem uma dívida X e tem que pagar no fim do período $ 379 de juros, sendo que $ 309 devem-se à inflação e $ 70 aos juros “reais”.

Como o governo não tem o dinheiro (é um déficit, certo?), no fim do período, para quitar os juros, tem que contratar um novo empréstimo de R$ 379.

Porém, de acordo com o senhor, o “valor real da dívida é a parcela dos juros que ultrapassa a inflação”, ou seja, agora dívida real do governo é X+70 e não X+379 como sugere a análise superficial das contas públicas.

Boa! Será que cola com meu gerente de banco?

"Será que cola com meu gerente de banco?"

Provavelmente não, porque dificilmente será tão imbecil quanto você, nem analfabeto funcional como é seu caso. Leia de novo e refaça a pergunta...

"“valor real da dívida é a parcela dos juros que ultrapassa a inflação” (...) Boa! Será que cola com meu gerente de banco?"

Sim, cola com seu gerente de banco; Os bancos sabem perfeitamente distinguir correção monetária de juros reais.

A parcela do financiamento que cobre a inflação é chamada de correção monetária, já a parcela seguinte é chamada de juro real.

E, vale lembrar, que sobre a parte que cobre a chamada correção monetária o Tesouro ainda se apropria de 15% a 22,5%, se Pessoa Física; Se Empresas ou Bancos então os impostos são ainda mais pesados, até 35%.

Para uma inflação de 10% ao ano é necessário cobrar de 11,77% a 12,90% de juros, apenas para conseguir a reposição integral das perdas inflacionárias, se pessoa física, sem qualquer ganho real.

Ficou mais claro agora porque a inflação ajuda a companheira Dilma (e prejudica os mais pobres...) ? Entendeu porque as empresas são tão prejudicadas quando pretendem apenas repor a perda inflacionária ?

"Entendeu porque as empresas são tão prejudicadas quando pretendem apenas repor a perda inflacionária ?"

Ih, PB, não há a menor chance que tenha entendido... Mas valeu a tentativa!
Abs

Dado que a inflação é o maior problema brasileiro de curto prazo (de médio prazo é o controle fiscal e das estatais), o juro real passado está olhando para uma ladeira acima. Estamos inclusive com vies de alta na taxa nominal e deveremos ter uma queda na inflação para em 7%. 2015 a conta operacional foi pequena, em 2016 e 2017 a coisa vai ficar bem mais salgada.

" Estamos inclusive com vies de alta na taxa nominal e deveremos ter uma queda na inflação para em 7%."

Selic nominal no ano que vem não deve ser muito diferente deste ano, em torno de 13,5%. Se a inflação ficar mesmo em 7-7,5%, seu argumento é exato. Mas, e se não? Estamos 100% seguros que a inflação ano que vem será mais baixa?

Abs

O viés de alta na selic ara o cenário da inflação perto de 8% em 2016 está na mesa. A selic deverá ir a 16% se a desinflação for pequena, salvo algo de pior no crédito. A inflação alta foi um dos maiores erros do governo, o governo deve ter percebido isso analisando as pesquisas de opinião sobre intenção de voto. Sou um otimista.

P.S: Boato de Tombini no lugar do Levy é que me deixa um pouco confuso sobre a capacidade de aprendizado do governo.

Alex,

Voce prefere Aecio, Alckmin ou Serra?

Abs
Junior

Adoro suas intervenções no perfil do André Perfeito, Alexandre!!

hehehe

Laura

Responde o Junior ai alex...

"Voce prefere Aecio, Alckmin ou Serra?"

Citando Alan Moore, "would you prefer black ants or red ants?"

Se Meirelles for para a fazenda,o senhor vai para o BC?

http://www.bbc.com/portuguese/noticias/2015/11/151108_bresser_ru

E essa entrevista ai, hein?

Alex,

Voce gosta do meirelles?

Entendo que ele foi um bom presidente do BCB, mas com um time que tinha você, Loyo e Afonso. Não sei se na Fazenda ele seria superior ao Levy. pelo menos não se tem ideia do time que ele levaria...

O que acha?

Julio

heheehehe

http://exame.abril.com.br/brasil/noticias/serra-diz-que-meirelles-foi-o-pior-presidente-de-bc-que-o-pais-ja-teve

Alexandre, você tem alguma opinião para os absurdos que o presidente do IPEA anda falando?

O próprio Samuel Pessoa andou corrigindo ele. Sem falar que para ele "economista" é uma profissão a serviço do grande capital.

Alexandre, quais foram os números que você utilizou para chegar ao valor de 70 bi?

Obrigado!

Maycon de Souza