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terça-feira, 13 de dezembro de 2016

Desventuras em série

Esta é uma coluna chata. Há números em demasia e as conclusões são desagradáveis. Assim, raro leitor, considere-se alertado. Pode, claro, reclamar, mas não por falta de aviso...

De fato, o péssimo desempenho do produto em 2016 já começa a lançar sombras sobre 2017. Em parte isto ocorre por razões estatísticas, mas também por motivos econômicos.

A questão estatística é de fácil compreensão. Medido a preços do terceiro trimestre de 2016 e ajustado ao padrão sazonal o PIB atingiu R$ 1,577 trilhão no primeiro trimestre, R$ 1,570 trilhão no segundo e R$ 1,557 trilhão no terceiro. Assim, caso se mantenha neste valor no último trimestre, atingiria R$ 6,260 trilhões em 2016 garantindo queda de 3,4% na comparação com 2015 (R$ 6,481 trilhões).

Mantendo-se no mesmo patamar ao longo de 2017, isto é, sem queda adicional em cada trimestre, cairia para R$ 6,227 trilhão em 2017 (4 x 1,557), ou seja, redução de 0,5% (R$ 33 bilhões) no ano que vem. Posto de outra forma, o carregamento estatístico (carry-over) para 2017 já é negativo em 0,5% e deverá ficar mais negativo caso, como se espera, o PIB do quarto trimestre deste ano caia ainda mais.

Assim, para que o PIB de 2017 empatasse com o de 2016 seria necessário que observássemos a cada trimestre do ano que vem um crescimento médio na casa de 0,9% ao ano. Na mesma linha, um crescimento (modesto) de 1% em 2017 requereria que o PIB trimestral se expandisse a um ritmo médio anualizado de 2,5%, ainda mantendo a suposição (otimista) de crescimento nulo no quarto trimestre deste ano.

À luz destes números (sem, portanto, qualquer raciocínio econômico mais elaborado) é difícil escapar da conclusão que o crescimento esperado para 2017 deverá ser baixo, mesmo se a economia começar a se recuperar (do ponto de vista do produto trimestral) no começo do ano que vem. Neste sentido, inclusive, a avaliação mais relevante do desempenho da economia não é o número anual de 2017, mas como o crescimento se dará (ou não) trimestre a trimestre.

Já a análise dos dados sugere que a queda do investimento é o principal fator por trás da recessão histórica que vivemos. Exceção feita à pequena melhora no segundo trimestre deste ano, já revertida, o investimento vem em queda livre desde o terceiro trimestre de 2013, bem antes do início oficial da recessão em meados de 2014, acumulando redução pouco inferior a 30% nos últimos 3 anos.

Ao contrário do que afirmam keynesianos de quermesse, o consumo do governo tem se mantido praticamente estável, ou seja, a noção de que a recessão intensa deriva de um suposto aperto fiscal não encontra qualquer amparo na realidade, o que, vamos falar a verdade, não chega a ser exatamente uma surpresa para quem conhece os autores dessa tese.

A recuperação, portanto, depende do retorno do investimento, mais difícil em ambiente de elevada capacidade ociosa. Por um lado, requer continuidade da queda do risco-país (consequentemente das taxas de juros). Por outro, de oportunidades para investimento no setor de infraestrutura, a partir do programa de concessões.


Assim, o que nos resta é seguir em frente com as reformas. É tentador, mas falso, imaginar uma alternativa fácil para a retomada sem avançar no caminho tortuoso que, com esforço, tentamos abrir agora.

Deixaram terra arrasada...


(Publicado 7/Dez/2016)

Reações:

26 comentários:

Fico imaginando quantos anos levaremos para nos recuperar das pataquadas praticadas pelos quermesseiros...
E essa turma ainda não toma vergonha na cara e insiste na tese, ainda que cabalmente comprovada, na prática, a sua ineficácia e poder destrutivo.
Pior é que esse discurso fácil, populista, virá com tudo em 2018 (isso se esse governo durar até lá)
Pobre país, mas não dá pra colocar a culpa em outro fator que não em nós mesmos
A vida da cigarra parece sempre mais tentadora que da formiga...

O Brasil é hoje um barril de pólvora, só falta o elemento catalisador.

Alex, por acaso a conta denominada "investimentos" inclui os imoveis produzidos, inclusive os residenciais? Se, sim, a que preço? Seriam os preços malucos a que se vendia qualquer coisa movido pela facilidade de financiamento que causou a bolha nos preços dos imóveis? Se for assim, seria melhor analisar os investimentos sem isso e ver a variação, pois esse foi um processo totalmente atípico.

Hanalista1

De fato, aqui não é um bom lugar para avestruzes meterem a cabeça. Obrigado por nos manter bem informados e continue com esse blog sempre atualizado. É um serviço de utilidade pública.

"Alex, por acaso a conta denominada "investimentos" inclui os imoveis produzidos, inclusive os residenciais? Se, sim, a que preço?"

Sim, a preços de mercado, mas lembrando que há deflatores para cada categoria de demanda, ie, em tese, se bem feitos, estamos medindo volumes.

Um comentário meio off topic. Assisti ao Entre Aspas de ontem. O que é aquele tal de Pedro Paulo Zahluth Bastos? É uma anta (desculpe, antas). Também, orientado pelo Beluzo...

Alex,
leio suas colunas já há alguns anos e iniciei em 2016 minha graduação em economia. Gostaria de expressar aqui uma dúvida que vem agitando a minha mente, e peço que tenha paciência se lhe parecer uma questão frívola (porque provavelmente é), até porque este não é um ambiente apropriado para fazer o papel de principiante ingênuo. Mas sigamos avante.

Vamos chamar de C o montante total que o capitalista despende no produção das mercadorias, com a compra de insumos, força de trabalho, maquinário, energia, instalações, etc.; e de R o montante total que o capitalista conquista como receita ao lançar as mercadorias prontas em circulação (no mercado). Temos que o lucro L surge como uma diferença positiva entre R e C (L=R-C), o que significa que o capitalista foi capaz de obter um ganho com a venda de suas mercadorias num montante que excede os custos totais (consideremos uma economia sem crédito, para simplificar, inclusive, com a exclusão dos juros).

Mas isto não significa dizer que o capitalista, com a venda das mercadorias, está "tirando" do mercado mais do que aquilo que coloca nele, ao empenhar recursos na produção (no sentido de que a soma de tudo o que ele vende é maior do que a soma de tudo o que ele compra)? Não está o capitalista simplesmente vendendo as mercadorias mais caro do que custou produzi-las?

Focando-se um capitalista individual, parece fazer todo sentido. Mas, se assim for, como explicar que a maioria dos capitalistas possa estar lucrando simultaneamente em um mesmo período, como quando o ciclo de crescimento está na fase ascendente e a economia, em constante expansão? Como poderia a maioria dos capitalistas estar obtendo conjuntamente do mercado uma soma de recursos superior ao montante total que colocam nele, ao comprarem os fatores produção? Como poderia o total dos lucros exceder o total dos prejuízos, possibilitando o crescimento e ampliação do mercado? Enfim, como a soma de tudo o que os capitalistas vendem no mercado pode ser maior do que tudo o que nele compram, empenhando na produção o montante C de recursos e extraindo do mercado um montante maior, C+L?

Não consigo conceber, como suposta alternativa a este aparente impasse lógico, que o mercado opere como um jogo de soma zero, em que os lucros de um capitalista se explicam pelas perdas de outro(s), o que tornaria o lucro algo impossível de ser obtido pela maioria deles. Porque, tal como numa mesa de poker (para fazer uso de uma rudimentar analogia), onde o princípio dos ganhos é o mesmo que este e, consequentemente, o total de fichas não é aumentado, o mercado, da mesma forma, não poderia crescer. Ou seja, este processo de obtenção de lucros "de soma agregada zero" significaria apenas a distribuição da riqueza entre os capitalistas mais eficientes, sem permitir o crescimento agregado da riqueza. De maneira idêntica, se um grupo de pessoas realiza transações entre si, cada qual comprando de outra um objeto qualquer por X e, após modificá-lo de alguma forma, vendendo-o para outra pessoa por X+n, não existe possibilidade de a riqueza global crescer.

Faço estas perguntas porque, lendo O Capital, percebi que este é o chamariz que Marx utiliza para introduzir sua visão de que o lucro não se origina do mercado (por uma relação entre oferta e demanda), mas do próprio processo produtivo, donde conclui que um dos fatores de produção (notoriamente a força de trabalho) está sendo remunerada num montante inferior àquele com que contribui para o produto final - sendo esta a diferença que ele conhecidamente identifica como o lucro do capitalista.

"A recuperação, portanto, depende do retorno do investimento, mais difícil em ambiente de elevada capacidade ociosa"

Sem dúvida não há como manter um crescimento continuado sem aumento nos investimentos, mas isso é necessário para o início da recuperação (2017 e 2018)? Exatamente porque a capacidade ociosa é grande, a volta do PIB aos níveis de 2014 não seria possível com a reativação de fábricas fechadas ou de jornadas de 2 turnos voltando a 3 turnos? Realmente, não vejo como as empresas que estão tão abaixo de sua capacidade de produção iriam aumentar investimento. Melhor usar a geração de caixa para reduzir o endividamento.

Agora, quem souber como desatar esse nó (dispensa trabalhadores porque vende menos e vende menos porque dispensa trabalhadores) é candidato ao Nobel.

Sobre o programa Entre Aspas. Como pode o professor José Márcio ter estômago para tentar argumentar com aquele monumento da burrice nacional ?

Alex, se me permite tentar defender os indefensaveis, acho que o ponto heterodoxo de forma geral não é que a crise seja resultado da compressao do gasto publico, mas que a saida da crise depende de um gasto publico crescente, que não tem ocorrido, pelo menos nao na magnitude necessaria.

Alexandre, a recuperaçao nao vira da forma como voce imagina, peo me os nao inicialmente. Nao faz sentido o investimento ser o motor da recuperacao numa economia com capacidade ociosa. Essa capacidade tera que ser utilizada por um bom tempo ate o investimento aumentar. Portanto, a esperança é o consumo das familias, o unico que tem peso suficiente para governar uma reversao. Um abraço, ML

Armínio,

Não sei o que o Alex acha da tese do Knight no livro "risco, incerteza e lucro". Mas lá esse tema é tratado com detalhe, inclusive a distinção entre uma probabilidade calculável como no seu exemplo do jogo de poker e a pura incerteza (qual será a inflação acumulada até 2021?). Ele associa o lucro (ou prejuízo) à uma espécie de rendimento do empresário, que antes de tudo é um apostador num tipo de jogo em que mesmo as probabilidades são desconhecidas.

Alexandre,

Como você avalia aquela elevação nos niveis de confiança e, agora, uma nova queda?

Laura

Alex, acha que é papel do bndes fazer política anti-ciclica? sinceramente eu achei pésssima a ideia hoje anunciada pelo governo. Vejo o bndes como parte da política monetaria e expandi-lo somente retarda o ajuste. E pior, favorece um conjunto restrito de empresas e nao todo o universo. Preferiria o contrafactual em que o bndes não fosse agora acionado e a selic cairia mais. E vc? Abs ML

"acho que o ponto heterodoxo de forma geral não é que a crise seja resultado da compressao do gasto publico, mas que a saida da crise depende de um gasto publico crescente"

1) A maioria ainda atribui a queda à política fiscal do Joaquim
2) A crença que o gasto público a esta altura do campeonato teria efeitos positivos sobre a atividade ignora a resposta das taxas de juros. O paralelo que fazem é com o países que estão com juro ao redor de zero, em que a política fiscal teria, a priori, potência máxima, mas algo me diz que não estamos com o juro a zero no Brasil

"Como você avalia aquela elevação nos niveis de confiança e, agora, uma nova queda?"

Eu não sou muito fã destes indicadores. Acho que são mais reflexo que causa, mas nunca investiguei muito a fundo.

"Alex, acha que é papel do bndes fazer política anti-ciclica? sinceramente eu achei pésssima a ideia hoje anunciada pelo governo. Vejo o bndes como parte da política monetaria e expandi-lo somente retarda o ajuste. E pior, favorece um conjunto restrito de empresas e nao todo o universo. Preferiria o contrafactual em que o bndes não fosse agora acionado e a selic cairia mais. E vc?

100% de acordo. (Só noto que o papel do BNDES na proposta de ontem é miúdo).

Ponto, bacana, Alexandre: "Eu não sou muito fã destes indicadores. Acho que são mais reflexo que causa, mas nunca investiguei muito a fundo."

Estou no 6 periodo de Economia. Pode desenvolver melhor esse argumento? Expectativas não seria fundamentais? Esses indices refletem isso, não? Pq a pesquisa FOCUS serve como referência, então?

Alex, alguns quermesseiros realmente falavam da queda do gasto, bem como alguns nao quermesseiros falavam que a confiança seria a salvaçao da lavoura. A questao nao é essa, mas sim o que realmente faz sentido. Do lado quermesseiro, o argumento sempre foi duplo: 1- cortar investimento publico, de maior efeito multiplicador, gera cagada macro (que realmente ocorreu), 2- que nao aumentar gasto apenas retardara a recuperacao. Voce tem que admitir quefaz sentido, talvez ate mais do que ficar falando que o premio de risco tem efeito maior na atividade que o gasto publico. Se acha isso, mostra.

Alex,

algo que me preocupa é como o cenário político de 2018 pode acabar com qualquer chance de recuperação.
Temos essa recessão que ainda não acabou, e perspectiva tímida de crescimento para 2017. O problema é que, se não tivermos recuperação razoável em 2017, teremos o governo tão impopular quanto agora (se não mais), e o cenário de um salvador da pátria em 2018, muito provavelmente prometendo milagres. E isso vai realimentar a não-recuperação.

Alex, pq a inflacao de serviços é tao insensivel?

Olá Alexandre, desculpe a ignorância mas eu não entendi como você chegou nos números do parágrafo " Assim, para que o PIB de 2017...no quarto trimestre deste ano. Você poderia explicar brevemente? Abs

O PIB de 2017 é a média dos 4 trimestres. Assim o crescimento no ano que vem será a média dos 4 trimestres de 2017 sobre o mesmo período de 2016. Caso o PIB do quarto tri caia 0,5% e fique parado em 2017 no mesmo nível, a média de 2017 ficaria 0,9% abaixo da média de 2016, ie, o "carry-over" seria 0,9%.

Assim, para fazer a média de 2017 empatar com a média de 2016 seria necessário que, trimestre a trimestre, o PIB crescesse a cerca de 1% aa.

Ficou claro?

O que você acha do Instituto Mises e da Escola Austriaca ? Tem coisas boas ?

Ficou sim. Muito obrigado!

É que eu achei que você estava assumindo que o PIB do quarto tri de 2016 ficaria igual ao do terceiro tri do mesmo ano, como você fez no parágrafo anterior, ai fiquei confuso.

Parabéns por esse belo trabalho de ajudar a nós economistas e leigos também a entendermos melhor as questões econômicas do Brasil e do mundo. Abs


"Alex, se me permite tentar defender os indefensaveis, acho que o ponto heterodoxo de forma geral não é que a crise seja resultado da compressao do gasto publico, mas que a saida da crise depende de um gasto publico crescente, que não tem ocorrido, pelo menos nao na magnitude necessaria. "

Esse é a única receita que os quermesseiros tem : aumentar o gasto público, independente do diagnóstico. No caso atual estamos no caminho grego, não é possível gastar mais sem ter a percepção de risco de calote!

JAL