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quarta-feira, 3 de outubro de 2012

O porquê do PIB-piada


Quando se analisa o conjunto de medidas de política econômica adotadas – de forma algo desconjuntada, diga-se – com o objetivo de acelerar o crescimento, é difícil deixar de notar que este parte da premissa que o crescimento baixo resulta da fraqueza da demanda; portanto, segue o raciocínio, estímulos à demanda farão a economia recuperar o viço perdido.

Este diagnóstico não difere do que embasou as medidas adotadas no período que se seguiu à crise de 2008-09, embora os resultados não possam ser mais distintos: à época o Brasil voltou a crescer aceleradamente passados dois trimestres; hoje observamos dois anos de crescimento medíocre.

O insucesso desta combinação de políticas hoje, à luz do êxito de quatro anos atrás requer uma explicação e acredito que esteja relacionada a limites associados ao lado da oferta da economia, isto é, à nossa capacidade de produção.

Em 2008-09 a crise gerou uma elevação substancial da ociosidade na economia. O nível de utilização de capacidade instalada (NUCI) na indústria despencou (de 83% para 78%), enquanto o desemprego aumentou, ainda que de forma mais moderada, de 7,3% para 8,6%. Sob estas circunstâncias, políticas de encorajamento da demanda são geralmente adequadas, sem entrar no mérito da combinação ideal entre investimento e consumo.

Tais condições, contudo, não são válidas nos período mais recente. Em que pese certa redução do NUCI, não se pode afirmar categoricamente que a economia hoje opere com uma folga extraordinária. Em particular, a evolução do mercado de trabalho sugere precisamente o oposto: a taxa de desemprego está nos menores níveis já registrados pela nova série (desde 2002, é bom reconhecer), apesar do aumento da proporção de pessoas em idade ativa (PIA) que se mostram dispostas a participar desse mercado.

A partir de 2004, quando o Brasil superou as dificuldades associadas à transição política, o crescimento do emprego tem superado sistematicamente o crescimento da PIA, que, aliás, desacelerou um tanto desde então, de patamares entre 1,5% e 2% ao ano para algo como 1% a 1,5% ao ano. Assim a taxa de ocupação (a proporção dos empregados na PIA) se encontra hoje nos maiores valores já observados, em torno de 54%.

De fato, o aumento do PIB nos últimos anos tem se caracterizado mais pela incorporação de trabalhadores ao processo produtivo do que pelo aumento do produto por trabalhador. As estimativas não são as mais confiáveis, é bom que se diga, em face dos grandes choques a que a economia foi submetida nos últimos anos, mas os números indicam que o crescimento da produtividade (ou, melhor dito, sua tendência de longo prazo) tem se mantido na casa de 1,5% ao ano. Já a ocupação cresceu ao redor de 2,5% ao ano, valores consistentes com um crescimento do PIB na faixa dos 4% ao ano.

Não é preciso, pois, muita imaginação para enxergar os limites desta estratégia: ela funciona enquanto o desemprego for relativamente elevado, ou seja, enquanto a mão-de-obra for abundante e puder ser incorporada ao processo produtivo sem grandes aumentos salariais. Quando, ao contrário, reduz-se o contingente de trabalhadores disponíveis o ritmo de expansão convergirá necessariamente para o ritmo de aumento da PIA acrescido do crescimento do produto por trabalhador.

Não estamos ainda neste estágio, mas estamos bem mais próximos dele do que há poucos anos. Vale dizer, nossa capacidade de crescimento é menor do que era entre, digamos, 2004 e 2010. Por outro lado, o governo – seja por suas afirmações, seja, principalmente, por suas ações – parece convencido que o crescimento daqueles anos é novo marco de referência da economia, daí sua insistência nos estímulos ao consumo. E, por conta disso, enquanto não mudar seu foco para uma agenda voltada à produtividade, sofrerá afrontas constantes, como o PIB-piada de 2012.



(Publicado 3/out/2012)

Reações:

27 comentários:

A demanda agregada está para os keynesianos assim como o complexo de édipo está para os freudianos...

Impressionante como o governo joga para a platéia desprezando a parcela da população que consegue ver causa e efeito....

Alex,

No caso atual dos EUA, você concorda que o desempenho decepcionante da economia se deva a fraca demanda?

Abraços

eh tudo culpa do cambio, da tsunami monetararia, do imperialismo monetario...nao querem que os paises pobres prosperem...bla, bla, bla

enquanto la temos QE aqui parece que nos falta IQ.

"A demanda agregada está para os keynesianos assim como o complexo de édipo está para os freudianos..."

E as condicoes de oferta estao para os neoclassicos tambem da mesma forma...

Realmente, a gente alcancou o pleno emprego e, nesse momento, qualquer impulso de demanda se transforma em mais inflacao ou vaza para o exterior... Eh por isso que estamos vendo inflacao em saldo comercial em franca deterioracao... Fala serio!

Aluno da USP, o carrasco do Careca!

Eu não sei do que mais eles precisam para perceber que a demanda não é o problema, fora esses dados ainda há o crescente endividamento das famílias, inadimplência quase batendo recorde e inflação acima da meta e subindo.

Alex, uma curiosidade, a previsão do ministério da fazenda de que a diminuição do custo da energia levará a uma queda de 0,5% do ipca lhe parece razoável ?

Abraço

"Eh por isso que estamos vendo inflacao em saldo comercial em franca deterioracao... Fala serio!"

Hãããã... A inflação está acelerando e o saldo comercial está se reduzindo. Exatamente o que se espera quando o mercado de trabalho se torna um binding constraint...

"o carrasco do Careca"

In your dreams...

Outro dia, ouvi o Mendonça de Barros na Band News afirmar que o crescimento do Brasil não atingia os niveis da China, por exemplo, porque o brasileiro, por uma questão cultural, é mais consumidor que poupador e, além disso, não aceitaria o regime de trabalho do chinês nem conseguiria ter a mesma produtividade. Seria um 'constraint' cultural. O que acha disso?

Meus caros,
Só um rápido comentário sobre a pergunta do anônimo sobre a China. Esta pergunta é excelente para ilustrar um ponto que muita gente não entende, um certo desconforto que os economistas têm para falar de questões culturais. Muita gente de fora vê isto e diz que os economistas são tapados, não levam em consideração questões culturais, etc. Não é verdade, cultura, é claro, importa. Mas as explicações tem que ser consistentes. Quando alguém diz que determinadas diferenças se referem a questões culturais, o que ele está afirmando é que não tem a mínima noção porque estas diferenças existem. Mais, se são questões culturais, o que o governo (ou outro agente) pode fazer para enfrentá-las? Nada, não é mesmo? Assim, uma resposta que parece instigante na verdade é o contrário, é boba e sem importância.
Saudações

Realmente os novo clássicos têm essa mania de restrição...imagine vc! Restrição na economia, onde nada é escasso. São uns lunáticos, por isso gosto dos keynesianos inflacionistas.

"Realmente os novo clássicos têm essa mania de restrição...imagine vc! Restrição na economia, onde nada é escasso."

Tente pensar, como quem não quer nada, sobre a possibilidade da oferta de trabalho e capital serem endógenas... E aí como fica a restrição de oferta? Só pensando, nada além disso. Não precisa sequer me responder agora... Apenas pense e tente reconstruir as verdades que dominam sua mente...

"Hãããã... A inflação está acelerando e o saldo comercial está se reduzindo. Exatamente o que se espera quando o mercado de trabalho se torna um binding constraint...".

A inflação, por exemplo, rodando há algum tempo na casa dos 5% está em franca deterioração... Nossa, acho que vou comprar dólar...

"Tente pensar, como quem não quer nada, sobre a possibilidade da oferta de trabalho e capital serem endógenas... E aí como fica a restrição de oferta?"

Ah, quer dizer que "endógena" virou sinônimo de não-restrita? Ah, como é fácil o mundo sem restrições. A população cresce quando o salário aumenta (no mesmo ano, espero); a mão-de-obra se qualifica e o investimento produz tudo na mesma hora (e a produtividade marginal do capital é infinita). Isso, vá pensando assim...

"A inflação, por exemplo, rodando há algum tempo na casa dos 5% está em franca deterioração... Nossa, acho que vou comprar dólar..."

Não seja burro: o dólar é controlado (um dos motivos pelos quais a inflação está acima da meta); já quem comprou inflação implícita quando eu falei...

"Apenas pense e tente reconstruir as verdades que dominam sua mente..."

Meu caro, terei que pensar muito para que minha mente seja dominada por ideias comprovadamente equivocadas, já vc...vc é o cara da endogenia!

"Ah, quer dizer que "endógena" virou sinônimo de não-restrita? Ah, como é fácil o mundo sem restrições. A população cresce quando o salário aumenta (no mesmo ano, espero); a mão-de-obra se qualifica e o investimento produz tudo na mesma hora (e a produtividade marginal do capital é infinita). Isso, vá pensando assim..."

Não banalize!

A população obviamente não cresce devido ao aumento de salário. O argumento da endogeneidade da oferta de trabalho ocorre através de uma série de processos como a variação do tamanho do setor informal, dos níveis de desemprego disfarçado, das mudanças na taxa de participação de diferentes grupos sociais e das migrações internas e internacionais. Ademais, a própria necessidade de mão de obra é em parte reduzida pelo crescimento da produtividade que é vista como parcialmente endógena e função da própria acumulação de capital, devido a economias de aprendizado, progresso técnico incorporado nos bens de capital e retornos crescentes de escala (externos e internos ás firmas).

JPK

A inflação não sai da casa de de 5% e estamos operando a pleno emprego.

Isso aí Alexandre, vc vai longe assim...

"Não banalize!"

Com comentários como os seus fica difícil...

"O argumento da endogeneidade da oferta de trabalho ocorre através de uma série de processos como a variação do tamanho do setor informal, dos níveis de desemprego disfarçado, das mudanças na taxa de participação de diferentes grupos sociais e das migrações internas e internacionais"

Blá blá blá (migração? kkkkk)

"Ademais, a própria necessidade de mão de obra é em parte reduzida pelo crescimento da produtividade que é vista como parcialmente endógena"

Crescimento da produtividade? Em que planeta você vive? Deve ser num planeta em que não há escassez. Tudo se resolve com migração, ganhos de escala e " produtividade que é vista como parcialmente endógena"

"A inflação não sai da casa de de 5% e estamos operando a pleno emprego.

Isso aí Alexandre, vc vai longe assim..."

Você deve ser um daqueles que dizia, no começo do ano, que a inflação iria convergir para a meta. Agora vem com a história que "a inflação não sai da casa de de 5%". Mas vai sair, não se preocupe. Aliás, só não saiu ainda por:

1) mudança do peso do IPCA: impacto em torno de 60 bps

2) corte de IPI de veículos: impacto ao redor de 20 bps

3) Atraso no preço da gasolina: 25 bps só na compensação da CIDE (tem mais um tanto que ainda estão represando)

Sem estes artifícios já estaria rodando acima de 6%. Só não vê quem não quer, ou não sabe fazer conta.

Meus caros,
Já foi comentado e re-comentado, me desculpem, mas até agora não consegui parar de rir:

"Tente pensar, como quem não quer nada, sobre a possibilidade da oferta de trabalho e capital serem endógenas... E aí como fica a restrição de oferta? Só pensando, nada além disso. Não precisa sequer me responder agora... Apenas pense e tente reconstruir as verdades que dominam sua mente..."

Depois até melhorou (o nível da piada, não o nível dos conhecimentos) com as outras variáveis endógenas (que seriam endógenas, sim, mas o comentarista não sabe o que é isto).
Este blog as vezes é divertidíssimo!!!!
Saudações
PS: E a Africa, hein? Era fácil (E AUTOMÁTICO) chegar nos níveis de TFP, relação capital/trabalho, nível de K humano, etc das economias centrais (É TUDO ENDÓGENO, SEUS ESTÚPIDOS!!!!). O que os caras estão querendo?

"Blá blá blá"

Vamos lá consultar os dados, Alexandre?

Os dados recém divulfados da PNAD mostram que não estamos tão no pleno emprego quanto vce quer que estejamos. Porque se basear na PME apenas?

Sabe me dizer como estão os fluxos migratórios de cidades com taxas mais elevadas de desemprego em direção às mais empregadoreas? Hein? Hein?

Já se perguntopu porque a taxa de desemprego nunca chega a zero? Justamente pois mecanismos endógenos como os citado não permitem que tal movimento aconteça... A oferta de trabalho responde às condições da economia...

"Já se perguntopu porque a taxa de desemprego nunca chega a zero? Justamente pois mecanismos endógenos como os citado não permitem que tal movimento aconteça... A oferta de trabalho responde às condições da economia..."

Quáquaáquáquáquá...

Diz aí meninão: o que tem que acontecer com os salários para a quantidade ofertada de trabalho aumentar? Depois se pergunte o que ocorre com a inflação. Aí, se não tiver perdido os dois neurônios ainda se pergunte por que será que o desemprego não chega a zero...

Deve ser por conta da migração de Campinas para S. Paulo... Francamente...

Fiz aqui um grafico do IPCA acumulado nos ultimos 12 meses e nao vejo a inflacao acelerando Alexandre. Porque?

Existe relação entre inflação e produtividade por trabalhador?

"Fiz aqui um grafico do IPCA acumulado nos ultimos 12 meses e nao vejo a inflacao acelerando Alexandre. Porque?"

Você queria dizer "Por que"?

Deve ser porque está sem óculos: a inflação caiu a 4,9% em junho (quando não faltou valente - anônimo, é claro - aqui dizendo que a inflação ia ficar na meta e que eu - que previa "inflação entre 5 e 5,5%, mais perto de 5,5% do que 5%" - estava errado) e está a 5,3% e a caminho de 5,5% este ano.

Eu me perguntava se keynesiano era mal intencionado ou limitado... Dizer que nao percebeu a inflação acelerando apesar das manobras do governo é muita cegueira! Até o modo de cálculo foi modificado...

3 de outubro de 2011 20:34 Reply
Nem O (6.5%) nem Tombini (4.5%)

Fico com a meta 'implicita' de 5.5% que parece ser o objetivo do nosso amigo Mantega, o principal policy maker..


The Anchor

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Pedra cantada há muito tempo...

Mauro Halpern (03/10/2012 às 19:02),
Talvez por ser leigo eu tenha tido dificuldade de entender o que você disse. Ou pode ser só uma falha natural minha de compreensão. De todo modo frase sem sentido ou com sentido eu achei melhor parodiá-la e dizer:
“Impressionante como parcela da população que consegue ver causa e efeito depreza o governo que joga para a platéia”.
Segundo Montaigne, o problema da mentira é que o seu oposto não é necessariamente a verdade.
Não custa, entretanto, tentar.
Clever Mendes de Oliveira
BH, 09/10/2012

Anônimo (04/10/2012 às 00:15),
Vocês que têm um pouco mais de conhecimento técnico das Ciências Econômicas devem atentar mais pelo que escrevem para não deixar o leigo muito perdido.
Segundo você:
"Eu não sei do que mais eles precisam para perceber que a demanda não é o problema".
E em seguida você diz para reforçar a idéia de que a demanda vai bem:
"há o crescente endividamento das famílias",
Ora o crescente endividamento não cria restrição na demanda?
E você insiste em apontar outros fatores que contribuem para garantir a demanda. Primeiro você diz:
"inadimplência quase batendo recorde"
De novo, eu pergunto, isso não cria restrição na demanda?
E você ainda apresenta mais um fator para garantir a demanda e diz:
"inflação acima da meta e subindo".
Epa! Não diziam, pelo menos eu creio já ter lido em algum texto antigo dessas séries sobre economistas que a Abril lançou, que a inflação reduz a demanda, funcionando como uma espécie de poupança forçada?
Enfim, o blog é de economista e grande parte dos comentaristas tem condições de entender qualquer paradoxo da Teoria Econômica, mas não custa nada deixar as idéias mais claras para não induzir o leigo ao erro.
Clever Mendes de Oliveira
BH, 10/10/2012