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domingo, 17 de janeiro de 2010

Uma proposta do Irineu de Carvalho Filho


O seguinte texto apareceu na forma de comentário, mas vale a pena deixá-lo como post.
* * *
Caro Alex,

Eu gostaria de divulgar esse texto que eu escrevi sobre a questão do Haiti, no teu blog e em outros, na esperança que meus apelos cheguem aos ouvidos daqueles que têm poder para decidir.

“No dia 12 de janeiro de 2010, um grande terremoto destruiu a cidade de Porto Príncipe, capital do Haiti, causando a morte de mais de 100.000 pessoas em algumas estimativas. A magnitude da calamidade se deveu à combinação de forças da natureza que não podemos controlar atuando sobre a infra-estrutura precária de uma cidade que reflete a pobreza do Haiti.

Diferentes analistas podem apontar causas diversas para a miséria daquele país, o mais pobre da América Latina, assim como diferentes receitas para melhorar a vida dos milhões de haitianos. Entretanto, um fato inexorável merece ser ressaltado: o futuro do Haiti foi hipotecado por gerações passadas que esgotaram os nutrientes de seu solo, poluiu seus rios e assim condenou o país a pobreza.

Neste momento de emergência, faz-se necessário que governos do mundo e pessoas de melhor fortuna dêem sua contribuição para o resgate das vítimas e para evitar que fome e pestilência tomem a vida de outros. Mas passada a emergência imediata, a possibilidade de melhorias substanciais na qualidade de vida dos 10 milhões de haitianos lutando por sua subsistência em uma natureza arrasada é duvidosa. Os países ricos, assim como as instituições multilaterais podem fazer chover recursos, mas especialistas em desenvolvimento, como William Easterly da New York University, argumentam que a experiência em muitos países pobres é que a ajuda externa tem efeitos desapontadores.

Eu gostaria então de lançar uma proposta que muitos podem achar impalatável em um primeiro momento, mas que causaria uma melhoria palpável na vida de muitos. No passado, nosso país funcionou como uma válvula de escape para milhões de europeus e japoneses miseráveis. Somente em São Paulo, um milhão e meio de imigrantes passaram pela Hospedaria do Imigrante na Moóca entre 1893 e 1928. Apenas no ano de 1895, 105.000 imigrantes passaram por aquela hospedaria a caminho das plantações de café e uma vida de classe média longe das grandes guerras mundiais para seus descendentes.

Por que não abrirmos a porta de nosso país para os haitianos? Se nosso país acolhesse 100.000 haitianos, estes seriam apenas uma gota no oceano de 200 milhões de brasileiros. Para cada um desses haitianos, mesmo um emprego ganhando um salário mínimo representaria uma melhoria de vida considerável que provavelmente seus descendentes não pudessem alcançar em gerações ficando na ilha.

Nossa experiência histórica com imigração não poderia ser mais positiva. Nosso país acolheu gente dos mais diversos cantos do mundo (avôs e avós de muitos de nós) e assim como geração após geração de imigrantes abraçaram nossa cultura, o Brasil cresceu com as contribuições deles. Hoje temos dois prováveis candidatos a presidente, que são filha e filho de pais que vieram de longe.

Está na hora de revivermos essa história. Somos grandes, somos orgulhosos e podemos trazer um alívio real para os pobres de longe como fazíamos no começo de nossa República. Graças a 16 anos de inflação baixa, o Brasil hoje tem vivido um momento especial, nosso desemprego tem caído mesmo durante uma grande crise internacional, e programas como o Bolsa Família nos deixaram próximos de erradicar a miséria em nosso país.

Presidente Lula, com uma canetada sua, o Brasil pode salvar 100.000 haitianos da miséria, dando-os a oportunidade de recomeçar suas vidas em nosso Brasil. Faça isso e receberá o meu aplauso para sempre.

Ou então, seja ousado, e inaugure uma nova era de solidariedade entre os povos, abrindo a porta de nossa cidadania para meio milhão de haitianos. A liderança que entra para a História não é aquela dos discursos em foros internacionais, mas sim a coragem política para realizar atos concretos que transformam o mundo para melhor. Dê um passo gigantesco, e será um gigante.”

Irineu Evangelista de Carvalho Filho

Reações:

34 comentários:

Alex,
bem a propósito do Haiti, só para comparação:
Bônus dos executivos do Goldman Sachs em 2009 = US$ 23 bilhões
PIB do Haiti em 2009 = US$ 7 bilhões

Legal o texto. Sempre quando pensava na árdua tarefa de desenvolver um país miserável, com suas enlouquecedoras complexidades, perguntava-me se não seria uma boa idéia o mundo abrir as fronteiras.

abraços, Zamba

irineu:

with all due respect, sua proposta é bem ingenua, nao? e um pouco populista, nao?

primeiro: voce tem certeza de que que os haitianos querem vir pra cá, ou mesmo sair de lá?

segundo: só abrir fronteiras resolve? como faria para acomodar? o brasil nao conseguiu sequer acomodar poucas centenas de refugiados do iraque, nao?

terceiro: achar que a acomodacao dos imigrantes na epoca do café ("uma vida de classe média") foi tranquila demonstra... sei lá, assista, por exemplo, gaijin.

quarto: o que o easterly esá fazendo neste post? se vc quiser uma lista de países que sairam de uma guerra devastadora e viraram desenvolvidos, digite "plano marshall" no google.

como diria outro economista, nao existe problema dificil para o qual nao apareca alguem com uma solucao facil e provavelmente errada.

por outro lado, se houver mesmo haitianos com vontade de imigrar para o brasil, e se houver mesmo empecilhos burocraticos para isso, entao sua porposta talvez faça algum sentido.

abs
sgold

É! Tem bem espaço aqui no Gigante-em-berço-esplêndido": 8,5 milhões km quadrados. Mais uns 500 mil... A Rocinha tem uns 300mil. Mais uma Rocinha e meia. Nada muito grande demais, não! Quem sabe, não poderiam vir todos os que lá se encontram? Uns 5 milhões? Cabem bem aqui! Sugestão: mais “laje”!!!

Irineu,

gostaria de saber porque não de Dafur? ou do Zimbabwe? com seus pobres "bilionários", já que estamos em um blog de economia. Talvez alguns da faixa de Gaza. Antes de idéias como essa, sugiro que vc frequente uma favela de Sampa ou do Rio. Acho que vc foi picado pelo pelo populismo bolivariano que reina por estas latitudes.

Irineu,

Uma perguntinha boba: os haitianos têm como povo características culturais que poderiam ser prejudiciais para o crescimento econômico. Absorver uma leva muito importante deles no Brasil não poderia acabar sendo ruim para o país? Sei que tem muitos deles nos EUA e no Canadá, mas não tenho certeza se eles conseguiram se dar bem nesses países e não acabaram se tornando um problema para as autoridades americanas e canadenses.

É só uma pergunta sem intenção de polemizar...

Cabe lembrar que na época das imigrações, havia um grande espaço a ser explorado/povoado, terras a serem cultivadas, ou seja, havia trabalho.
Não é o caso agora.

A proposta é ingênua e ridícula.
Sempre acompanho esse blog pelos excelentes posts, mas este decepcionou.

Eu estou curioso sobre quanto que isso custaria (comparado a entregar a ajuda diretamente e o MINUSTAH). Se for caro, nossos heterodoxos podem gostar pois estimularia a demanda agregada!

O que você acha, Alex? Posso assumir que já que postou, você aprova a mensagem?

A ajuda financeira mundial a paíss pobres é de mais de US$ 100 bi por ano. Ocorre que, em média, cada país recebe ajuda de 30 organizações distintas, que fazem, tamém em média, 200 visitas anuais de avaliação. Para cada uma da organizações há que fazer relatórios de acompanhamento, cada qual diferente do outro. Para cada visita há que mobilizar os ministérios envolvidos, etc, etc.
O problema não é falta de dinheiro, é falta de coordenação, de gerenciamento.
Em geral os programas de ajuda são anuais, sem garantia de que seguirão existindo até provocar real impacto. Assim não há como funcionar.
Há populações na Asia com solo mais degradado, com topografia pior que a do Haiti, que conseguiram sair da pobreza extrema, sem precisar imigrar.
O governo Lula deveria ajudar efetivamente quem quer por dinheiro nesse momento, e não reclamar porque os EUA estão agindo rapidamente com o objetivo de coordenar.

Acho a ideia boa. Esse ano dei aula para um aluno que veio do Iraque. Tenho certeza que o povo do Haiti pode encontrar outros professores, empregadores, compradores, de acordo com suas possibilidades e necessidades.

Se alguém não quer vir ao Brasil, ou é ruim da cabeça, ou doente do pé. Outros virão no lugar, com vontade de trabalhar.

Essa proposta é ingênua, para não dizer ridícula.

"o futuro do Haiti foi hipotecado por gerações passadas que esgotaram os nutrientes de seu solo, poluiu seus rios e assim condenou o país a pobreza."

É por isso que o Haiti não cresce?

Essa explicação que culpa o passado de colônia extrativa como causa de todas as mazelas de um país é coisa de garoto de segundo grau. Acho que vc deveria ler um pouco da literatura de desenvolvimento economico.

São Paulo está à beira de um colapso (creio que as notícias de 2009 bastariam para evidenciar o fato), mas a idéia seria boa se a imigração ocorresse em outras cidades.

"Essa explicação que culpa o passado de colônia extrativa como causa de todas as mazelas de um país é coisa de garoto de segundo grau. Acho que vc deveria ler um pouco da literatura de desenvolvimento economico."

Hããã... Acho que você deveria ler um pouco da história do Haiti. Isto ocorreu DEPOIS do Haiti se tornar independente. Caso queira se ilustrar sobre o assunto, o livro "Colapso" do Jared Diamond tem um capítulo interessante sobre a comparação do Haiti com seu vizinho na ilha, a República Dominicana. A devastação ambiental (decorrente, entre outros, de problemas institucionais) é um dos principais motivos do atraso econômico, sim.

"Acho que vc foi picado pelo pelo populismo bolivariano que reina por estas latitudes."

Hey, Marcelo, eu tenho minhas dúvidas sobre a ideia, pois nunca parei para pensar quanto custaria para trazer um imigrante, ensiná-lo a língua e adaptá-lo ao país, mas diminuir restrições ao movimento de pessoas é tudo menos bolivarianismo - é uma bandeira libertária.

Tenho fábricas de roupa em São Paulo.
Estou interessado em contratar mão de obra barata. Os bolivianos já estão ficando rebeldes.
Se você tiver contatos no Haiti, eu estou interessado em comprar umas 100 pessoas.

Há braços!!

"Essa explicação que culpa o passado de colônia extrativa como causa de todas as mazelas de um país é coisa de garoto de segundo grau. Acho que vc deveria ler um pouco da literatura de desenvolvimento economico."

Aconselho Acemoglu, Johnson e Robinson (2001); Acemoglu Johnson e Robinson (2002); ou Engerman e Sokoloff (2002). Para o caso do Brasil, você ainda pode ver, se quiser, Naritomi, Soares e Assunção (2007). Pelo contrário, no nível entre países, anônimo, se acredita que passado colonial, via instituições, seja uma das principais causas de sub-desenvolvimento econômico. Acho que a tua literatura de desenvolvimento econômico tá diferente da que eu conheço.

Caro "O",

O que quero dizer é que, essa mesma generosidade que permitiria 100k ou + de desabrigados haitianos(pq não de Darfur?), dificilmente admitiriam 1k de engenheiros americanos formados em Stanford! Isto sim seria uma bandeira libertária.

Abs

Alex, “O” e o resto da comunidade,

Muito obrigado por todos os questionamentos e comentários!

A proposta é ingênua? Talvez. O Canadá parece estar interessado em receber os haitianos (http://www1.folha.uol.com.br/folha/mundo/ult94u679569.shtml). Não vejo porque países como Brasil, EUA, França, Colômbia, Venezuela e México não possam ajudar também, cada um dentro de suas possibilidades.

Não assisti Gaijin, vou procurar.

A densidade populacional no Brasil é bem baixa, mesmo se descontarmos as áreas cobertas por florestas. Concordo com o anônimo que não seria uma boa idéia direcionar imigrantes para áreas congestionadas como o Rio de Janeiro.

Por que não Darfur, Zimbabwe? Existe uma grande distância cultural entre darfuris e o Brasil. Já o Zimbabwe, não tenho objeção alguma a receber imigrantes daquele país.

Os haitianos nos EUA têm muito boa reputação como imigrantes que ascendem socialmente pelo trabalho e em geral não causam problemas. Ainda que causassem, o Brasil conseguiu receber sem problemas centenas de milhares de imigrantes, incluindo um de meus bisavôs, de um certo país com reputação de violência endêmica no campo e famoso por clãs dedicados ao crime organizado.

Um dos anônimos mencionou que os tempos mudaram e não há mais fronteira agrícola para ocupar como havia no tempo da imigração européia. Meu contraponto é a contínua queda na taxa de desemprego e aumento do emprego total em tempos recentes que não deixa dúvidas quanto ao dinamismo da economia brasileira.

A questão dos custos é uma sugestão interessante. Vou investigar.

“Há braços!” Gostei de ver o conhecimento de História!

Que venham os engenheiros de Stanford também.

Abraços, Irineu

Creio que há algo mais importante que isso. Como economistas, nós deveríamos ser capazes de responder como se reestrutura uma economia devastada como a haitiana.
Dado minha formação e crenças, creio ser fundamental o desenvolvimento e consolidação de uma base monetária confiável, o que permitiria a melhora na dinâmica e desenvolvimento das trocas no Haiti, o que deverá facilitar o crescimento da economia do país.
Paralelamente, faz-se necessária a estruturação efetiva da esfera jurídica, cuja vaga lembrança é marcada pelo resquício da fase francesa e alguma influência americana. Em uma sociedade regida por contratos, a legislação e sistema de compulsão são fundamentais.
Creio que essas são bases mais fundamentais para a recuperação da economia do que gastos perdidos em infra-estrutura (não que a recuperação das estradas e das cidades seja secudária).
E aí? Falamos tanto de política macro, cambio, econometria etc, mas e essa questão fundamental? Qual seria a peça fundamental a ser prioritariamente recuperada na economia haitiana?
Abs

José Carneiro

Vamos exportar usinas de açúcar e álcool para lá. Ficam do lado dos EUA e tem mão de obra baratíssima.

É só fazer um acordo com o governo...

"Qual seria a peça fundamental a ser prioritariamente recuperada na economia haitiana?"

A zero de jogo, Zé? Sem dúvida nehnhuma, "rule of law", entendida não apenas como a formulação de um conjunto de regras do jogo, como a capacidade de fazê-las valer.

O problema com isto é que, na situação de hoje, isto só me parece possível com perda (no mínimo parcial) da soberania e eu tenho seríssimas dúvidas se este tipo de coisa poderia funcionar.

E vocês? Por onde começariam?

Uma "CLT" Chinesa,estabilidade júridica e garantia de sigilo bancário para quem colocasse dinheiro la (com excessão de dinheiro oriundo de tráfico de drogas,armas,corrupção),garantindo o sigilo de quem sonegasse imposto.

"com excessão de dinheiro oriundo de tráfico de drogas,armas,corrupção"

Acho que deveríamos incluir na exceÇão os que não sabem escrever "exceÇão".

Paul Romer tem a solução !

http://www.ted.com/talks/lang/por_br/paul_romer.html

Talvez, na dimensão Z do Ivo, o criminoso, quando vai abrir uma conta bancária, declara à instituição financeira "profissão: traficante".
Al Capone, inclusive, teria se safado nessa (a não ser que declarasse que sua profissão era gangster), pois escaparia da sua condenação por sonegação do imposto de renda.

Antes do ‘rule of law’, é necessário recuperar o monopólio da violência pelo Estado. Isso não é tão simples como parece. Mas é crucial e pré-requisito para o ‘rule of law’ (pode haver monopólio da violência sem ‘rule of law’, mas não dá para ter ‘rule of law’ sem o monopólio da violência).

É só quebrar o sigílo bancário nesses casos.O que não pode é quebrar o sigílo bancário do cidadão comun que tenta ser menos roubado pelo governo.

Alguém fluente em Símio pode me explicar:

(1) O que é "sigílo"?

(2) Como é que você sabe que o Ivo não é um traficante de drogas, armas, nem corrupto sem quebrar o SIGILO bancário (o que, a propósito, para variar, o Ivo não sabe o que é)?

Nesse caso pode quebrar,o que não poderia é um pagador de impostos ter seu sigilo bancario quebrado.

Alguém pode traduzir do português para o Símio? O Ivo está com dificuldades para entender a pergunta.

De onde que veio esse Ivo? Digo, de que pedra que ele saiu debaixo?

Meus caros,
Acho o tema interessante e vai além do Haiti. Somos uma nação de imigrantes e acho que deveríamos tratar melhor estes em tempos atuais (independente da origem do sujeito) - ou seja, ter uma legislação que facilitasse este processo de imigração nos tempos atuais (que é difícil até mesmo para o citado engenheiro de Harvard). Mas quero levantar dois pontos:
1- Me espanta certo sentimento de restrição à migração de mão de obra (nos comentários, não no blogueiro) em um blog de economia de grande qualidade.
2- Existe um problema concreto de queda rápida de nossas taxas de natalidade (a Europa já estaria entrando em uma segunda transição demográfica onde estas taxas estão despencando para 1,1). É bastante claro que a migração foi fundamental para a manutenção da economia destes países (a proporção de idosos na população seria simplesmente insustentável). Parece que estamos indo pelo mesmo caminho, porém sem esta solução relacionada à migração internacional (até aqui pelo menos).
Saudações,
Claudio

É uma proposta ousada, sem dúvida. Com o correto planejamento e execução, é exequível. Quem se habilita?