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terça-feira, 6 de fevereiro de 2018

Pelo fim da carniça

A condenação do ex-presidente Lula é, até agora, o cume de um processo doloroso, em que o país vê expostas as entranhas da corrupção numa dimensão que surpreende até os mais cínicos. Por onde se olhe não parece haver no mundo político convencional alternativa que não esteja ligada, de alguma forma, ao pervasivo fenômeno de exploração do setor público para fins de enriquecimento pessoal, ou financiamento de campanhas (a destinação dos recursos não alivia em nada a sujeira da sua origem).

Já tive oportunidade de explorar aqui as consequências nefastas da caça à renda (da qual a corrupção é a faceta mais tenebrosa) para o crescimento, tema que foi também trabalhado por Samuel Pessoa em sua última coluna com a competência habitual. Em suma, a caça à renda desvia a busca do lucro da inovação para a captura de recursos, levando ao menor crescimento e, portanto, piores condições de vida, processo detalhadamente explicado por Acemoglu e Robinson em “Por que as nações fracassam”, livro indispensável para entender o Brasil e seus dilemas.

Uma vez estabelecida a ligação entre a caça à renda e o baixo desempenho econômico, resta saber como poderíamos romper este elo e, tão importante quanto, se há alguma chance de fazê-lo.

Francamente, não vejo outro modo de acabar com isto que não passe por uma mudança radical da forma como organizamos nossa economia, em particular como o poder público intervém no domínio econômico. Está cada vez mais claro que as diversas dimensões da intervenção estatal na economia oferecem aos caçadores de renda, dentre eles os corruptos, um amplo manancial de oportunidades.

Vimos isto na Petrobras, vimos isto também na compra de medidas provisórias, na busca por desonerações tributárias, na escolha de “campeões nacionais” (JBS, por exemplo), e na enésima tentativa de ressuscitar a indústria naval, para citar, de memória, uns poucos exemplos.

A lista poderia se estender por bem mais do que os 3.200 caracteres aqui permitidos, mas apenas os casos aqui lembrados dão uma ideia, ainda que pálida, das imensas possibilidades de venda e compra de favores que a atual organização econômica do país permite.

Ocioso, no caso, discutir se a iniciativa parte dos compradores ou vendedores; o que importa é que onde há carniça, é para lá que voam os urubus. Assim, se queremos acabar com os urubus, a solução é óbvia: basta acabar com a carniça.

Metáforas de gosto duvidoso à parte (perdão, mas ando bem revoltado), não vejo saída que não passe por ampla privatização e redução drástica da intervenção estatal.

Vai acontecer? A resposta honesta é “não sei”, mas confesso aos raros leitores que não tenho muita esperança que qualquer proposta neste sentido acabe endossada pela população nas eleições. Reclama-se da corrupção, mas ninguém parece seriamente interessado em acabar com sua origem.

* * *


Márcio “Maria Antonieta” Holland ainda não entendeu que minha repugnância se limita às ideias econômicas das quais é veículo, seja na sua insistente divulgação, seja, de forma ainda mais grave, na sua aplicação sob a forma da Nova Matriz, que nos levou à pior recessão em quase 40 anos. Já sua figura pessoal é irrelevante; se me importasse com ela, provavelmente a desprezaria.



(Publicado 31/Jan/2018)

Reações:

28 comentários:

Caro Alex,

Os EUA na época dos barões ladrões deixariam os irmãos Joesley no chinelo. As negociatas que se tinham, por exemplo, entre os empresários donos das ferrovias e os políticos eram brabas: informação privilegiada, compra de leis, desapropriações duvidosas, cessão de terras públicas pra lá de camaradas e por aí vai.
Inclusive atualmente, os exércitos de lobbystas, muito bem pagos e institucionalizados, para ficarem no ouvido do congresso fazendo o toma lá. Quer um exemplo de "rent seeking" de pelo menos 1.000x o da Lava Jato? O Bail out aos bancos americanos

Mas, por que, caro revoltado, por que só no Brasil isso é a causa do atraso?

Alex, existe um meio-termo? Pergunto porque quando um candidato fala que vai privatizar, os ladrões de esquerda (que tanto roubaram essas empresas e seus fundos de pensão) criticam que a pessoa é liberal e quer "entregar de bandeja nossas grandes empresas para as multinacionais americanas". Claro que isso é uma baboseira (nada é entregue e quem está comprando o mundo são os Chineses), mas me parece que o cidadão pouco informado ou ultra-nacionalista ainda "cai" nessa história, diminuindo assim as chances de um "liberal" vencer as eleições. Acredito que o momento para uma mudança é agora, afinal o Petrolão (e Caixão, BNDESÂO etc.) demonstrou que a administração das estatais não pode ficar na mão dos políticos; mas há como blindar as grandes empresas estatais (autonomia decisória) e profissionalizar a liderança, mas continuar como acionista (tipo mudar de ações ordinárias para preferenciais), recebendo os dividendos e valorização das ações que com certeza ocorreriam? Neste cenário as empresas seriam administradas de forma profissional e correta aumentando seus lucros (all things being equal) e dos acionistas, a Petrobras (e outras) ainda "seriam nossa" removendo a argumentação dos esquerdopatas, e a interferência política seria diminuída drasticamente. Please comment.

"por que, caro revoltado, por que só no Brasil isso é a causa do atraso?"

Porque você esqueceu que lá quem faz dinheiro de verdade é quem inova; lobista fica com o o troco...

Mas coma peixe. Faz bem para a memória

"mas há como blindar as grandes empresas estatais (autonomia decisória) e profissionalizar a liderança, mas continuar como acionista (tipo mudar de ações ordinárias para preferenciais), recebendo os dividendos e valorização das ações que com certeza ocorreriam?"

Tentamos e não deu certo. Metaforicamente falando, tem gente com competência para guiar caminhão; outros vão fazer merda. Estamos na segunda categoria...

É incrível como esse pensamento simplista encontra eco nos mais incautos!
O Brasil tem um dos maiores índices de uso de agrotóxico do mundo, justamente por conta da baixa intervenção estatal, regulação frouxa. Eh um dos que gera mais complicações de saúde por consequencia do veneno.
O problema eh que ninguém enxerga um rent seeking por partre da bancada ruralista. Só acham que tem corrupção qundo há intervenção. Há uma novidade galera: tem bastante gente que ganha e muito com baixa regulação e baixa intervenção, comprando agentes públicos para não "atrapalhar". E o resultado nem sempre eh um equilíbrio ótimo

Vê-se que seu perspicaz e oportuno artigo não deixa de traduzir certa revolta contra o saque aos bens públicos, com toda razão. Mas, sabemos bem , não se trata de carniça, muito menos de abutres. Trata-se de comensais pantagruélicos antigos e contumazes, desfrutando benesses às largas, polpudos lombos, finas ambrosias, muitas e muitas vezes bem antes até de chegarem aos paiós públicos, todo tipo de malabarismos contábeis, idealizados por mestres ilustres diplomados nas artes das trapaças legais, e por aí afora. O Estado sempre foi muito mais privado do que ostenta, a faixa presidencial é simples galhardete de um poder onírico no cruel pesadelo da democracia liberal. Mas, tenha certeza, a privatização “ampla, geral e irrestrita”, que você defende, NÃO será mal vista nem malvista pelos garfos e facas prateados.

Alex,
O senhor conhece/já ouviu falar do André Roncaglia? Me passaram um texto dele. Se tiver estômago:

https://jornalggn.com.br/noticia/as-causas-da-queda-da-inflacao-o-desemprego-nao-importa-por-andre-roncaglia-de-carvalho

Alex, espero que responda algumas dúvidas:
I. Você publica vários textos fazendo críticas constantemente ao Nelson Barbosa e a Laura Carvalho, porém, por que não foca mais no seu trabalho?
II. Se você é tão bom economista assim, por que não faz um concurso para auditor da receita federal, analista da câmara federal ou conselheiro legislativo do senado federal? Será que consegues ser aprovado se tens tanto conhecimento sobre economia?

Um abraço.

O que você acha sobre o novo presidente do Banco Central norte-americano ?

Alexandre, o Eduardo Gianetti é um bom nome para o Ministério da Fazenda ou Banco Central em um eventual governo da Marina Silva ?

Alex, com esse IPCA de hoje e com essas medidas de núcleo, vai ficar difícil o BCB não reduzir mais o juro. O que acha? Bjo, Carla

Lendo o artigo concordei com o schwartzmann, mas honestamente, ao ler o comentário do primeiro anônimo não pude deixar de Ver que ele tem um ponto forte.
Mais ainda, o schwartzmann desconversou e saiu pela tangente. Talvez tenha alguém que responda
Realmente a história americana é farta em falcatrua e toma lá dá cá

“Se você é tão bom economista assim, por que não faz um concurso para auditor da receita federal, analista da câmara federal ou conselheiro legislativo do senado federal?”

Porque:

1) Não sou vagabundo;
2) Ganho muito mais;
3) Quero fazer o que gosto, o que, por óbvio, exclui as alternativas acima;
4) Deixo um lugar para vagabundos como você...

“Eduardo Gianetti é um bom nome para o Ministério da Fazenda ou Banco Central em um eventual governo da Marina Silva ?”

Segundo o próprio Edu, ele não tem perfil para este tipo de trabalho

“O que você acha sobre o novo presidente do Banco Central norte-americano?”

Neste exato momento não tenho conhecimento para achar qualquer coisa. Vamos ver como se sai para ter uma opinião

“Realmente a história americana é farta em falcatrua e toma lá dá cá”

Bilionário do Brasil: Eike Batista (ok, já não é mais)

Bilionários nos EUA: Jeff Bezos, Michael Bloomberg , Larry Page, Bill Gates

Capice?

Já fazia tempo que você não mandava ninguém comer mais peixe. Que bom que você voltou a comer.

Claro que ganha mt mais que um funcionário da receita

Ele presta serviço pros rent seekers bilionários corruptos brasileiros. Sr safra, Moreira Sales e seus pares. Como ele mesmo diz, aqui a galera que presta serviço pros rent seekers fica com o maior naco

Até pq vc acha que a reforma trabalhista, da previdência e a TLP saíram de graça? Proprio temer convocou os empresários (rent seekers) a convencer o povo da necessidade das reformas

Tudo bem, concordo com você! Só te peço pra não incluir o BND(S), que tem ajudado tantos pobres a comprar seus jatinhos executivos!

Pelo fim da carniça...
Pelo fim do JSCP
pelo fim da isenção de imposto na distribuição de dividendos
Pelo fim da concentração bancária do país
Pelo fim do maior juro de cartão de crédito do mundo
Pelo fim da isenção de imposto sobre ganhos de juros de capital estrangeiro
Pelo fim do benefício fiscal dos rendimentos de juros (15% pra juros e 27,5 % para o trabalho)
Pelo fim do benefício fiscal de ganhos com ações
Pelo fim da isenção fiscal de lci lca e debêntures de infra
Pelo fim da menor taxação sobre herança do mundo
Pelo fim dos incontáveis, benevolentes e intermináveis refis

Gosto e aprendo muito com os seus comentários,sempre enriquecidos por ilustrações pertinentes.
Mas o ponto alto,para mim, está nas respostas aos comentários provocativos.Me lembra muito as respostas dadas por um tal TAVARES do extinto Pasquim na seção "Cartas à Redação"

“Claro que ganha mt mais que um funcionário da receita”

Ah, a inveja dos boçais...

“Tudo bem, concordo com você! Só te peço pra não incluir o BND(S), que tem ajudado tantos pobres a comprar seus jatinhos executivos!”

Agora é tarde...

Mas, afinal, o que esse Anônimo de 11 de fevereiro às 9:18 tá querendo:
Obter recursos que tornem desnecessária a reforma da previdência, que vai permitir a morte dos mais velhos pobres antes que se aposentem?
E o sadismo da turma do "andar de cima" como vai continuar o "festim diabólico"?
Se a "graça" da vida nacional está justamente, há séculos", no exercício da opressão, como propor o fim dessa "bossa"?
Dis-cor-do!

Anônimo do dia 18 de fevereiro de 2018 11:17

Qual parte que os pobres já se aposentam aos 65 anos de idade você ainda não entendeu? Pesquise os dados, veja o mundo e as pessoas à sua volta. Não consegue perceber que a atual previdência privilegia quem está no topo da pirâmide funcional em detrimento dos mais pobres? Principalmente porque vai faltar dinheiro para saúde, educação e assistencialismo.

Gustavo 20 de fevereiro de 2018 09:52

A previdência dos trabalhadores urbanos é, historicamente e na média, superavitaria. A dos trabalhadores urbanos privados mais ainda.

As previdências deficitária são em proporção aproximada, as seguintes:
i. Servidores públicos militares (40%)
ii. trabalhadores rurais (40%)
iii. Servidores públicos civis (20%)

Os dois primeiros pontos não são atacados na já morta reforma.
E advinha pq? Lobby de grupos organizados.
A pergunta é: pq esse lobby nao incomoda?

Tem dondoca de 50 anos que ganha desde o primeiro dia de vida recursos do Tesouro simplesmente porque são órfãs de pais militares, e continuarão recebendo


"2) Ganho muito mais;"

Sr. Contribuinte: é por dentro ou é por fora?

"Sr. Contribuinte: é por dentro ou é por fora?"

Pergunta típica de alguém que ganha por fora...

Tudo kosher, babaca.