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terça-feira, 6 de maio de 2014

Por atrocidades novas

Juro que tento achar temas diferentes para escrever a cada semana, mas o esforço do governo, em particular do Ministério de Fazenda, na geração de atrocidades me obriga a voltar a temas que já deveriam estar devidamente relegados ao longínquo cemitério das ideias cretinas. Fossem ao menos atrocidades novas...

Refiro-me, é claro, à proposta de “técnicos do governo”, caracteristicamente não identificados, de retirar do cálculo da inflação os preços dos alimentos in natura em face de “frequentes choques”, identificados como o motivo por trás do desvio da inflação com relação à meta. A sugestão, como de hábito, está tão repleta de erros que parece ser feita de encomenda para ilustrar o problema, na (vã) esperança que parem de vez com esta tolice.

Inflação, bem sabemos, é o aumento persistente do nível geral de preços. A definição é precisa, mas sua contrapartida empírica nem tanto. Do ponto de vista teórico quando nos referimos ao “nível geral de preços” temos em mente um mundo platônico em que há apenas um produto (conhecido como “PIB”), cujo preço pode ser facilmente medido e cuja evolução nos daria a taxa de inflação a cada período.

No mundo real, pleno de som e fúria, há múltiplos produtos, o que torna a análise bem mais complexa. Para simplificá-la determinamos uma cesta de bens e serviços consumidos por uma família média (arroz, escola, dentista, aluguel, gasolina, etc), conforme estabelecido pela pesquisa periódica dos orçamentos familiares. A inflação é então definida como a média ponderada da variação de preços de cada produto na cesta, o que deve ficar claro com um exemplo simples.

Imagine que a cesta consista de apenas 3 produtos: alimentos, com peso 25%, serviços públicos, com peso 35%, e outros produtos com peso 40%. Suponha também que o preço de alimentos aumente 2,5% em dado mês, enquanto as tarifas de serviços públicos permanecem constantes e demais produtos registram aumento de 0,9%. Neste caso a medida de inflação seria 1,0% (0,25*2,5% + 0,35*0% + 0,40*0,9%).

Na prática o indicador oficial, o IPCA, engloba 373 produtos, mas o princípio é o mesmo. A cada mês, portanto, há produtos que aumentam mais do que a média (“pressionando” a inflação) e, óbvio, os que variam menos do que a média.

Destacar, assim, apenas os produtos cujos preços mais cresceram sem atentar para os que menos cresceram é, na melhor das hipóteses, uma visão desequilibrada e, na pior, desonesta, da manifestação do fenômeno inflacionário.

No caso em questão os preços de alimentos consumidos no domicílio aumentaram bastante: 5,6% nos 12 meses até março. Por outro lado, os preços administrados pelo governo subiram bem menos: apenas 3,4%, refletindo o corte das tarifas de energia, o congelamento das passagens de ônibus, bem como a defasagem dos preços de combustíveis.

Descontados, porém, os efeitos de alimentos e tarifas no IPCA (6,1% no mesmo período) descobre-se que a inflação dos demais produtos atingiu nada menos do que 7,4%! Mesmo se descontássemos apenas os alimentos consumidos no domicílio a inflação de tudo que não é alimento teria atingido 6,3%, também mais alta que a oficial.

Não há, pois, como afirmar que a inflação brasileira “resulta” dos preços de alimentos. Ela reflete pressões generalizadas que não se concentram num punhado de produtos, mas se espalham por uma gama extensa de bens e serviços muito além dos alimentos in natura.

Assim, ignorar os preços de alimentos em nome de uma medida “mais realista” da inflação, além de deixar de lado parcela relevante dos bens consumidos pela população, em particular as camadas de renda menor, teria como resultado mostrar uma taxa de inflação ainda mais elevada (e, diga-se de passagem, provavelmente mais verdadeira).

Parece, portanto, que os formuladores da ideia sequer se deram ao trabalho de fazer contas. Alguém ainda se surpreende com isto?


(Publicado 30/abr/2014)

Reações:

24 comentários:

Alexandre, "Inflação, bem sabemos, é o aumento persistente do nível geral de preços."? Isso não seria uma consequência? O aumento da base monetária não é uma melhor definição para a inflação?

Abraço!

"O aumento da base monetária não é uma melhor definição para a inflação?"

Não. Senão concluiríamos que a inflação nos EUA seria de algumas centenas por cento...

Este comentário foi removido pelo autor.

Se o PT não for removido do poder em outubro teremos comprometida a estabilidade política e econômica brasileira.

Alex,

Dentro dessa linha de qual seria a melhor medida de inflação para a meta, um paper do Ricardo Reis (Columbia) indica que seria uma combinação de salário nominal com o CPI. Você sabe de algum cálculo feito como esse para o Brasil?

ps: Uma forma de "baixar" a inflação seria investir no IBGE para que ele fizesse POFs mais frequentes e resolver o problema do viés de substituição.

-A

Alex dá uma justificativa do seu ateísmo por favor.

Desculpa por estar desviando o assunto do blog.

Alex, seus comentários estão sendo repetitivos porque a ignorância governamental tem sido persistente. Mas eles não são chatos e são bastante esclarecedores àqueles que têm interesse na matéria. Deste modo, sinta-se a vontade para escrever, pois isso é educativo e porque temos carência de notícias técnicas.

Alex,

você vê alguma relevância teórica e prática no fato de a inflação pelo IPCA ser sistematicamente superior à do IPC-FIPE? A primeira não capta o efeito substituição provocado pelas maiores variações positivas, enquanto a da FIPE, sim.
Se bem me lembro, o Alan Greenspan às vezes sugeria que a inflação era superestimada porque as pessoas e as firmas iam lentamente ajustando as cestas (também em reação aos preços) e as metodologias utilizadas não seriam capazes de captar essa mudança suave.

‘O’, poderia comentar estes parágrafos abaixo. Uma vez vc disse que era bobagem. Pode explicar por quê? quaisquer outros comentários dos participantes deste blog são bem vindo.

Por que a Inflação não caiu com o aumento da taxa de juros?
O BACEN aumentou a taxa de juros. Contudo, a inflação não caiu. Por que? Em primeiro lugar, existe uma certa defasagem entre o aumento das taxas de juros e a redução da pressão inflacionária. Nesse sentido, devemos culpar o BACEN por sua incrível demora em elevar a taxa de juros. Em segundo lugar, tal como eu já havia avisado, o BACEN executa uma política monetária confusa: por um lado aumenta os juros, mas por outro expande o crédito. Esse tipo de manobra dificulta o impacto dos juros sobre a inflação.

O que combate a inflação é uma política monetária (aliada a uma política fiscal) restritiva. No Brasil já esta claro que a política fiscal não é restritiva. Assim, o combate a inflação fica todo a cargo da política monetária. Mas uma política monetária restritiva implica numa redução da oferta monetária. Como o Brasil adota o sistema de metas de inflação, isso é feito por um aumento da taxa de juros. Contudo, ao expandir o crédito o governo acaba por aumentar a oferta monetária, o que diminui o impacto do aumento da taxa de juros sobre o nível de preços. Em outras palavras, é pouco eficiente aumentar a taxa de juros para combater a inflação se ao mesmo tempo o governo expande o crédito.

Por fim, gostaria de ressaltar um problema técnico: quando o Banco Central Americano (FED) aumenta a taxa de juros, ele altera uma taxa de juros equivalente ao interbancario no Brasil. Isso implica numa pressão forte para os bancos reduzirem a liquidez do mercado, mas essa taxa NÃO É a taxa que remunera os títulos da dívida pública americana (claro que existem impactos sobre a dívida pública, mas estes são impactos indiretos). No Brasil, o BACEN altera a SELIC. Isso não altera diretamente a liquidez dos bancos, pois não altera diretamente a taxa que o BACEN empresta aos outros bancos, mas afeta diretamente a dívida pública. Acho estranho que esse tema seja tão pouco discutido no Brasil, pois me parece que essa estratégia enfraquece o efeito da taxa de juros no combate a inflação.
Y

E quanto às velhas, atualmente em marcha, e igualmente destrutivas ?

Leiam: http://economia.estadao.com.br/noticias/economia-geral,o-gatilho-esta-voltando,184123,0.htm

Alex,

Não sei se você já andou lendo o relatório do FMI, mas tem uma parte em que os técnicos daquela instituição tratam da tendência de médio prazo da taxa de juros nos principais centros mundiais.

Concluem que ela tem uma tendência a permanecer baixa em função do excesso de poupança em relação à demanda por esses recursos. Confesso que me surpreendi, porque se a China está cheia de poupança, também está cheia de idosos. Enfim!

Gostaria muito de ver você abordando esse assunto, que entendo super interessante e atual. Além disso, se tiver alguma indicação bibliográfica sobre o assunto, agradeço.

Abraço

Rafael

Afinal "... Por que a Inflação não caiu com o aumento da taxa de juros? ..."

>>> Uma explicação: os tais preços administrados, correspondentes a 25% de todos os preços da economia, não deixam!!!

Leia mais: http://blogs.estadao.com.br/celso-ming/2014/03/18/por-que-a-inflacao-nao-cai/

André Azevedo, essa é a definição original de inflação. Alguns economistas usam o termo "inflação de preços" para diferenciar de inflação da base monetária. Qual definição é a que deve ser adotada, acho que depende muito da ideologia. Todavia, como o Alex comentou, se o objetivo é criar um índice de variação de preço, então não há sentido em utilizar variações na base monetária. Abraços. :)

Estranho - no mínimo... engraçado e curioso:

Enquanto em uma manchete lê-se Alimentos e transportes sobem menos e inflação avança 0,67% em abril...

... Em outra se lê justamente o oposto: Além da batata(alta no mês de 22,26%; no ano 43,50%, tiveram altas expressivas o feijão-fradinho (9,81%) e a carne seca e de sol (8,01%) e
A partir de sábado, as linhas que circulam pela capital mineira ficarão 7,5% mais caras


>>>> daqui a pouco vem o bestalhão do lula dizer qud isso é reflexo do pobre comendo mais e andando mais de ônibus por causa de trabalho que não tinham antes...

Alex,

Por que a inflação de serviços está ocorrendo? Será que estamos operando abaixo da taxa natural de desemprego?

Abs

Joe

"inflação da base monetária..."

O que é isso? Um curso do Sicsu!?

Essa coisa do IPCA subestimar a inflação: Não é bem por ai


Depende da derivada da despesa em um bem pelo preço daquele bem.

Esse esse valor é positivo, então a fração da renda gasta naquele bem aumenta e um índice de laspeyeres subestima a inflação.

Não vejo nenhum motivo sacro-santo para que o IPCA subestima a inflação.

A atrocidade nova e um "gênio " da Unicamp dizer que nao existem estáticas oficiais que comprovem que o aumento do salário mínimo diminui a lucratividade das empresas .

Seria legal colocar uns links para esse estudo, e também indicar outros links de algumas dessas estatísticas oficiais que desmentem o estudo.

No caso uma meta de inflação maior aumentaria o PIB potencial pelo aumento do investimento.

É impressionate a vocação deztepovo para fazer MERDA:


BNDES perde disputa milionária ao tentar se desfazer de frigorífico :: Frigorífico era aposta de campeão nacional

Leiam: http://www.estadao.com.br/noticias/impresso,frigorifico-era-aposta-de-campeao-nacional,1165143,0.htm



Alex,
Sei que o cenário das eleições ainda está bastante incerto, mas se você tivesse que atribuir um percentual de probabilidade aos atuais candidatos a presidência, como atribuiria?

Veja por favor o livro do Deaton, o relatório da comissão Boskin ou o resultado do C-CPI com o CPI-U americano. Esse resultado de que Laspeyres superestima a inflação segue se a função utilidade for homotética.

-A

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Essa coisa do IPCA subestimar a inflação: Não é bem por ai

Depende da derivada da despesa em um bem pelo preço daquele bem.

Esse esse valor é positivo, então a fração da renda gasta naquele bem aumenta e um índice de laspeyeres subestima a inflação.

Não vejo nenhum motivo sacro-santo para que o IPCA subestima a inflação.
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Essa coisa de inflação e base monetária ta com cara de australianismo juvenil. O que andam ensinando à essa meninada hein?