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domingo, 31 de janeiro de 2010

A estratégia da boçalidade, via Professor Oreiro

Aparentemente, eu não considerei a hipótese que a defesa do Professor Oreiro seria fingir-se de boçal. Vejamos alguns trechos:

“Eu não imaginava que existem autores ortodoxos (um auto-intitulado “tio O”) que acreditam que para desvalorizar a taxa de câmbio deve-se fazer justamente o contrário do que é defendido por Fragelli e Cavalcanti, ou seja, deve-se reduzir (isso mesmo reduzir !!!) a taxa de poupança.”

Errado, fessô. Aumentar a taxa de poupança sem ambiguidade alguma deprecia o câmbio real em impacto e diga-se de passagem, meu post deixa bem claro que é isso que eu acredito que acontece. Digo mais, eu concordo 100% com os professores da EPGE que políticas que aumentam a poupança doméstica depreciam o câmbio real e deveriam ser adotadas no Brasil hoje.

Mas o Professor Oreiro não se satisfaz tentando rebater meu comentário representando minhas ideias erradamente, ele parece sentir uma necessidade desesperada de se humilhar publicamente mostrando sua falta de conhecimento de economia internacional.

Vejamos:

“Como corolário direto dessa argumentação segue-se que, no longo-prazo, os países que pouparem mais (como a China) terão uma taxa de câmbio mais apreciada e, portanto, serão menos competitivos no cenário internacional !!!!! “


Siiiiim, dotô!!! Se você passasse menos tempo [censurado] e mais tempo estudando, saberia que existe uma longa literatura mostrando a existência de uma correlação positiva entre a posição de ativos líquidos e a taxa real de câmbio (exemplo: Philip R. Lane & Gian Maria Milesi-Ferretti, 2004. "The Transfer Problem Revisited: Net Foreign Assets and Real Exchange Rates," The Review of Economics and Statistics, MIT Press, vol. 86(4), pages 841-857, 02. LINK ).

Ou então conheceria vários artigos estimando a taxa real de câmbio de equilíbrio que usam a posição externa líquida como um dos regressores e mostram que países que acumulam ativos externos líquidos de fato têm uma apreciação da taxa de câmbio no longo prazo.

Mas o mico do professor Oreiro é mais cabeludo ainda... Como membro da Associação Keynesiana Brasileira, seria esperado que ele conhecesse Keynes pelo menos! Aparentemente o bom professor também desconhece o problema da transferência em Keynes, que afinal, tem a mesma intuição econômica que a relação entre posição externa líquida e taxas de câmbio de equilíbrio.

“Creio que é auto-evidente para o leitor que o raciocínio acima envolve um claro reductio ad absurdum, pois nesse caso os países asiáticos, que possuem elevadissimas taxas de poupança doméstica, deveriam apresentar um câmbio apreciado e reduzidos superávits comerciais”

Aqui, o Professor Oreiro se finge de boçal. A redução dos superávits comerciais aconteceria na medida que a conta de renda desses países gerem elevados superávits. Ou o professor tem alguma dúvida que a taxa de câmbio de equilíbrio da China se apreciou nos últimos 5 anos?

“(aliás sugiro que o “Tio O” apresente alguma evidência empírica de que elevadas taxas de poupança doméstica estão correlacionadas, no longo-prazo, com taxas reais de câmbio apreciadas).”

Existe evidência – e qualquer economista com treinamento básico em economia internacional sabe disso! – que existe correlação no longo prazo entre posição de ativos externos líquidos e taxas reais de câmbio.

Então professor, a pergunta continua: está fingindo que não sabe a literatura ou vai admitir que você é café-com-leite?

“Esqueçam essa baboseira de relação positiva entre câmbio real e poupança, pois é auto-evidente (com base nos modelos inter-temporais) que a relação é negativa, ou seja, para se obter um câmbio depreciado deve-se reduzir a taxa de poupança.”

No longo prazo, sim.

Reduzindo-se ao absurdo, um país que não poupe nada, vai perder seu estoque de capital, ser mais pobre no futuro, ter menor demanda por seus bens comercializáveis, e ser infinitamente mais competitivo porque seus trabalhadores aceitarão trabalhar por salários ínfimos.

Por outro lado, um país que poupe muito, ao ponto de gerar grandes superávits comerciais, vai se tornar mais rico, vai ter uma posição externa líquida mais positiva e se tornar menos competitivo no comércio de bens.

Acho que é meio óbvio qual país nós deveríamos querer deixar para nossos filhos.

Mais uma escorregada do Professor Oreiro?

Em seus comentários ao artigo do Pedro Ferreira e Renato Fragelli da EPGE no Valor Econômico, o professor Oreiro cometeu uma pequea atrocidade em seu blog que merece ser comentada aqui.

Nas palavras dele:

"... um aumento da taxa de poupança – sem mudanças no modus operandi da política cambial, irá apenas aumentar o tamanho do desalinhamento cambial ao desvalorizar a taxa real de câmbio de equilíbrio, sem ter um efeito perceptível sobre a taxa real de câmbio de mercado."


Vamos por partes. Primeiro, a afirmação que um aumento da taxa de poupança teria o efeito na taxa de câmbio no curto prazo (o que ele chama de 'taxa de mercado') é um resultado bem conhecido, mas vou apresentar aqui. Um aumento na taxa de poupança brasileira muda a composição da demanda global e tem como efeito imediato uma redução relativa na demanda por nossos bens não comercializáveis. Portanto, no curto prazo enquanto não há mudança na capacidade produtiva da economia, o aumento na taxa de poupança tem o efeito de engendrar uma queda no preço relativo dos nossos bens não comercializáveis, isto e, uma depreciação real do câmbio (aumento da competitividade de nossas exportações). O professor argumenta que o efeito não seria perceptível, o que é uma questão empírica na qual eu discordo mas, até aqui, podemos concordar em discordar.

Mas na segunda parte está a batatalhada. Vejamos... Segundo o professor, um aumento da taxa de poupança depreciaria a taxa de câmbio de equilíbrio. Isto é falso, o efeito de um aumento da taxa de poupança sobre a taxa real de câmbio no longo prazo é exatamente o oposto do que o professor propõe, e vou demonstrar.

Para entender o mecanismo econômico, precisamos explorar a conexão entre o curto e o longo prazo no equilíbrio externo: a dinâmica da acumulação de ativos. Um aumento duradouro da taxa de poupança que não seja acompanhado de um aumento da mesma magnitude na taxa de investimento tem como consequência uma melhora cumulativa na posição externa líquida do país (isto é, nossa dívida vai diminuir ou vamos acumular mais ativos externos, por exemplo, reservas internacionais ou investimento de portfólio ou direto no exterior).

A acumulação de ativos externos líquidos naturalmente tem o efeito - não ambíguo - de melhorar o balanço da conta de renda no balanço de pagamentos tanto durante a transição como no longo prazo. Com uma renda de ativos externos maior (ou serviço de dívida menor), temos uma expansão de nossas possibilidades de consumo de bens comercializáveis, isto é, podemos ter um balanço comercial menor, e portanto o mecanismo de preços implica um câmbio mais apreciado no longo prazo.

Em resumo, se o câmbio está desalinhado hoje - e muito bem pode estar! - políticas públicas que aumentam a taxa de poupança, ao contrário do que diz o professor, reduzem esse desalinhamento por dois efeitos: no curto prazo, depreciam o câmbio real, e no longo prazo, apreciam-no.

Pergunto-me agora qual vai ser a desculpa do professor: vai me acusar de ser anônimo? Vai alegar ser café-com-leite ("apenas um simples post de blog, escrito em apenas 2 horas, por alguém que não é especialista...")? E agora, sagaz professor?

P.S. Uma pergunta que não se cala: será que o ilustre Professor Gala da EESP estava sendo sincero quando disse que concordava "couldn’t agree more!!!" nos comentários do blog do Oreiro ou será que ele reconheceu a falha do raciocínio econômico do colega e estava sendo sarcástico? O que vocês acham?

P.S.2 Essa não foi a única e nem a pior bobagem que o professor proferiu em seu post, aposto que os leitores mais atentos deste blog podem identificar outras!

sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

Para pensar

Estava atualizando meus dados de taxa real de câmbio (contra o dólar) e montei o seguinte gráfico mostrando a evolução do real (BRL) e do peso argentino contra o dólar. Como os dados oficiais de inflação argentina subestimam a inflação verdadeira, usei também a medida de inflação da consultoria Buenos Aires City. A inflação americana é medida pelo PPI cheio (que captura melhor os preços de bens comercializáveis). Os resultados aparecem no gráfico abaixo.


O curioso é a semelhança no comportamento da taxa real de câmbio até o choque do terceiro trimestre de 2008, bem como o retorno das taxas de câmbio a aproximadamente os mesmos níveis após a superação da fase mais aguda da crise. Só não é mais curioso para quem se recorda que os termos de troca de ambos os países refletem de perto o comportamento de preço de commodities (Argentina um pouco mais sensível a petróleo, Brasil um pouco mais a minérios/metais, e ambos muito expostos às "soft commodities").

Conclui-se disto que:

(1) A política de manutenção de uma taxa de câmbio supostamente subvalorizada ("competitiva") na Argentina não resistiu à aceleração da inflação (provavelmente porque a política monetária que apoiou a intervenção não-esterilizada não foi a adequada à manutenção de inflação sob controle);

(2) Quando a crise adveio, e a taxa nominal de câmbio se depreciou no Brasil, mas não na Argentina, o ajuste do câmbio real foi mais intenso no Brasil. Isto parece decorrer de preços de bens e serviços serem mais vagarosos para se ajustar do que a taxa de câmbio (como dizia Friedman, a vantagem do câmbio flutuante é que apenas um preço precisa se ajustar). É possível que a saída mais rápida da crise no caso brasileiro esteja, ao menos em parte, associada à reação da taxa real de câmbio no pior momento da crise, mitigando o efeito sobre a economia doméstica;

(3) Assim, o ajuste do câmbio real na Argentina implicou desaceleração mais forte da inflação lá, já que o repasse de preços internacionais não foi mediado pela taxa nominal de câmbio.


Trata-se obviamente de um caso particular, não de um estudo econométrico de larga escala, embora as semelhanças entre os dois países (exportadores de commodities, com taxas de poupança relativamente reduzidas) deem mais peso à conclusão. Este resultado sugere que a estratégia de manter taxas desvalorizadas de câmbio em ambientes de baixa poupança (e choques positivos de termos de troca) não funciona tão bem como nossos quermesseiros insistem. As taxas nominais podem até se manter, mas esta combinação de política monetária e cambial não consegue manter a inflação sob controle para que a desvalorização nominal se torne desvalorização real.

Se tiver tempo estendo isto para outros países da região.

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

Aritmética malvada

A renda per capita PPP do Brasil hoje (2009) é 22.5% da renda per capita PPP dos Estados Unidos. Para o Chile, a fração é 30.7%. Se continuarmos crescendo a 3.5% ao ano, com um crescimento populacional de uns 1%, nossa renda per capita vai crescer a 2.5% ao ano. Se os EUA crescerem a 1.5% ao ano, nós só vamos alcançar a posição relativa do Chile hoje em 2039.

segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

Sugestão de leitura: Persistência de inflação

Se eu fosse um professor de curso de pós-graduação e um estudante me indagasse sobre alguma referência sobre persistência de inflação, eu recomendaria que começasse com o novo Working Paper do Mr. Inflation Persistence, o economista Jeffrey Fuhrer do Boston Fed (link).

É um artigo de revisão da literatura e os mais cabeçudos podem achar até enfadonho, mas para aqueles que como eu não precisam comprar capacete por encomenda, é bem informativo, honesto e as idéias estão muito bem organizadas.

sábado, 23 de janeiro de 2010

Ausência de aprendizado

Nos anos 90, uma pequena literatura econômica surgiu estudando a questão do aprendizado social (social learning). Uma das perguntas que esta literatura tentava responder é porque sociedades (ou grupos) não aprendem. Um exemplo interessante é nossa bela e inculta América Latina, onde a cada 2 ou 3 décadas, o populismo ressurge com consequências desastrosas.

Eu acabei de encomendar o livro “The Political Economy of Argentina in the Twentieth Century” escrito por Roberto Cortés Conde (link).

Em uma edição recente do Journal of Economic History (link) há uma revisão favorável deste livro (por David Rock), em que encontrei o seguinte trecho que gostaria de ter escrito:

By and large, the economists agreed about what went wrong in Argentina during the second half of the twentieth century, a consensus summarized in one word: Perón. Raúl Prebisch, the noted Argentine economist (...) CEPAL (...) made the first analysis of Perón misdeeds soon after his fall from power in 1955 (...) Perón ruined the farm export sector by discriminatory taxation (ênfase nossa); he made strategic miscalculations in efforts to develop domestic manufacturing; he enhanced the power of unions and set up prolonged struggles over the distribution of income; he dissipated foreign reserves and investment resources; and he created a gigantic and highly inefficient state sector through nationalization.

A Argentina é um exemplo acabado de ausência de aprendizado social. Se eles tivessem capacidade de agregar informação e aprender, não existiria um partido peronista. Como eles não sabem, o país repete novamente os mesmos erros de antanho.

quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

O sonho de Odisseu

A crise recente na Argentina serviu de pretexto para a abertura da temporada de disparates de 2010. É bem verdade que a criação de bobagens jamais respeitou o calendário gregoriano, mas desta vez seu escopo foi substantivamente alargado: deixamos o domínio da economia para adentrarmos, com tração nas quatro, no pantanoso terreno da democracia.


Recapitulando, o governo argentino ordenou ao Banco Central (BCRA) que transferisse cerca de US$ 6 bilhões de suas reservas para um fundo destinado ao pagamento da dívida. O presidente do BCRA, Martín Redrado, recusou-se, baseado na legislação vigente, que assegura que as reservas só podem ser utilizadas para pagamento de obrigações do próprio BCRA. (Aliás, este argumento – que os dólares do BCRA pertencem a ele, e não ao Tesouro argentino – é o que impede credores de sequestrarem as reservas para pagamento das dívidas em default).

Devido à recusa de Redrado, o governo o demitiu, embora a lei argentina estabeleça que o presidente do BCRA só possa ser demitido pelo Congresso. Baseado nisto Redrado conseguiu, num mandado de segurança, ordem que o mantém no cargo, deixando o BCRA na curiosa situação de possuir dois presidentes (se cada um pudesse ficar com a responsabilidade por só metade da inflação, até que não seria tão ruim*).

Estes são os fatos. Passemos às tolices.

Há quem reconheça que as regras existem e foram descumpridas pelo governo argentino, mas argumenta que regras “ilegítimas” não devem ser observadas. Simultaneamente, porém, assegura que “insubordinação se pune”, postura esquizofrênica, pois prega a obediência a uma decisão que desobedece a lei.

Leis existem, entre outras coisas, para limitar o poder do soberano. Não é difícil imaginar o que cada governante (ou cada indivíduo) faria se os limites da lei pudessem ser violados com base no que cada um considera “legítimo”. Duvido, por exemplo, que o autor do argumento tenha apoiado a decisão do governo Bush de manter prisioneiros em Guantánamo, ainda que os formuladores da “guerra ao terrorismo” achassem seus motivos e, logo, suas ações perfeitamente “legítimos”, apesar de sabidamente ilegais. Acredito também que não endosse a ação dos que acham “legítimo” assassinar médicos que praticam o aborto nos EUA.

Outros clamam que a medida não violaria a independência do BC porque esta diria respeito somente à política monetária, quando o caso se refere à política fiscal. Não veem (ou fingem não ver) que esta linha de argumentação limitaria qualquer ação do BCRA que tenha efeitos fiscais. Uma elevação de taxa de juros, por exemplo, poderia ser questionada com base na mesma lógica.

Defendem ainda que o princípio da independência plena dos bancos centrais seria “antidemocrático”, embora todas as grandes democracias deste lado da galáxia adotem nada menos que a independência plena dos bancos centrais (e, não, o Federal Reserve não tem uma “independência razoável” como o BC brasileiro: seus diretores têm mandatos fixos e escolhem sua própria meta de inflação).

Este arranjo não surgiu por acaso. Da mesma forma que a lei limita o poder do soberano, BCs independentes foram criados exatamente para evitar que um bem público, a estabilidade de preços, pudesse ser ameaçada pelas conveniências políticas do príncipe. Democracias descobriram que certas amarras autoimpostas são cruciais para prevenir que o canto das sereias produza resultados que lhes causem danos às vezes irreparáveis, mas parece haver quem ainda não tenha amadurecido o suficiente para compreender isso.




* Devo esta observação a meus colegas Juan Pablo Cabrera e Rodrigo Park

(Publicado 20/Jan/2010)

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

As eleições no Chile


Notícia muito interessante vinda do Chile: o economista Sebastian Pinera, com Ph.D. em Harvard e 1000+ vezes mais bem sucedido no mundo dos negócios que o Tio "O", se elegeu presidente do Chile, quebrando a dominação por 20 anos da Concertación, uma coalizão de partidos de centro e esquerda que governa o Chile desde o fim da ditadura de Pinochet.

Há alguns dias atrás, os mineiros da empresa estatal Codelco conseguiram após uma greve um bônus de 24 mil dólares. Os mineiros da BHP Billiton, a multinacional australiana, teriam recebido 28 mil dólares de bônus. Em homenagem ao povo chileno, eu estou postando uma foto das crianças dos mineiros em greve. Fala mais que mil palavras.

domingo, 17 de janeiro de 2010

Uma proposta do Irineu de Carvalho Filho


O seguinte texto apareceu na forma de comentário, mas vale a pena deixá-lo como post.
* * *
Caro Alex,

Eu gostaria de divulgar esse texto que eu escrevi sobre a questão do Haiti, no teu blog e em outros, na esperança que meus apelos cheguem aos ouvidos daqueles que têm poder para decidir.

“No dia 12 de janeiro de 2010, um grande terremoto destruiu a cidade de Porto Príncipe, capital do Haiti, causando a morte de mais de 100.000 pessoas em algumas estimativas. A magnitude da calamidade se deveu à combinação de forças da natureza que não podemos controlar atuando sobre a infra-estrutura precária de uma cidade que reflete a pobreza do Haiti.

Diferentes analistas podem apontar causas diversas para a miséria daquele país, o mais pobre da América Latina, assim como diferentes receitas para melhorar a vida dos milhões de haitianos. Entretanto, um fato inexorável merece ser ressaltado: o futuro do Haiti foi hipotecado por gerações passadas que esgotaram os nutrientes de seu solo, poluiu seus rios e assim condenou o país a pobreza.

Neste momento de emergência, faz-se necessário que governos do mundo e pessoas de melhor fortuna dêem sua contribuição para o resgate das vítimas e para evitar que fome e pestilência tomem a vida de outros. Mas passada a emergência imediata, a possibilidade de melhorias substanciais na qualidade de vida dos 10 milhões de haitianos lutando por sua subsistência em uma natureza arrasada é duvidosa. Os países ricos, assim como as instituições multilaterais podem fazer chover recursos, mas especialistas em desenvolvimento, como William Easterly da New York University, argumentam que a experiência em muitos países pobres é que a ajuda externa tem efeitos desapontadores.

Eu gostaria então de lançar uma proposta que muitos podem achar impalatável em um primeiro momento, mas que causaria uma melhoria palpável na vida de muitos. No passado, nosso país funcionou como uma válvula de escape para milhões de europeus e japoneses miseráveis. Somente em São Paulo, um milhão e meio de imigrantes passaram pela Hospedaria do Imigrante na Moóca entre 1893 e 1928. Apenas no ano de 1895, 105.000 imigrantes passaram por aquela hospedaria a caminho das plantações de café e uma vida de classe média longe das grandes guerras mundiais para seus descendentes.

Por que não abrirmos a porta de nosso país para os haitianos? Se nosso país acolhesse 100.000 haitianos, estes seriam apenas uma gota no oceano de 200 milhões de brasileiros. Para cada um desses haitianos, mesmo um emprego ganhando um salário mínimo representaria uma melhoria de vida considerável que provavelmente seus descendentes não pudessem alcançar em gerações ficando na ilha.

Nossa experiência histórica com imigração não poderia ser mais positiva. Nosso país acolheu gente dos mais diversos cantos do mundo (avôs e avós de muitos de nós) e assim como geração após geração de imigrantes abraçaram nossa cultura, o Brasil cresceu com as contribuições deles. Hoje temos dois prováveis candidatos a presidente, que são filha e filho de pais que vieram de longe.

Está na hora de revivermos essa história. Somos grandes, somos orgulhosos e podemos trazer um alívio real para os pobres de longe como fazíamos no começo de nossa República. Graças a 16 anos de inflação baixa, o Brasil hoje tem vivido um momento especial, nosso desemprego tem caído mesmo durante uma grande crise internacional, e programas como o Bolsa Família nos deixaram próximos de erradicar a miséria em nosso país.

Presidente Lula, com uma canetada sua, o Brasil pode salvar 100.000 haitianos da miséria, dando-os a oportunidade de recomeçar suas vidas em nosso Brasil. Faça isso e receberá o meu aplauso para sempre.

Ou então, seja ousado, e inaugure uma nova era de solidariedade entre os povos, abrindo a porta de nossa cidadania para meio milhão de haitianos. A liderança que entra para a História não é aquela dos discursos em foros internacionais, mas sim a coragem política para realizar atos concretos que transformam o mundo para melhor. Dê um passo gigantesco, e será um gigante.”

Irineu Evangelista de Carvalho Filho

sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

Coerência

Concordo 100% com o posto do "O". Imagino, porém, qual seria a conclusão dos autores se fôssemos aplicar o mesmo critério para o Real, com base no saldo comercial brasileiro relativamente aos países da América do Sul. A figura seria a seguinte (nota: eu me limitei aos países do Mercosul - Argentina, Paraguai, Uruguai - mais alguns cujo comércio fosse relevante, no caso, Chile, Colômbia, Equador, Peru e Venezuela).



Fosse este o critério para determinar se uma moeda está ou não desalinhada (obviamente não é), como argumentado a respeito do renminbi, a conclusão obrigatória seria que o Real não estaria desalinhado.

Mas será que os autores estão preparados para aceitar esta conclusão, ou o critério só vale para a China e seus vizinhos asiáticos?

P.S.

A pedido, os dados de 2008 seguem abaixo. A notar que o câmbio de 2009 foi, em média, mais depreciado (relativamente ao dólar e à cesta de moedas) do que em 2008.


A última do Bresser Pereira (e do Márcio Holland)...

Não é a primeira vez que o professor emérito enfia o pé nessa jaca e aparentemente nenhum dos seus dependentes tem capacidade ou culhões para corrigir essa escorregada recorrente do gênio renascentista.

No artigo na Valor Econômico de 14 de janeiro de 2010, os professores da EESP/FGV Luiz Carlos Bresser Pereira e Márcio Holland duetam a quatro mãos sobre a política cambial chinesa e sobre os desequilíbrios globais ("global imbalances"). A tese dos autores é que a moeda da China não estaria desalinhada e para defender sua posição, eles lapidaram essa pérola:

"De outro lado, se a taxa de câmbio da China estivesse mesmo “desvalorizada” artificialmente, a ponto de ser a causa dos “desequilíbrios globais”, a China deveria também gerar superávits comerciais com os demais países asiáticos. Não é isso que acontece. O gráfico mostra o saldo comercial das economias dinâmicas asiáticas, a saber, Japão, Coreia, Malásia, Cingapura, Tailândia e Vietnã, com a China."

Em resumo, para os autores a observação que a China tem déficits comerciais com Japão, Cingapura ou Coréia seria evidência que o renminbi não estaria desalinhado.

Primeiro, é óbvio para qualquer pessoa que pensou no problema por mais de 15 minutos que desalinhamento cambial é um fenômeno multilateral, não bilateral. Mas deixa para lá...

Pois essa não é a pérola a que me referia... O que os professores parecem ignorar é que a China é a última parada em uma linha de produção que começa no Japão, Cingapura, Taiwan e Coréia do Sul e tem como destinação final os mercados do resto do mundo, em particular dos Estados Unidos. Concretamente, a Coréia ou Taiwan exportam placas de memória ou semicondutores para a China, onde firmas muito frequentemente de propriedade coreana ou taiwanesa montam o equipamento e exporta-o para os EUA (metade das exportações chinesas são feitas por firmas estrangeiras, mais um quarto por joint ventures, vide tabela 2 em Manova e Zhang).

Para ter uma idéia do volume desse comércio, em 2005, firmas estrangeiras com plantas na China exportaram 276 e importaram 228 bilhões de dólares. Parte substancial dessas exportações vai para os Estados Unidos e dessas importações vem dos países mais desenvolvidos do Leste Asiático.

Assim, seja lá qual for a taxa de câmbio, a China vai ter um déficit comercial com a Coréia. Mais que isso: quanto mais desvalorizado em termos reais o renminbi estiver, mais competitiva vai ser a linha de montagem chinesa, e provavelmente maior vai ser o déficit comercial chinês com a Coréia, que é dominado pelo comércio de bens intermediários que vão ser montados pela mão-de-obra barata da China.

ADENDO: Também soa bem engraçada a caracterização do Dani Rodrik como "economista ocidental". E viva a comédia involuntária!

domingo, 10 de janeiro de 2010

A maxi-desvalorização do Chavez


A notícia desse fim de semana foi a maxi-desvalorização do bolivar fuerte venezuelano.

Eu não sou um expert sobre Venezuela, mas a história parece-me um caso clássico de inconsistência entre os regimes fiscal e cambial e o estudo de caso tem grande valor didático.

A chave é entender a restrição orçamentária do governo. Do lado dos gastos, o governo paga salários e compra bens majoritariamente em bolivares fuertes. Com uma inflação em média de 30%, para se manter o mesmo nível de gasto do governo e salários reais dos servidores, as receitas devem crescer no mínimo a mesma taxa que a inflação (ou mais se houver aumentos reais de salários ou incrementos na qualidade ou quantidade dos serviços públicos).

Mas grande parte das receitas públicas é derivada (diretamente ou indiretamente) do setor do petróleo que é exportador e tem receitas em dólar. Para que tais receitas cresçam a 30% ao ano [ed. considerando que o volume de petróleo é inelástico no curto e médio prazo], ou o preço do petróleo em dólares cresce a essa taxa, o que aconteceu por alguns anos até 2008, ou o preço do dólar em termos de bolivares fuertes vai ter que compensar.

Como o preço do petróleo estabilizou desde meados de 2008, faz-se necessária uma maxi-desvalorização para que as receitas acompanhem o crescimento das despesas.

sábado, 9 de janeiro de 2010

Coincidências

Vejam este post do Krugman, em particular o penúltimo parágrafo. Não parece algo que já encontramos?

sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

Estarei fora esta semana

Pretendo moderar os comentários à noite. Fiquem à vontade. E o "O" continua postando.

quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

Os cadarços do Barão

Uma empresa precisa atingir sua meta de lucro para o ano, mas acredita que não vai conseguir. Seu proprietário, porém, tem um banco e põe em prática um plano arrojado. A empresa toma uma dívida de R$ 100 milhões e deposita o dinheiro no banco, recebendo pelo depósito o mesmo que paga pela dívida. O banco, por sua vez, com os novos recursos compra da empresa o direito de receber um fluxo de pagamentos há muito disputado, na prática antecipando uma receita duvidosa para o período corrente o que permite à empresa bater a meta. Todos saem felizes, mas se esta engenharia financeira evocou para o raro leitor a imagem do Barão de Munchausen se levantando do chão pelos próprios cadarços, bem, saiba que não está sozinho.


O exemplo não é imaginário. Use “bilhões” ao invés de “milhões”, “Tesouro Nacional” no lugar de “empresa”, e “BNDES” no lugar de “banco”, e terá uma descrição sucinta do ocorrido na última semana de 2009, quando o BNDES comprou do Tesouro Nacional R$ 5,2 bilhões de dividendos que este teria a receber desde 1989 (!). Ao que parece, não bastou deduzir da meta fiscal os investimentos do PAC, o Fundo Soberano, nem o quadrado da distância em cúbitos entre o Ministério da Fazenda e o do Planejamento. No final do ano foram as manobras contábeis que salvaram a meta, mesmo após sua redução expressiva.

Isto não significa que o desempenho fiscal nos levará à ruína, mas este episódio serve para induzir à reflexão acerca de alguns tópicos importantes de política fiscal.

Em primeiro lugar, a meta fiscal tem um papel a desempenhar no que respeita à formação de expectativas dos agentes econômicos, isto é, o valor numérico da meta deve significar alguma coisa. Dizer que a meta é de “x”% do PIB, mas apenas se não chover na Quarta-Feira de Cinzas de um ano bissexto terminado em “8”, pode ajudar a escamotear eventuais desvios, mas não colabora muito para a necessária transparência da política.

A meta é um compromisso do governo com a sociedade. Caso não seja possível cumpri-la em determinado ano, que se diga isso com todas as letras, explicite-se o porquê, e se tracem os planos para corrigir os rumos num horizonte razoável, ou seja, tratemos a inteligência do distinto público com respeito.

Em segundo lugar, há que se pensar na validade do conceito de dívida líquida, isto é, se devemos mesmo descontar dos passivos do setor público ativos como reservas internacionais ou créditos ao BNDES. Sempre defendi este conceito por acreditar que o excesso de reservas sobre dívida em moeda estrangeira protege (como mostrado na crise) o país de choques externos. Por outro lado, não parece haver qualquer tipo de proteção associado à criação de ativos denominados em reais, mas a simples possibilidade de uso de instrumentos fiscais fora das instâncias normais desta política.

E que não se venha afirmar que tudo foi em nome de “políticas fiscais anticíclicas”. A política fiscal no Brasil não é, e nunca foi, anticíclica, e veremos isto quando o superávit primário de 2010 ficar aquém dos valores registrados até 2008, apesar da recuperação da arrecadação. De fato, segundo dados de artigo recente do Secretário de Política Econômica, o aumento do investimento federal em 2009 foi de meros 0,2% do PIB, contra 0,38% do PIB de gastos com pessoal (descontado o imposto de renda) e 0,45% dos gastos previdenciários, os dois últimos implicando redução permanente do saldo primário, estimulando a demanda interna mesmo quando o país cresce. É política anticíclica?

Isto, leitor, nem o Barão de Munchausen explica.

(Publicado 6/Jan/2010)

terça-feira, 5 de janeiro de 2010

Os 5% do professor emérito

O gênio renascentista e professor emérito Luiz Carlos Bresser Pereira tem escrito recentemente sobre “o aumento da taxa média de crescimento da economia brasileira de 3% para 5% do PIB a partir do terceiro ano do governo Lula”.

Eu quase abri uma garrafa de champanha com essa novidade! Viva o Brasil!

Mas voltando à realidade, a taxa de crescimento do governo Lula em seu primeiro mandato foi 3.5% por ano; e usando os números do World Economic Outlook para 2009 e 2010 a taxa de crescimento para o segundo mandato seria de 3.4% ao ano. Diga-se de passagem, se usarmos esta mesma projeção para calcular a taxa de crescimento a partir do terceiro ano do governo Lula vamos chegar aos mesmos... 3.4% ao ano...

Quem sabe alguma boa alma teria acesso ao mais recente Consensus Forecasts? Alex? Se eu não me engano as projeções do Consensus Forecasts para os próximos 5 anos também são bem próximas dessa média de 3.5%.

De onde o professor emérito tirou os 5%?

domingo, 3 de janeiro de 2010

A questão do câmbio

O debate mais acalorado entre economistas no Brasil hoje em dia diz respeito à questão do câmbio. Seguindo este debate de uma distância segura, eu não consegui deixar de notar que este às vezes passa ao largo de contribuições teóricas e empíricas que são parte do ferramental básico do economista em outras paragens.

Como eu recentemente aprendi que vários estudantes de economia e até alguns professores freqüentam quietos esse boteco, gostaria então de propor um projeto de pesquisa que pode gerar um artigo bem interessante, ainda que requisite um bocado de paciência.

Seria interessante se algum pesquisador coletasse as dezenas (ou centenas?) de artigos sobre taxas de câmbio nas principais revistas brasileiras e nos compêndios de encontros da ANPEC e SBE nos últimos 10 anos e documentasse o nome do autor, sua filiação institucional, quais os fatores que ele considera (implícita ou explicitamente) relevantes na determinação da taxa de câmbio real, e qual sua recomendação de política econômica quando ele apresenta alguma.

Minha hipótese é que muito da pesquisa brasileira sobre determinação da taxa de câmbio, diferentemente da literatura internacional, ignora as variáveis de política fiscal como determinantes das taxas reais de câmbio.

Um meta-artigo que documentasse como as opiniões sobre os determinantes das taxas de câmbio variam entre escolas de pensamento no Brasil, e como o debate brasileiro difere do debate internacional seria bem interessante.