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quarta-feira, 8 de fevereiro de 2017

“The new macroeconomic matrix”

Da véspera da eleição norte-americana até o fim da semana passada as bolsas nos EUA subiram fortemente: 7% pelo índice S&P500 e quase 10% pelo mais tradicional índice Dow-Jones. O mercado acionário não deixou dúvida sobre sua avaliação positiva do governo Trump.

Parte da história parece decorrer da perspectiva de um pacote de estímulo fiscal, ancorado principalmente na redução de impostos (em particular os incidentes diretamente sobre as empresas). Espera-se que, em resposta a isto, a atividade ganhe fôlego adicional e que os lucros (pós-impostos) aumentem, trazendo consigo os preços das ações, que refletem exatamente as expectativas de lucros futuros, devidamente descontados à taxa de juros em vigor na economia.

Outra parte da história, assemelhada, aparenta resultar do lucro adicional esperado caso a competição das importações seja, de fato, substancialmente reduzida. O aumento da demanda interna, casado com restrições às importações, faria com que as empresas domésticas pudessem elevar suas margens, fenômeno que também colaboraria para o aumento do valor das empresas.

É claro que não houve qualquer anúncio oficial destas medidas. No entanto, considerando os acontecimentos da primeira semana de governo, entendo que levar os anúncios de campanha a sério é uma atitude bastante sensata.

Isto posto, conforme tive a oportunidade de explorar em coluna anterior, a métrica do mercado para avaliar uma política é bastante específica: ele as avalia constantemente pela ótica do preço dos ativos. Já o público as julgará por outros critérios, em particular se haverá melhora de bem-estar para a maioria dos eleitores: caso seja este o caso, as políticas (junto com o governo que as adotou) continuam; senão, não.

Minha preocupação, no caso, é com a sustentabilidade destas políticas, isto é, se poderão ser mantidas, ou se, em algum momento, será necessária uma correção. Eu me inclino para a segunda opção.

O estímulo fiscal ocorre em ambiente peculiar. A economia americana opera próxima ao pleno-emprego. A medida tradicional de desemprego aponta para uma taxa de 4,7% em dezembro do ano passado, bastante próxima da observada antes da Grande Recessão. Medidas alternativas, que levam em conta desalento e trabalho parcial, entre outros fenômenos, sugerem um pouco mais de folga no mercado de trabalho, mas não muita, e vêm em queda mais rápida do que a versão tradicional.

Sob tais circunstâncias, as pressões inflacionárias, modestas hoje, devem aumentar, levando a uma normalização mais acelerada da taxa de juros. Embora deva deixar claro que não se trata de algo necessariamente ruim neste exato momento, há riscos consideráveis caso estas políticas se cristalizem, impedindo uma reação rápida quando as circunstâncias (desemprego e inflação principalmente) mudarem.

A combinação de estímulo fiscal com protecionismo é nossa velha conhecida: mantida por muito tempo deverá elevar a inflação e, consequentemente, também os juros, valorizando o dólar face às demais moedas, por um lado, e piorando a evolução da dívida pública por outro.

São, em suma, políticas insustentáveis, como aprendemos por experiência própria, mas cujos efeitos serão sentidos em escala global. Lá, como aqui, também terão que ser corrigidas.



 Dodge this!

(Publicado 1/Fev/2017)

Reações:

19 comentários:

Interessante o artigo.

Também acredito que algumas ações de Trump na economia a longo prazo são insustentáveis, talvez se ele tivesse o carisma de seu antecessor conseguisse também o apoio das massas e das mídias.

Por que por lá eles sobem os juros para estimular a economia, ao invés de cortar?

Com todo respeito,sendo você judeu como pode ser contra alguém que defende o estado de Israel,no caso Trump?

Alex, com a credibilidade do BC, nao seria bom reduzir a meta de inflacao? Ao meu ver, é uma boa oportunidade. O que o BC atual tiver como meta, os agentes vao acreditar.

"Com todo respeito,sendo você judeu como pode ser contra alguém que defende o estado de Israel,no caso Trump?"

Permita-me invocar a lei de Godwin e reescrever a pergunta:
"Com todo respeito, sendo você um antitabagista como pode ser contra alguém que defende a proibição dos cigarros, no caso Hitler?""

Brincadeiras à parte, concordar com uma ou outra posição não quer dizer nada. Mesmo que ele seja pró-Israel, Trump propõe medidas econômicas estúpidas, além de outras barbaridades.

Alexandre,

de 2013 para 2015 a Selic praticamente dobrou, com acréscimo de 7 pontos, mas entre abril de 2013 e dezembro de 2015 o IPCA subiu mais de 22%.

Como você me explica isso?

"Por que por lá eles sobem os juros para estimular a economia, ao invés de cortar?"

Porque lá eles não fazem isto...

"Com todo respeito,sendo você judeu como pode ser contra alguém que defende o estado de Israel,no caso Trump?"

1) Defender Israel é uma coisa; defender as políticas de qualquer governo israelense, e outra;

2) Há outros que defendem Israel

3) "Defender Israel" não é salvo-conduto para fazer cagada.

4) Pensando bem, que puta pergunta burra. Você não fica com vergonha, não?

"Alex, com a credibilidade do BC, nao seria bom reduzir a meta de inflacao?"

As condições estão se alinhando para isto.

"de 2013 para 2015 a Selic praticamente dobrou, com acréscimo de 7 pontos, mas entre abril de 2013 e dezembro de 2015 o IPCA subiu mais de 22%.

Como você me explica isso?"

O número de policiais aumentou e o crime subiu. Como você me explica isso?

De acordo com o senhor, a pressão inflacionária do custo da mão obra de obra torna a política de incentivo insustentável.

Faz sentido. Porém, o que é preferível para um país: a falta de trabalhadores para uma nova fábrica da Ford ou o desalento e o subemprego causado por não haver uma nova fábrica da Ford?

Os eleitores de EUA e UK já a reponderam, quando avaliaram o bem-estar trazido pela globalização ...

Alexandre

Outra parte da historia nao poderia ser o mercado esperando desregulamentacao finaceira? Assim,as acoes das instituicoes financeiras estariam subindo e puxando o SP500

Remember, rising stock prices have been mainly Wall Street https://t.co/17poPFebsw

Hobbesianos atenção : o Espirito Santo virou um case para estudar o que é viver no estado de natureza,na barbárie. Como o estado é pequeno a intervenção externa pode resolver mas se a coisa espalhar... O Estado brasileiro inchou tanto que a única função indiscutível caiu na mediocridade geral.

"Outra parte da historia nao poderia ser o mercado esperando desregulamentacao finaceira? "

Tem razão. Ficou faltando.

"Nesses artigos, sustentou-se que, não apenas em outras economias, mas principalmente no Brasil, as autoridades monetárias têm feito uso de teorias erradas."(José Júlio Senna, sobre os artigos recentes de André Lara Resende) - http://www.valor.com.br/cultura/4864408/taxa-de-juros-e-inflacao

Um pouco exagerado, não?

Gabriel Gava

"Porque lá eles não fazem isto..."

Mas então porque sobem os juros?

Eu sou judeu enxergo em Donald Trump pontos positivos na defesa incondicional de Israel,na economia revogando o Obamacare,a lei Dod Frank.Enquanto Obama fez o contrário se aproximou do Iran,se afastou de Israel diplomaticamente e na economia aumentou a intervenção do estado.

Peço desculpas se a pergunta causou algum constrangimento.

Alexandre,

O que acha do argumento de "Balance-sheet Recession" do Richard Koo para explicar a longa recessão japonesa e Recessão Americana no passado?

Obrigada,

Laura

Alex, nao acha o copom tem condicao de reduzir 1% na proxima reuniao? Inflacao bem abaixo do esperado desde set/16, cambio bem comportado, hiato gigantesco, expectativas ancoradas igual chiclete e projeçoes de inflacao abaixo da meta em alguns modelos que tentam replicar os do BCB. Isso sem falar que o governo tem sido um trator nas reformas fiscais...

Abs, X